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A emigração como mote do sentimento romântico em Rosalía de Castro

Ghabriel Ibrahim

Aluno de Literatura Galega I e Introdução à Cultura Galega na UERJ

O século XIX na Galícia foi bastante conturbado. Durante a primeira metade deste século, a população galega mostrava crescimento acentuado, representando quase 12% da população total da Espanha. Este crescimento, porém, se dava sobre um modelo insustentável, visto que a Galícia não demonstrava diversidade econômica e ainda caminhava no âmbito industrial. Embora produzisse linho, o consumo do material de proveniência galega sofreu duro golpe a partir do início da importação de produtos ingleses. Era uma sociedade majoritariamente rural, e as técnicas para produção no campo eram pouco modernizadas, além da existência de uma série de impostos cobrados sobre a produção campestre, os chamados “trabucos”. Além disso tudo, a Galícia demorou a ser incluída na malha ferroviária espanhola, sendo incorporada de maneira relevante apenas em 1883.

A crise era iminente, e nos anos 50 chega com muita força. De 1852 a 1855, a Galícia sofre com chuvas torrenciais, geadas e infestações constantes de pragas, o que, em uma sociedade rural como a galega da época, é capaz de instaurar o caos. Com as colheitas sendo afetadas de maneira intensa, inicia-se um período de fome. No ano de 1853, o governo espanhol legalizou a emigração, o que acabou por gerar um movimento migratório massivo, sobretudo para a América, por parte dos galegos. Somado ao movimento legal, havia também a imigração ilegal, tamanho o desespero por parte dos cidadãos de evadir o pagamento dos trabucos, que chegaram a triplicar durante o período, bem como a vontade de escapar do recrutamento forçado. Estima-se que 340 mil galegos, em sua maioria do sexo masculino, incluindo crianças de até 12 anos deixaram seus lares em busca de uma melhora na condição de vida e não retornaram.

Na segunda metade do século XIX também tem início um movimento de resgate da cultura e da língua galega. O “Rexurdimento” buscava revitalizar o galego como instrumento de expressão social e cultural, além de reavivar sentimentos nacionalistas adormecidos durante o período dos Séculos Escuros. Ocorre paralelamente à “Renaixença” catalã, que possuía propósito similar. Embora antes de 1863 houvesse publicações na língua galega no século XIX, estas foram consideradas obras precursoras do movimento, que geralmente tem seu início apontado neste ano, com a publicação de “Cantares Galegos”, de Rosalía de Castro.

Rosalía, filha de um membro do clero e uma fidalga solteira de poucos recursos, cresceu na Galícia e lá aprendeu seu idioma e conviveu com a cultura do país. Não foi privada de educação formal, e em 1856 se mudou para Madrid, onde conheceu Manuel Murguía, outro escritor fundamental no Rexurdimento galego, com quem se casou. Em Madrid escreveu sua primeira grande obra, “Cantares Gallegos”, de importância já mencionada. A obra teve grande influência do Romantismo e da cultura popular. Não detinha grande complexidade: a obra contava com um vocabulário simples, e não tinha grandes construções imagéticas a partir de figuras de linguagens de difícil compreensão. Parte dos poemas presentes nessa compilação era quase um “quadro de costumes”, descrevendo de maneira leve e poética hábitos do povo galego. Disso se constituía sua tentativa de fazer rutilar sua cultura: fazendo uma literatura de qualidade com temas de intensa relação com o povo.

Era também uma mulher muito ligada em questões políticas e sociais, e portanto não poderia deixar de abordar a questão das emigrações em seus textos. O poema “Adiós, ríos” é um bom exemplo desse tipo de literatura que produziu.

Adiós ríos, adiós fontes
adiós, regatos pequenos;
adiós, vista dos meus ollos,
non sei cándo nos veremos.

Miña terra, miña terra,
terra donde m’eu criei,
hortiña que quero tanto,
figueiriñas que prantei.

