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Curso na UFF: Do galego ao português (e vice-versa)

Curso lecionado pelo professor da UFF Xoán Lagares. Terá lugar todas as QUINTAS FEIRAS (dias 1, 8, 22 e 29 de junho, e 6 de julho) das 14h ÀS 16h na SALA 214, BLOCO C, DO INSTITUTO DE LETRAS (UFF)

Objetivos

Oferecer alguns elementos para tentar compreender a situação sociolinguística da língua galega hoje.

Mostrar as principais diferenças entre as falas galegas e o português brasileiro, de modo a possibilitar o diálogo de alunos brasileiros com enunciados escritos e orais em língua galega.

Programa

1.- A formação histórica do sistema galego-português e a construção das línguas nacionais.

2.- O conflito linguístico na Galiza: as esferas do conflito.

3.- As variedades dialetais do galego e o problema normativo.

4.- Noções de fonética e fonologia: sistema vocálico e sistema consonântico.

5.- Noções de morfossintaxe e de léxico.

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Os estudos galegos em Niterói (RJ)

Xoán Lagares

Professor de Letras na Universidade Federal Fluminense (UFF)

O Núcleo de Estudos Galegos (NUEG) da Universidade Federal Fluminense tem já uma história longa, que se remonta a mais de vinte anos atrás. Durante todo esse tempo, mesmo sem contar com a presença de um professor leitor, o NUEG manteve uma programação constante de atividades que supõem uma efetiva intervenção na vida acadêmica no Instituto de Letras da universidade. O principal desafio de um centro de estudos galegos conveniado com a Xunta de Galicia é precisamente inserir a “questão galega”, suas particularidades linguísticas e culturais, nos principais debates do contexto acadêmico em que se localiza, permitindo um diálogo horizontal, direto e sem intermediações, com as outras culturas do mundo. Para uma cultura minoritária como a nossa, essa dimensão dialógica que faz da Galiza “célula de universalidade” é vital. Como muito bem sabia o galeguismo histórico, ela é uma condição imprescindível para a sua sobrevivência.

No Brasil, por causa dos vínculos linguísticos e históricos que nos unem, as formas de inserção da cultura galega na vida cultural e acadêmica encontram diversos caminhos para transitar. De fato, já em 1991, antes mesmo da inauguração do NUEG, que aconteceu oficialmente na universidade em 10 de janeiro de 1994, a professora Maria do Amparo Tavares Maleval, uma importante medievalista brasileira, idealizadora do projeto e fundadora do Núcleo, organizou um curso de extensão sobre Língua e Literatura Galegas, ministrado pela professora Teresa Fandinho Barreiro, com a colaboração do governo autonômico galego. No encerramento do curso é que foram realizadas as I Jornadas UFF de Cultura Galega. Os textos daquelas conferências foram publicados na revista da Faculdade, os Cadernos de Letras, no seu número 5 (Aspectos de Cultura Galega).

O convênio com a Xunta de Galicia se inicia no ano 1994, quando se realizam umas II Jornadas de Cultura Galega no Instituto de Letras. Os anais desse encontro foram publicados em Santiago de Compostela, pela Consellería de Educación e Ordenación Universitaria. Com a aposentadoria da professora Maleval, o professor Fernando Ozório Rodrigues passou a ser o Diretor do NUEG, auxiliado por mim como Vice-diretor.

Desde a sua fundação o NUEG não deixou de desempenhar atividades para divulgar a língua, a literatura e a cultura galegas, oferecendo cursos de extensão, promovendo ciclos de palestras, seminários e mesas redondas, projetando filmes seguidos de debates, publicando livros, editando CDs e possibilitando a participação de alunos e professores da UFF no Curso de Verão de língua e cultura galegas da Universidade de Santiago de Compostela.