Prados, ríos, arboredas,
pinares que move o vento,
paxariños piadores,
casiña d’o meu contento.

Muiño dos castañares,
noites craras do luar,
campaniñas timbradoiras
da igrexiña do lugar.

Amoriñas das silveiras
que eu lle daba ó meu amor,
camiñiños antre o millo,
¡adiós para sempre adiós!

¡Adiós, gloria! ¡Adiós, contento!
¡Deixo a casa onde nacín,
deixo a aldea que conoso,
por un mundo que non
vin!

Deixo amigos por extraños,
deixo a veiga polo mar;
deixo, en fin, canto ben quero…
¡quén puidera non deixar!

(…)

O poema segue por mais oito estrofes, mas para fins ilustrativos essa primeira parte já será bem útil. Já na forma se faz claro o caráter popular da poesia de Rosalía de Castro, sendo a primeira estrofe constituída de versos octossílabos remetendo à produção lírica folclórica. Além disso, nessa primeira parte há apenas quartetos, e em todos eles se repete a rima entre o segundo e o quarto verso. Isso confere ao poema simplicidade, e faz deste um texto capaz de tocar mesmo os leitores inexperientes como era o caso da maioria do povo galego da época. Mostra também que o idioma galego é tão capaz de provocar um impacto estético e emocional como qualquer outro, grande conquista da autora. Nas palavras de Luis Seoane:

 “…la poesía de Rosalía de Castro, poeta total sin lugar a duda, capaz de apoderarse de sentimientos individuales  que conmoverán a la consciência colectiva, cumpliendo así la conditio sine qua non de la creación artística esencialmente dirigida a la comunicación, en otras palabras, su función social. “

No seu segundo livro, publicado em 1880 (“Follas Novas”), Rosalía atinge outra profundidade poética, com uma lírica mais intimista e esquemas rítmicos e sonoros mais complexos. Isso confere um caráter mais universal à poesia presente neste livro, já que a obra em “Cantares Galegos” trazia inúmeras referências à arte popular galega em diversos campos. Mantém-se aqui a preocupação com o social por parte da autora, e o tema da emigração segue servindo de mote para a produção literária. Neste livro há uma seção dedicada a este tema intitulada “As viudas d’os vivos e as viudas d’os mortos”, em que a expressão “Viudas d’os vivos” é cunhada e desde então é comumente referenciada quando se trata de emigração na Galícia no século XIX. Um exemplo de interessante abordagem do assunto pode ser visto em “A gaita galega”, poema do qual transcreverei um fragmento:

[IV]

Probe Galicia, non debes
chamarte nunca española,
que España de ti se olvida
cando eres, ¡ai!, tan hermosa.
Cal si na infamia naceras,
torpe, de ti se avergonza,
i a nai que un fillo despreza
nai sin corazón se noma.
Naide por que te levantes
che alarga a man bondadosa;
naide os teus prantos erixuga,
i homilde choras e choras.
Galicia, ti non tes patria,
ti vives no mundo soia,
i a prole fecunda túa
se espalla en errantes hordas,
mentras triste e solitaria
tendida na verde alfombra
ó mar esperanzas pides,
de Dios a esperanza imploras.
Por eso anque en son de festa
alegre á gaitiña se oia,
eu podo decirche:
Non canta, que chora.

No poema, a autora usa sua sensibilidade e personifica Galícia, caracterizando-a como uma mãe saudosa, triste, e cada vez mais solitária devido ao fenômeno migratório. Quando diz “Galícia, ti non tes pátria”, afirma o descaso e abandono da Espanha com ela, abandono este que não se verifica no momento da cobrança de impostos, por exemplo. Reforça a tristeza que o processo da migração causa nessa “mãe”, tão intensa que faz com que a gaita galega, símbolo cultural, tenha seu som ligado ao som de um choro.