Nestes anos diversos estudiosos e estudiosas da Galiza e do Brasil ministraram aulas em cursos de extensão organizados pelo NUEG; dentre eles, Carlos Paulo Martínez Pereiro, Francisco Singul, María Sol López Martínez, Lydia Fontoira, Beatriz Gradaílle, Reynaldo Valinho Álvarez, Baltasar Pena Abal, María Belén Posada, Diego Bernal, Denis Vicente Rodríguez, Susana Martínez, Elias Torres, Francisco Dubert, Elisa Fernández Rei, Rosario Álvarez, Henrique Monteagudo, Fernando Ozório e eu mesmo. Alguns desses cursos de extensão foram oferecidos em colaboração com o programa de pós-graduação de Estudos de Linguagem da UFF, fazendo parte das atividades desenvolvidas no Instituto de Letras para a formação de pesquisadores.

Em 2010 conseguimos implementar também um convênio CAPES-DGPU, inserido num programa de parceria acadêmica entre os respectivos ministérios da Educação do Brasil e da Espanha, entre a UFF e a Universidade de Santiago de Compostela, para a realização de seminários internacionais que explorassem a relação histórica entre o galego e o português brasileiro, com o título: “Galego e Português Brasileiro: história, variação e mudança”. Como produto desse convênio, houve um intercâmbio de pesquisadores galegos e brasileiros que possibilitou a elaboração de um projeto conjunto de pesquisa, que conta desde 2014 com apoio da CAPES brasileira e da DGPU espanhola. Daí resultaram novos intercâmbios de professores e estudantes, participações conjuntas em congressos e diversas publicações.

Sob a direção da professora Maria do Amparo Tavares Maleval foram publicados, entre 1996 e 2007, cinco números do periódico Estudos Galegos, com artigos sobre temas de língua e cultura galegas, desde o medievalismo até à idade contemporânea. Após a sua aposentadoria, e em colaboração com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a professora Maleval dirige uma coleção da Editora da UFF (EDUFF), chamada “Estante Medieval”, onde o NUEG vem publicando estudos inéditos sobre literatura e cultura medieval galego-portuguesa, como, por exemplo, Os cavaleiros que fizeram as cantigas: aproximação às origens socioculturais da lírica galego-portuguesa, de autoria do professor José António Souto Cabo, da Universidade de Santiago de Compostela, ao mesmo tempo que vem reeditando estudos e edições clássicas como, por exemplo, As cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e estudos dispersos, de autoria do filólogo alemão Oskar Nobiling, organizado pela professora Yara Frateschi Vieira.

Os caminhos percorridos para o diálogo com o mundo acadêmico brasileiro no nosso caso privilegiam, como vemos, os estudos medievais e os linguísticos. As atividades sobre cultura medieval não se reduzem à publicação de livros, pois o NUEG produziu, em parceria com grupos de música da UFF, três CDs: em 1997, o CD Cânticos de amor e louvor, gravado pelo Conjunto de Música Antiga da UFF, com “Cantigas de Amigo” de Martin Codax e “Cantigas de Santa Maria”; em 1999, o CD Annua Gaudia, a Música do Caminho de Santiago, gravado pelo Conjunto Longa Florata; e em 2005, o CD Medievo-Nordeste, também gravado pelo Música Antiga da UFF.

Durante o ano 2010 foi realizado um ciclo de palestras sobre políticas normativas, que deu lugar a um livro coletivo organizado por mim e pelo professor da Universidade de Brasília Marcos Bagno, publicado na Parábola Editorial em 2011 com o título Políticas da norma e conflitos linguísticos. Em 2012 foi publicado pela EDUFF o livro com os estudos dos seminários internacionais galego-brasileiros realizados no ano anterior, com o título Galego e Português Brasileiro: história, variação e mudança.

Neste momento estamos em processo de elaboração de um dossiê sobre galego-português na revista da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Labor Histórico. Também estamos realizando um novo site para o NUEG, onde informaremos sobre as nossas atividades, disponibilizaremos as nossas publicações e ofereceremos portas de entrada a recursos linguísticos e literários e a instituições e associações da cultura galega. Atualmente, é possível acompanhar as nossas atividades na página do Núcleo no Facebook: https://www.facebook.com/nueg.uff/.

O próximo curso de extensão projetado, sobre o Caminho de Santiago, será ministrado precisamente pela fundadora do NUEG, a professora Maleval. Os caminhos só existem enquanto são transitados. Quando são abandonados, eles somem entre o mato, que apaga os seus rastos. O do Núcleo de Estudos Galegos da UFF continua sendo um caminho muito trilhado e por onde todo o mundo pode passar.

 

 

 

 

 

Xoán Lagares: “Só temos a ganhar com o contato com o português”

Xoán Lagares (A Coruña 1971) é professor no Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense (UFF) de Niterói, onde faz parte do Núcleo de Estudos Galegos. Doutor pela Universidade da Corunha (2000), foi professor-leitor de galego na Universidad de Salamanca (Espanha) e posteriormente professor de Linguística Histórica na Universidade de São Paulo (USP). As suas áreas de pesquisa vão desde a linguística histórica até a sociolinguística. Nos últimos anos tem contribuído também ao debate em torno ao papel do galego além das fronteiras da Galiza.

1. Como um pesquisador galego acaba dando aulas na USP e na UFF? A emigração galega ao Rio e ao Brasil começa já no século XIX, e as organizações de emigrantes do Estado espanhol estão lotadas de pessoas nativas da Galiza. É o Brasil um destino natural para as galegas e galegos?

O único que posso dizer é que a vida dá muitas voltas e que nunca sabemos o que pode acontecer… Vim ao Brasil por motivos pessoais, num momento em que eu era professor-bolsista de galego em Salamanca, com a tese já defendida, e com poucas chances naquele momento de emprego estável do outro lado do oceano. O concurso na Universidade de São Paulo foi o primeiro que aconteceu quando já estava com os meus diplomas revalidados no Brasil, tentei sorte, sem muita esperança, apenas para tomar conhecimento do ambiente acadêmico brasileiro, e acabei passando. Foram dois anos de muito aprendizado lá. Mas eu continuava indo e vindo cada semana entre Rio e São Paulo. Exatamente, quando a minha filha estava para nascer foi aberto o concurso na Universidade Federal Fluminense, e com ele a oportunidade de morar e trabalhar definitivamente no Rio. Estou aqui desde então.

Sem dúvida, o Brasil é sempre uma opção para as galegas e galegos. Não sei como isso era visto pelos primeiros emigrantes no século XIX, mas a língua facilita claramente a integração.

2. Você faz parte do Núcleo de Estudos Galegos e tem participado de iniciativas com outros centros de estudos galegos no Brasil. Qual é o objetivo destes centros para a sociedade brasileira, e que interesse pode ter o trabalho que aqui se faz para as galegas e galegos do país?

Cada centro tem a sua história e sobre os objetivos comuns haveria que perguntar à Secretaria Xeral de Política Linguística. Na realidade, eles surgem por iniciativa pessoal de pesquisadores brasileiros, que em algum momento desejam manter esse vínculo com a Galiza. Não há muito planejamento estratégico do outro lado, e isso é um problema. Eu no NUEG da UFF tento contribuir para manter um espaço permanente de presença da cultura galega na universidade, bem inserido no contexto acadêmico. Penso que essa deva ser a nossa contribuição. Para as galegas e galegos que moram aqui, os centros podem constituir um vínculo importante com o país que deixaram atrás. Os nossos cursos costumam ser frequentados por emigrantes e filhos de emigrantes, e também somos chamados para participar de atividades da comunidade galega em Niterói. E estamos sempre dispostos a colaborar com o que for necessário.

3. Há interesse na comunidade acadêmica brasileira pela cultura, literatura e língua da Galiza? Em que âmbitos se tem contribuído mais à pesquisa nos últimos anos?

A Galiza e o galego ainda são amplamente desconhecidos pela comunidade acadêmica brasileira em muitos sentidos. Temos contra nós o fato de sermos um país pequeno e de fazermos parte de um outro Estado-nação. E no Brasil, como penso que deva acontecer em todos os estados nacionais do “novo mundo”, as reivindicações nacionais dos povos sem estado da Europa não são entendidas facilmente. Por outro lado, não contamos até agora na Galiza com governos que tivessem uma política clara no sentido de promover esse conhecimento no Brasil ou em outros países lusófonos. As iniciativas são mais de tipo pessoal ou correspondem a departamentos universitários e associações culturais ou acadêmicas, com algumas poucas exceções institucionais, como o Consello da Cultura Galega. Mas há, sim, um interesse genuíno, e sem preconceitos, no Brasil por parte de quem conhece a cultura galega.