É interessante notar o sucesso que esse livro fez fora da Galícia, sobretudo devido ao grande número de imigrantes galegos em países como Cuba, por exemplo, local onde Rosalía se fez muito reconhecida no período. O poder catártico de sua obra é inegável, uma vez que atinge inclusive pessoas que não consumiam arte que não aquela vinda do povo – mais popular – mas também atinge intelectuais e estudiosos, ilustrando a potência da obra da autora. Além disso, é importante notar que, embora o sentimento nacionalista fosse comum na época e portanto muito utilizado como inspiração poética, Rosalía utiliza de sua sensibilidade como mãe sofrida e mulher para criar uma nova de despertar este sentimento em seus leitores: personificando sua nação, sensibiliza seus nativos quanto ao seu papel na construção de uma identidade nacional forte, dando ao povo papel de protagonista nesta situação. Com isso, demonstra entender a situação política de seu lugar, há muito maltratado e desrespeitado, com um povo ferido, pouco a pouco docilizado, quase naturalizando a triste realidade vivida, e por isso era fundamental que fosse reavivado nele o sentimento não só de pertencimento à pátria, mas também o sentimento de que é importante para que tal conceito exista.

Referências:

Graña, J. L. “Adiós ríos, adiós fontes”: Rosalía de Castro y los galegos de Cuba

Porrua, M. C. El tema de la emigracion em la poesia de Rosalia de Castro y su proyeccion em dos poetas galegos

González López, Emilio (2012 [1986]). “Achegamento lírico e alonxamento dramático: o tema da emigración”. En Actas do Congreso Internacional de estudios sobre Rosalía de Castro e o seu tempo (i). Santiago de Compostela: Consello da Cultura Galega / Universidade de Santiago de Compostela, 317-326. Reedición en poesiagalega.org.Arquivo de poéticas contemporáneas na cultura.

<http://www.poesiagalega.org/arquivo/ficha/f/1681&gt;.

A Poesia Social de Manuel Curros Enríquez. Uma breve análise social e literária

Flávia Marçal Pires

Aluna de Literatura Galega I na UERJ

1. Introdução

Manuel Curros Enríquez, nascido em 15 de setembro de 1851 em Celanova, Ourense, morreu em 1908 na Havana. Foi consagrado (juntamente com Rosalía de Castro e Eduardo Pontal) como um dos grandes referenciais do chamado “Rexurdimento” da Literatura Galega na segunda metade do século XIX.

Curros ajudou o pai como escrevente, estudou Direito e trabalhou como jornalista durante boa parte de sua vida. A obra que o consagrou como poeta civil foi “Aires da miña terra”, na qual o autor faz denúncias sociais em prol dos menos favorecidos e exalta a cultura galega.

Um dos textos deste livro levou Curros a ser condenado por supostamente conter blasfêmias e heresias. Curros sofreu um processo por ter agido contra o livre exercício dos cultos e crenças, foi condenado em Ourense, mas absolvido na Corunha. O fato é que em razão disso foi obrigado a viver alguns anos longe de sua terra.

Podemos vislumbrar em sua obra três tipos de poesia:

i) Costumbrista – são composições mais populares e próximas do povo;

ii) Intimista – apesar de não ser o tipo de poesia mais presente em seu conjunto de obras, não podemos deixar de destacar textos mais introspectivos e sentimentais. Em geral, possuíam temática familiar, como por exemplo N’a morte de miña nai:

Doce malenconía, miña Musa

D’o meu esprito noiva feiticeira,

Déixame qu’oxe n’o teu cólo dorma

Sono de pedra!” 

iii) Poesia Cívica – pode ser dividida em duas partes: a) poesia que reflete as ideologias de Curros, onde ele trata abertamente dos seus ideais de liberdade e progresso; b) poesia agrária, em que o poeta trata das injustiças cometidas contra os camponeses.

Como a proposta deste trabalho é uma breve análise da obra de Curros focando na marginalização social e cultural do povo galego, vamos nos ater principalmente à Poesia Civil ou Social.