Não contamos até agora na Galiza com governos que tivessem uma política clara no sentido de promover o conhecimento do galego no Brasil ou em outros países lusófonos.

A pesquisa sobre Galiza no Brasil desenvolveu-se mais, até agora, no âmbito da história da emigração e na literatura, sobretudo a medieval. A fundadora do nosso Núcleo de Estudos Galegos, na UFF, e do Centro de Estudos Galegos da UERJ, por exemplo, Maria do Amparo Tavares Maleval, é uma destacada medievalista brasileira, e muito tem contribuído para isso.

Sobre questões linguísticas a coisa é mais complicada. Uma grande conhecedora e divulgadora do galego no Brasil é Valéria Gil Condé, da USP, hoje coordenadora da Cátedra de Estudos Galegos dessa universidade. Mas a sensação de que lidar com língua na Galiza é como mexer num vespeiro, considerando as nossas liortas normativas, não facilita essa aproximação. De alguma maneira, é de conhecimento comum que quem falar qualquer coisa sobre o galego pode “apanhar” de algum dos lados em permanente disputa. É lógico que as pessoas não queiram “comprar uma briga” que não é propriamente delas. Agora em julho aconteceu a terceira edição de um congresso eminentemente brasileiro de linguística histórica em Santiago de Compostela, que considero uma espécie de divisor de águas nesse sentido, e a consagração simbólica do lugar do galego na historiografia da língua portuguesa.

Quem falar qualquer coisa sobre o galego pode “apanhar” de algum dos lados em permanente disputa. É lógico que as pessoas não queiram “comprar uma briga” [no Brasil] que não é propriamente delas

4. Coordenou no ano 2011, junto com Marcos Bagno, Políticas da norma e conflitos linguísticos, no que publicou também um artigo relacionando norma, poder e identidade. Como valora a construção do galego legítimo desde os anos 80 até hoje? Foi positiva para a normalização do galego na Galiza?

A institucionalização do galego foi complexa, como costumam ser todos esses processos. A construção de um “galego comum” é um processo histórico longo e conflituoso. No momento em que o galego adquire a categoria de oficial na Comunidade Autônoma da Galiza, a fixação normativa se torna uma necessidade. Acho que, independentemente das lutas de poder e dos conflitos de autoridade que estouraram naquele momento, e cujas consequências sofremos até hoje, é urgente pensarmos seriamente sobre o modelo de “planificação de corpus” que se aplicou e como esse modelo de “normalização”, seja qual for a perspectiva normativa adotada, autonomista ou reintegracionista, está condicionado pela língua “normal” que mais conhecemos os galegos, que é, sem dúvida, o espanhol. Coisas aparentemente banais, como a política de dublagem de filmes na televisão, a rigidez e a falta de flexibilidade dos critérios de correção, a obsessão delimitadora, que passou a ver a presença na Galiza das mais diversas formas de português como uma ameaça para a língua dos galegos, pouco contribuiram para criar dinâmicas positivas de reconhecimento e de valorização da língua. É como se fosse construído um espaço muito bem delimitado para o galego brincar de língua grande, mas sem sair do confinamento, numa espécie de parquinho para crianças. Penso que houve também, e ainda há, por parte de todos os agentes (embora só alguns tenham tido, obviamente, responsabilidade institucional nesse processo), uma evidente confusão entre língua e norma, ou pior, entre língua e ortografia. As provas de galego nos concursos públicos, em muitas ocasiões totalmente focadas em questões normativas destinadas a purgar recém inventados “dialetalismos” ou “lusismos”, é o mais claro exemplo dessa obsessão normativa que identificamos, no imaginario, com a “normalidade linguística”.

A oficialização da língua aconteceu em condições bastante adversas, com um governo sustentado por um partido que, no início, era contrário à própria Autonomia política, mas que nela medrou e que acabou fagocitando as suas instituições. A política linguística caracterizou-se nestes anos pela verticalidade, como indica Xaime Subiela, e pela baixa intensidade, como denunciava Anxo Lorenzo até não faz muito tempo, aliadas a um conflito normativo que manteve à margem da oficialidade agentes muito ativos e dinâmicos. Até o acordo de 2003, a norma considerada oficial pelo governo não contava com o apoio de uma grande parte dos professores de língua galega do ensino médio, e isso dá uma ideia de como essa verticalidade não fez bem à “normalização” linguística.

A falta de flexibilidade dos critérios de correção, a obsessão delimitadora, que passou a ver a presença na Galiza das mais diversas formas de português como uma ameaça para a língua dos galegos, pouco contribuiram para criar dinâmicas positivas de reconhecimento e de valorização da língua. É como se fosse construído um espaço muito bem delimitado para o galego brincar de língua grande, mas sem sair do confinamento, numa espécie de parquinho para crianças.

5. Galego como língua autônoma ou como variante na Galiza do portugalego ou galego-português, língua internacional?

Tudo depende do que entendermos por “língua”. Após séculos de desenvolvimento autônomo, em condições históricas adversas, com o espanhol sobreposto durante boa parte desse tempo, não há como negar a “autonomia” da língua que falamos os galegos em relação às outras realidades do grupo portugalego. Cada uma delas também com sua própria história. Considerando que a norma linguística vai muito além da simples ortografia, também é óbvio para mim que existem, de fato, muitas normas sociais diferentes de uso da língua nesse grande e variado grupo linguístico. O mais razoável seria que o padrão não violasse a competência linguística que os falantes possuem em relação a elementos fundamentais da estrutura da língua, esses que ninguém espera até ir à escola para aprender e usar. Por exemplo, as crianças utilizam um sistema pronominal complexo antes de serem alfabetizadas. É absurdo que nesse momento alguém lhes diga que o que elas sabem não serve, que devem esquecê-lo e interiorizar para uso geral um sistema pronominal diferente.

Por outro lado, não existe, nunca existiu e nada indica que vá existir uma língua internacional denominada portugalego ou galego-português. Também não existe uma norma-padrão internacional no âmbito lusófono, mas uma tradição padronizadora (“autoral”, porque não conta com a autoridade de nenhuma instituição) que tenta segurar as pontas da uniformidade normativa. No Brasil é uma tarefa malsucedida e polêmica porque essa tradição se afasta bastante da forma como as pessoas efetivamente falam e escrevem.

Para mim, a questão da “unidade” não passa necessariamente pela norma. É possível ter várias normas-padrão, construidas partindo do respeito ao conhecimento que os falantes possuem sobre a sua própria língua, e manter mesmo assim certa noção de unidade linguística que permita a intercompreensão e o diálogo com falantes de outras variedades. A ideia de unidade, que não deve ser confundida com “uniformidade”, constroi-se pela interação e não por meio da imposição de um único padrão, como um mesmo corset que deva oprimir todos os corpos (uns mais do que outros, como é óbvio, porque não todos os corpos são iguais).

Não existe, nunca existiu e nada indica que vá existir uma língua internacional denominada portugalego ou galego-português. Também não existe uma norma-padrão internacional no âmbito lusófono, mas uma tradição padronizadora.

6. Os discursos de aproveitamento do espaço internacional da língua habitualmente reclamam uma mudança ortográfica para o galego se aproximar à ortografia oficial do português no mundo. Acha que a sociedade galega está preparada para uma mudança deste tipo ou poderia gerar reações negativas e um aumento importante da insegurança linguística nas pessoas que estudaram o galego oficial nos últimos 30 anos? É possível um melhor aproveitamento do galego no âmbito internacional sem uma reforma normativa?

No momento eu defendo um bi(ou tri)-normativismo flexível, por dizê-lo de alguma maneira. Tendo como objetivo a socialização do acesso a diversas formas de português, podem ser feitas coisas sem mexer agora na norma: a introdução do português (qualquer um) no ensino, como disciplina, e a integração da diversidade lusófona no próprio ensino do galego. Penso que o poder público devia tomar medidas, em todas as instâncias, para fazer normal a presença de bens culturais em português na Galiza, no cinema, no teatro, na televisião, nas rádios, etc. O argumento do medo à dissolução ou à perda de identidade do galego por causa do contato com a diversidade portugalega é absurdo, do meu ponto de vista, porque só temos a ganhar com esse contato e porque a ideia de uma língua incontaminada não passa de ser um delírio purista. Por outro lado, já temos isso tudo, e em doses de cavalo, em espanhol, que é claramente uma língua diferente (embora próxima), e aqui estamos, ainda falando (do) galego. A presença do português poderia ser um contrapeso fundamental. O desenvolvimento da lei Valentim Paz Andrade é um passo importante nesse sentido.