2. Pensamento Político

Um aspecto controvertido da vida de Curros diz respeito a sua ideologia e pensamento político. A princípio, dizia-se que Curros era um republicano. Passou então a republicano federalista. Mas, como ocorre a todo ser humano, é possível detectar no pensamento de Curros diferentes evoluções ao longo da sua vida.

Uma delas ganhou certa repercussão. Inserido em seu contexto político-social, Curros posicionou-se contra um pacto político republicano, o Pacto Sinalagmático de Pi i Margall. Ele considerou que o pacto levaria inevitavelmente à Anarquia e ao separatismo, o que o leva a questionar seu republicanismo federal.

Algum tempo depois, passou a ser militante de um partido regionalista de base tradicional. Não há dúvidas sobre possíveis interpretações dessa época de sua vida: ele mesmo se declarou expressamente a favor desse partido e em sua obra passou a demonstrar um forte amor à sua terra natal, entrando na fase do regionalismo galego.

Podemos identificar portanto no seu pensamento político três fases distintas: a) Republicanismo; b) Republicanismo federalista e c) Galeguismo.

Suas obras continuam sendo de extremo valor para a Cultura Galega e serviram de base para a valorização desse povo. Há que se entender apenas que o autor estava inserido e atuante em seu contexto político social, mutável e adaptável.

3. Rexurdimento

Até a segunda metade do século XIX a Galícia sofreu um processo de marginalização. Durante os Séculos Escuros quase não houve obras produzidas em galego. A imposição do castelhano era muito forte. Para a língua galega este foi um período de decadência.

O galego era visto como um dialeto, não era utilizado nos documentos oficiais. Castela impunha a imagem de que o galego era apenas ligado à tradição oral de um povo isolado e por isso não deveria receber qualquer prestígio.

Além da Língua Galega, os próprios galegos sofriam preconceitos. A Galícia era vista como um local rural e atrasado, ignorante e pobre. Isso fez com que milhares de galegos deixassem a Galícia em busca de melhores condições de vida. É o que narra este poema de Rosalía de Castro, do qual extraímos alguns trechos:

Castellanos de Castilla,

Tratade ben ós galegos;

Cando van, van como rosas;

Cando vén, vén como negros.

(…)

Aló van, malpocadiños,

Todos de esperanzas cheios,

E volven, ai!, sin ventura,

Com um caudal de despresos”

(Cantares Galegos, Rosalía de Castro)

Neste texto a autora demonstra nitidamente o processo de migração dos camponeses galegos que saíam de sua terra e eram massacrados e marginalizados na emigração em Castela.

Rosalía de Castro, Curros Enríquez e Eduardo Pontal são nomes ligados ao Rexurdimento, movimento que retoma a valorização da cultura galega após tantos anos de massacre ideológico. Há nesta época na Europa a retomada do pensamento iluminista unido ao pensamento romântico, o que levava os pensadores a valorizar as singularidades de cada país e a variedade cultural. Assim surge o galeguismo como fonte ideológica. Aparece então uma literatura culta escrita em galego.

Na obra de Curros especificamente podemos observar sua aproximação sentimental daqueles considerados derrotados e vencidos, os párias, os pobres. Demonstra desejos de fraternidade universal que ultrapassam meros recursos literários. Assim, identificamos neste autor nitidamente um comprometimento com o seu amor à Galícia. Um compromisso ideológico básico que determina inclusive sua conduta social.

Curros defende o idioma galego e refuta as afirmações castelhanas de que se trataria de um dialeto agrário. Ele defende (citando Cervantes) que os grandes poetas antigos sempre escreveram em suas línguas maternas. Afirma que o povo galego é guerreiro e transparece sua fé em um futuro melhor, não apenas para a literatura, mas para a Galícia em geral.

Passemos então à análise pormenorizada de alguns textos de Curros Henríquez, que é o objetivo deste breve estudo.

4. O Gueiteiro

(…)Cando n’as festas maores

Era esperado o gueiteiro,

Botábanll’ as nenas frores

Ledas copras os cantores

Foguetes ó fogueteiro.