O argumento do medo à dissolução ou à perda de identidade do galego por causa do contato com a diversidade portugalega é absurdo porque só temos a ganhar com esse contato e porque a ideia de uma língua incontaminada não passa de ser um delírio purista

7. Nas últimas décadas a perda de falantes do galego não parou. Que acha que se está fazendo mal na política linguística galega? Que propostas faria para que a situação pudesse mudar?

As dinâmicas sociais são complexas e nem todos os fatores são diretamente controláveis pelo poder político. Mas penso que as coisas mudariam muito com um governo que realmente acreditasse nas potencialidades deste país e da sua língua, trocando a baixa intensidade pela alta intensidade da política linguística, e a verticalidade pela horizontalidade, apoiando as iniciativas que surgem na sociedade, sem exclusões. O efeito social do uso normal do galego, e não apenas ritual, por parte dos representantes públicos também seria notável. E, mais concretamente, acho urgente voltar ao processo de desenvolvimento do Plano de Normalização Linguística aprovado pelo Parlamento, com a restauração imediata do Decreto do galego no ensino que foi derrogado pelo governo de Feijóo.

Acho urgente voltar ao processo de desenvolvimento do Plano de Normalização Linguística aprovado pelo Parlamento, com a restauração imediata do Decreto do galego no ensino que foi derrogado pelo governo de Feijóo

8. A Marea Atlántica de Xulio Ferreiro ganhou neste ano as eleições locais na Corunha, a sua cidade natal. Como sabe, é talvez a cidade galega onde a presença pública do galego é mais reduzida, além das já históricas polêmicas sobre o topónimo da cidade ou os topônimos deturpados nos rueiros. Há espaço para uma política linguística diferente no âmbito local? Que medidas aplicaria se tivesse a oportunidade?

Há espaço, sim, para uma política linguística diferente. Lembro perfeitamente que quando foi restaurado o teatro Rosalia de Castro, em tempos de Paco Vázquez, aproveitaram para retirar a placa que fazia referência às Irmandades da Fala. Essa era a tônica da política local em relação à memoria galeguista da cidade. Un concelho pode cumprir um papel importante e necessário elaborando planos locais de normalização linguística, com avaliações periódicas. Mas penso que o simples uso normal do galego pelo Concelho e seus representantes institucionais já é uma intervenção relevante, junto com a recuperação de nomes de ruas e bairros em galego.

Agora brevemente…

O melhor e o pior do Rio e do Brasil: O melhor: a alegria do povo. O pior: a demofobia das elites.

Um lugar no Rio de Janeiro: Difícil. Vão dois: Santa Teresa e a praia de Ipanema.

Uma palavra do galego-português: ‘atrapalhar’ e seus derivados.

Uma autora ou autor galego e uma autora ou autor brasileiro: Rosalia de Castro e Clarice Lispector

Un desejo para o futuro: Justiça social.

Jornadas das Letras Galegas ’15 na UERJ

Nos próximos dias 18, 19 e 20 de Maio terão lugar na UERJ as Jornadas das Letras Galegas ’15,  organizadas pelo Programa de Estudos Galegos (PROEG),  neste ano em homenagem ao historiador e escritor galego Xosé Filgueira Valverde.

O lugar de realização das jornadas será o Miniauditório da Pós-Graduação em Letras, situado no Instituto de Letras, andar 11,  a uns poucos metros da Sala do PROEG.

As inscrições são gratuitas e se podem realizar na sala 11.131 F do Instituto de Letras (Sala do PROEG), em horário de 12:00 a 16:00 horas, ou online, colocando o seu nome e sobrenome como comentário neste artigo do blog.