Tras d’él, em longa riola,

D’a gaita o compás levando

Com infernal batayola,

Iban corrend’ e choutando

Os rapaciños d’a escola.

Nunca se puído avriguar

Véndolla repinicar,

Po qué, o son d’a gaita ouindo,

Cantos bailaban sorrindo,

Acababan por chorar (…)

Tratamos aqui de um dos poemas de Curros Enríquez inspirado em “O Gaiteiro de Penalta”. Está inserido em “Aires d’a miña terra

Aqui Curros evoca tipos clássicos galegos. Vale esclarecer que até hoje o símbolo da tradição musical galega é a gaita. Ao gaiteiro, essa figura tão importante na tradição galega, Curros dedicou este poema.

Podemos perceber neste trecho a tentativa do poeta de contar uma cena típica da sua terra. É descrita a cena de um grande festejo em que o gaiteiro era uma figura esperada, ansiada. Ao som da gaita, as moças dançavam sorrindo e chegavam a se emocionar e chorar.

Este poema nos remete ao ambiente agradável da Galícia e tem a intenção de valorizar aquilo que é típico deste povo. Está, portanto, inserido na postura social mas talvez costumista também de Curros Enríquez, que se propõe a elevar e valorizar aquilo que é peculiar ao seu povo, a fim de retomar a identidade e autoestima dos galegos (após tantos anos de desprezo cultural por parte de outros povos, especificamente por parte dos castelhanos).

5. Mirando ó Chau

Trataremos agora de um dos mais polêmicos poemas de Curros Enríquez: um daqueles usados como “desculpa” para instauração do processo que ele sofreu como herege.

Curros era reconhecidamente um inconformado. Era contra as injustiças, especificamente aquelas cometidas contra os pobres e desfavorecidos de sua terra.

Além disso, era um sujeito apaixonado pela liberdade e que questionava o próprio conceito de Deus. Manifestava nitidamente seu anticlericalismo. Acreditava que o pensamento da Igreja Católica era retrógrado.

Em síntese, o poema “Mirando ó Chau” apresenta uma imagem de Deus, arquiteto do universo, passando em revista ao mundo. Curros mostra sua opinião de que a administração da justiça no mundo pela burocracia administrativa dos homens usa o poder em proveito pessoal, desfavorecendo os pobres. Vejamos um trecho do poema em que o poeta compara os pobres camponeses explorados a verdadeiras toupeiras humanas:

(…)Pantasmas parecen

De cote fozando

N’a codia terrestre,

Toupeiras humanas

Que furan as seves,

O sangue d’as venas

Perdend’á torrentes

Traballan sin folgos

Un chau que n’é d’eles (…)”

É muito interessante observar como o autor é firme em denunciar os abusos por parte dos mais poderosos (em especial, o Clero da Igreja Católica) contra os miseráveis. O poeta afirma que os camponeses trabalhavam sen força, como fantasmas ou toupeiras humanas, furando um chão que não lhes pertencia.

6 – O Maio e Ós Mozos

Ainda como poeta social, Curros Enríquez possui outros escritos que denunciam explicitamente as mazelas sofridas pelos galegos. Estes eram vistos como um povo atrasado e rural. Os próximos fazem parte dos chamados poemas agrários. Eles refletem a angústia e miséria dos camponeses da Galícia em razão da injusta repartição da terra, da exploração realizada pelos mais ricos e do abandono do meio rural. Vejamos:

(…) Para min non hai maio

Pra min sempr’ é inverno! (…)

Cantádeme un maio

Sin bruxas nin demos;

Un maio sin segas,

Usuras nin preitos,

Sen quintas, nin portas,

Nin foros, nin cregos (…).” 

(…) Que triste está a aldea,

Que triste é que soia!

A terra sin frutos, a feira sin xente,

Sin brazos o campo,

Sin nenos á escola,

Sin sol o hourizonte, sin fror a semente!” (Ós mozos)

7 – Nouturnio

Um vello, arrimado n’un pau de sanguiño,

O monte atravessa de car’ ó pinar.

Vai canso; unha pedra topou n’o camiño

E n’éla sentóuse pra fôlgos tomar.

-Ay! Dixo, qué triste,

Qué triste eu estou!

Y-on sapo q’o oía

Repuxo: – Cró, cró!

As ánemas tocan! Tal noite com’esta

Queimóusem’a casa, morréum’ a mulher.” (Nouturnio)

Este é um dos poemas de maior repercussão da obra de Curros. Nele podemos observar que através do diálogo com um sapo, um pobre velho expressa sua angústia diante de um Deus que permitiu que sua mulher morresse.

O próprio diálogo com o sapo em si traduz a injustiça divina: o sapo é feio, desprezado. Na cultura popular o sapo não é um animal bem visto, se diz que urina e cospe veneno. É como se apenas o sapo, esse ser rejeitado, desse ouvidos às lamúrias do velho. Ademais, o sapo também é um injustiçado, pois sendo mal visto, tem desprezado seu caráter benéfico como agente eliminador de insetos.

Observamos desta vez de forma sugerida, e não explícita, uma revolta contra Deus e contra as injustiças do mundo.

8 – Conclusão

Diante disso, podemos concluir que Curros Enríquez foi um apaixonado pela Galícia, sua terra natal. Através de suas condutas políticas e de suas obras literárias buscou fazer renascer a autoestima do povo galego, louvando tradições locais e cenas típicas de sua terra.

Não hesitou em demonstrar sua revolta contra as classes dominantes, especialmente contra o Clero da Igreja Católica, o que lhe gerou um processo, anos fora de casa e muita polêmica. Agiu com firmeza em denunciar as mazelas e injustiças sociais, sempre agindo a favor dos desfavorecidos e miseráveis.

Por ocupar esse papel importantíssimo para o ressurgimento da Cultura e Literatura Galega, Manuel Curros Enríquez está eternizado em suas obras e na memória desse povo guerreiro que batalha até hoje para ter sua história valorizada.

Bibliografia

– ACTAS DO I CONGRESO INTERNACIONAL CURROS ENRÍQUEZ E O SEU TEMPO, EDIÇÃO DE XESÚS ALONSO MONTERO, HENRIQUE MONTEAGUDO, BEGONA TAJES MARCOTE – CONSELLO DA CULTURA GALEGA

ENRÍQUEZ, MANUEL CURROS – AIRES D’A MIÑA TERRA http://bvg.udc.es/indice_paxinas.jsp?id_obra=Aid%27miTe1&id_edicion=Aid%27miTe1003&cabecera=%3Ca+href%3D%22ficha_obra.jsp%3Fid%3DAid%2527miTe1%26alias%3DManuel%2BCurros%2BEnr%25EDquez%22+class%3D%22nombreObraPaxina%22%3EAires+d%27a+mi%F1a+terra%3C%2Fa%3E&alias=Manuel+Curros+Enr%EDquez&formato=texto

BLOG FUNDÁCION CURROS ENRÍQUEZ – http://www.currosenriquez.es/gl/o-poeta/curros-enriquez.html

 

O ressurgimento da língua galega como expressão literária

Anderson Maranhão

Aluno de Língua Galega na UERJ

Em trabalho anterior publicado neste blog, amplamente baseado em artigo da autoria do professor Marcos Bagno intitulado O Português não Procede do Latim: Uma proposta de classificação das línguas derivadas do galego, busquei apresentar a política sistemática de apagamento das raízes galegas do idioma português. Como dito anteriormente, tal política tinha por finalidade aproximar o português da sua pretensa língua materna, o Latim, a fim de levar a cabo seu projeto imperialista de unificação dos povos por eles dominados. Daí ter afirmado que “o Português se tornaria o elemento de unificação do império que estava para ser criado, assim como o Latim o fora para o Império Romano.” Não é de se estranhar, portanto, que as verdadeiras raízes do idioma que hoje falamos tenham sido completamente omitidas mesmo em tempos mais próximos, a exemplo do que fizeram os estudiosos do século XIX ao denominarem o idioma falado naquela região desde o século VIII de “Galego-Português.” Acontece que, como bem salienta Marcos Bagno, esta língua já era falada muito antes mesmo que viesse a existir uma entidade política chamada Portugal.1