Nestas jornadas contaremos com professores/as e investigadores/as da UERJ, e também de outras universidades como a Universidade Federal Fluminense (UFF); a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ); a Universidade Federal da Bahia (UFBA); a Universidade Federal do Ceará (UFC) ou de outras instituições como o Instituto Cervantes.

O programa das Jornadas é o seguinte:

Segunda-feira dia 18

09:30h. Sessão de Abertura
• Cláudia Amorim (Coordenadora do PROEG)
• Maria Alice Antunes (Diretora do ILE)
• Roberto Acízelo de Sousa (Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Letras)

10:00h. Aproximação à vida e obra de Xosé Filgueira Valverde
• Denis Vicente Rodriguez (Leitor de galego na UERJ)

10:30h. Breve panorama da história da imigração galega no franquismo
Érica Sarmiento (UERJ)

11:00h. Idade Média: História. Religião. Literatura
• Maria do Amparo Tavares Maleval (UERJ): “Poesia e teatro no contexto da Peregrinação medieval a Santiago de Compostela”
• Andreia C. Lopes Frazão da Silva (UFRJ): “Reflexões sobre a vida de São Geraldo”
• Leila Rodrigues da Silva (UFRJ): “A Vita Sancti Frutuosi e os embates contra o diabo”

Moderadora: Cláudia Amorim (UERJ)

12:30h – Intervalo

14:00. A geração do Seminário de Estudos Galegos
• Belén Posada (Instituto Cervantes e Casa de España)

15:00h. A Galícia na literatura
• Roberto Pontes (UFC): Leitura de Breve guitarra galega pelo autor
• Elizabeth Dias (UFC): “De rebeldia e de ternura em Breve guitarra galega

Moderador: Henrique Samyn (UERJ)

16:00h. Novos pesquisadores do PROEG
• Fernanda Gappo Lacombe: “A representação feminina nos contos populares galegos e brasileiros”
• Thayane Gaspar Jorge: “A poesia do olhar medieval”
• Gabriel Kaizer: “Percepções sobre a dublagem galega nas mídias sociais”

Moderadora: Cláudia Amorim (UERJ)

Terça-feira dia 19

10:30h. A Idade Média em perspectiva
• Lina Arão (UFRJ): “Novos olhares sobre a lírica trovadoresca em poemas de Helena Villar Janeiro”
• Giovanna Giffoni (UFRJ/UERJ): “Que agora non: ais, ardis e Alba em acalanto”
• Nina Barbieri Pacheco (UERJ): “História Troiana: aspectos de uma novela do ciclo clássico”
• Angélica M. Santana Batista (UERJ): “Releituras da Idade Média na
contemporaneidade: uma análise de Morte de Rei, de Darío Xoán Cabana”
• Luiz Paulo Labrego de Matos (UERJ): “A homossexualidade escarnecida: a sodomia nas cantigas medievais galego-portuguesas”.

12:30h – Intervalo

14:00h. Exibição do documentário galegoportuguês
“Entre Línguas”

14:30h. Debate

Quarta-feira dia 20

10:30h. “Algumas achegas sobre o vocabulário metalinguístico nas cantigas trovadorescas medievais”.
•  Flávio Barbosa (UERJ)

11:00h. Debate. Sociolinguística e política linguística na Galícia e no Brasil
• Xoán Carlos Lagares (UFF)
• Dante Luchessi (UFBA)

Moderador: Denis Vicente Rodriguez

12:30h – Intervalo

14:00h. Novos pesquisadores de língua, literatura e cultura galega
• Asafe Lisboa (UERJ)
• Igraínne Marques (UERJ)
• Míriam Duarte (UERJ)

Moderador: Denis Vicente Rodriguez

15:00. O feminino na literatura galega
• Fernanda Gabeiro (UFRRJ): “A construção da mãe em Teresa Moure: um projeto de matria?”
• Henrique Marques Samyn (UERJ): “Para uma crítica feminista da cantiga trovadoresca de Eduardo Pondal”

Moderadora: Cláudia Amorim (UERJ)

16:00h. Apresentação de livros e de música  (gaita de fole galega).
• Baltasar Pena Abal (Instituto Cervantes)

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Esperamos a sua assistência e participação!