O português era falado muito antes mesmo que viesse a existir uma entidade política chamada Portugal.1

Desde o final do século VIII até 1492 ocorre o movimento da Reconquista, período em que os reinos cristãos travaram luta contra os mouros estabelecidos na Península Ibérica desde 711. Durante este período, ocorreram diversos conflitos políticos que culminaram com a Batalha de Ourique no ano de 1139, em que o conde Afonso Henriques, após uma vitória contra os muçulmanos, se autoproclamou “Rei de Portugal”, rompendo definitivamente com a vassalagem do condado com relação à coroa de Leão. A partir de então, os reis portugueses passaram a estender, conforme prosseguiam em batalha contra os mouros, os seus domínios cada vez mais ao sul, com Lisboa sendo conquistada em 1147. Portugal finalmente fixa os limites de seu território em 1249, com a tomada de Faro. Assim, tem início a expansão da língua românica falada na antiga Gallaécia em direção ao sul junto com os colonizadores que passam a ocupar as terras de onde os mouros foram expulsos.2

É neste período que se dá a época áurea da literatura galega, exatamente durante os reinados de Fernando II e Afonso IX, quando ocorre um grande desenvolvimento por conta da expansão das redes comerciais. O surgimento de uma rica literatura, com o Trovadorismo, legava grande prestígio cultural ao idioma galego. Prestígio este que começa a sofrer declínio quando a Galiza passa a formar parte da coroa de Castela e Leão em 1230, perdendo a sua autonomia política em favor de Castela e com a variedade da língua desenvolvida em torno da capital Lisboa se tornando a língua da corte e dos documentos oficiais do reino de Portugal.3 O galego é então relegado às camadas mais populares da sociedade, e entre os séculos XVI e XVIII experimenta uma perda considerável de sua produção literária, levando este período a ser conhecido como os Séculos Escuros.4

O século XIX promoveria um ambiente de revalorização de um sentimento nacionalista que vê na língua sua maior bandeira. Neste período, surge na Galícia um movimento poético que, tendo como seus maiores representantes os poetas Eduardo Pondal e Rosalia de Castro, reafirmaria a grande importância do galego como língua literária no que ficou conhecido como Rexurdimento. A produção literária de então se fixaria na denúncia da injustiça e na exaltação nacionalista.5 Segundo o que nos diz Henrique Samin, em seu artigo intitulado A Cantora e o Bardo: a construção da identidade galega nos discursos poéticos de Rosália de Castro e Eduardo Pondal, “a um projeto político, concebido dentro do ideário iluminista, que propunha a recuperação da singularidade econômica, histórica, linguística e literária da Galiza, até então soterrada sob o domínio político e cultural espanhol, uniu-se uma valorização, de feições românticas, dos sinais identificadores do povo galego: sua língua, seus costumes e suas tradições” e, por isto, “o Rexurdimento foi constituído por um duplo movimento, de resgate e criação, uma vez que envolveu, simultaneamente, uma recuperação de tradições e costumes percebidos como próprios da cultura galega e uma construção da identidade galega, na medida em que a valorização da língua, determinadas práticas culturais e um repertório de símbolos foram associados na composição daquilo que representaria a própria essência da Galiza.”6

Eduardo Pondal
Eduardo Pondal

Eduardo Pondal e Rosalía de Castro se destacam neste período por serem os responsáveis por definir as vias pelas quais o Rexurdimento procuraria alcançar os objetivos mencionados acima. Para tanto, Pondal buscaria os fundamentos míticos da nação galega reivindicando sua ascendência céltica. Já Rosalía utilizaria o que ela entendia ser a marca expressiva mais genuína do povo galego – seu lirismo – a fim de, através da estética, cantar as belezas e os costumes da Galiza, afirmando assim suas particularidades culturais e lingüísticas.7 E ambos os poetas dariam voz aos seus anseios através da criação de personagens que apareceriam frequentemente por toda a sua obra, a saber, o Bardo, na poesia de Pondal e a Cantora na poesia rosaliana. A seguir, veremos alguns trechos das obras Queixume dos Pinos, do primeiro, e Cantares Gallegos, da segunda.

Queixume dos Pinos

Que din os rumorosos
Na costa verdecente,
Ó rayo trasparente,
Do prácido luar…?
Que din as altas copas
D’escuro arume arpado,
Co seu ben compasado,
Monótono fungar…?

Do teu verdor cingido,
É de benígnos astros,
Confin dos verdes castros,
E valeroso chán,
Non dés a esquecemento,
Da injuria o rudo encono;
Despérta do teu sono,
Fogar de Breogán.

Os boos e generosos,
A nosa voz entenden;
E con arroubo atenden,
O noso rouco son;
Mas, sós os ignorantes,
E férridos e duros,
Imbéciles e escuros
No-nos entenden, non.

Os tempos son chegados,
Dos bardos das edades,
Q’as vosas vaguedades,
Cumprido fin terán;
Pois donde quer gigante,
A nosa voz pregóa,
A redenzón da bóa
Nazón de Breogán.

(Pondal, 1890)

Cantares Gallegos

Así mo pediron
na beira do río
que corre antre as herbas
do campo frorido.

Cantaban os grilos,
os galos cantaban,
o vento antre as follas
runxindo pasaba.

Campaban os prados,
manaban as fontes
antre herbas e viñas,
figueiras e robres.

Tocaban as gaitas.
Ó son das pandeiras
bailaban os mozos
cas mozas modestas.

¡Qué cofias tan brancas!
¡Qué panos con freco!
¡Qué dengues de grana!
¡Qué sintas! ¡Qué adresos!

¡Qué ricos mandiles!
¡Qué verdes refaixos!
¡Qué feitos xustillos
de cor colorado!

Tan vivos colores
a vista trubaban;
de velos tan váreos
o sol se folgaba.

De velos bulindo
por montes e veigas,
coidóu que eran rosas
garridas e frescas.

(Rosalía, 1863)

Rosalía de Castro
Rosalía de Castro

Infelizmente, apesar do impacto exercido pelo Rexurdimento em terras galegas, mais uma vez questões políticas impediriam que o idioma galego recuperasse definitivamente o prestígio outrora perdido com a guerra civil (1936-1939) e a ditadura franquista (1939-1975). O resultado é que, senão recuperado seu status de língua literária prestigiosa, seu uso estabeleceu-se como fundamental instrumento de resistência na atitude de uma nova geração que adota o falar galego como forma de manifestar seu orgulho por pertencer a uma nação que, mesmo alijada do direito à sua soberania, permanece soberana em seus corações.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAGNO, Marcos. O Português não Procede do Latim: Uma proposta de classificação das línguas derivadas do galego. In: Grial: Revista galega de cultura, Nº.191, 2011. Págs. 34-39.

SAMIN, Henrique. A Cantora e o Bardo: a construção da identidade galega nos discursos poéticos de Rosália de Castro e Eduardo Pondal. In: Conexão Letras, Volume 2, Número 2. UERJ: 2006. P.86-103.

1 BAGNO, Marcos. O Português não Procede do Latim: Uma proposta de classificação das línguas derivadas do galego. P.34

2 Idem. P.36.

3 BAGNO, Marcos. O Português não Procede do Latim: Uma proposta de classificação das línguas derivadas do galego. P.37.

5 Idem.

6 SAMIN, Henrique. A Cantora e o Bardo: a construção da identidade galega nos discursos poéticos de Rosália de Castro e Eduardo Pondal. P. 87-88.

7 Idem. P.91.