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A mulher no teatro galego do pós-franquismo: análise a partir de “Antígona, a forza do sangue” de María Xosé Queizán

Maria Fernanda Castro Silva

Aluna de Literatura Galega I na UERJ

I. INTRODUÇÃO: O IMPACTO DO FRANQUISMO NO TEATRO GALEGO

Em 1939, o general espanhol Francisco Franco, representante das forças fascistas que combateram na Guerra Civil espanhola (1936-39) contra os republicanos, toma o poder estatal e implanta uma ditadura que duraria os próximos 40 anos. Durante esse período, conhecido como Franquismo, o povo espanhol presenciou o exílio e o assassinato de muitos estudiosos, escritores e artistas cujas produções eram potencialmente perigosas ao regime ditatorial.

Assim, como é de se imaginar, houve uma inevitável redução da produção literária realizada dentro da Espanha, afinal muitos exilados, ainda que continuassem escrevendo, já não estavam em sua terra natal. Nesse contexto, a situação na Galícia era ainda mais crítica: em função dos esforços centralistas em promover o castelhano como língua nacional e única, as publicações em língua galega dificilmente eram autorizadas, o que causou o esmorecimento da literatura galega por alguns anos, especialmente na década de 40.

A literatura dramática em galego, então, surgiu, entre outros, “co obxectivo de demostrar a validez da lingua para o rexistro culto e literario e así neutralizar as acusacións de rudeza e incultura procedentes do discurso centralista español, política e culturalmente dominante” (VIDAL, 2009, p. 162), foi intensamente reprimida. Isso aconteceu não só devido a seu potencial crítico, mas também – e principalmente – porque, naquele período, a própria língua galega e a coragem de registrá-la simbolizavam a resistência à opressão franquista direcionada às minorias, no caso, linguísticas.

No caso específico do gênero teatral, que sempre havia tido uma presença pouco significativa no espaço público galego, a chegada da ditadura franquista acarretou praticamente sua total supressão da vida pública (VIDAL, 2009, p. 149). Tal situação só começou a ser revertida perto dos anos 50, com a publicação de obras teatrais e poéticas que tematizavam, fundamentalmente, o âmbito rural. Ainda assim, “durante os primeiros trinta anos da ditadura franquista non se pode falar, sen inxenuidade, de actividade teatral en Galicia (VIDAL, 2009, p. 150). Ou seja,

Se a escrita de textos dramáticos neste periodo resulta pouco relevante en termos cuantitativos, polo que se refire á actividade escénica levada a cabo en Galicia durante a ditadura as referencias aínda son máis escasas e redúcense fundamentalmente ao chamado teatro de cámara, […] unha forma de representación e de dramaturxia que limita los medios de expresión escénicos, el número de actores y espectadores, la amplitud de los temas tratado. Este tipo de teatro, en xeral, xurdiu coma unha reacción elitista contra o grandioso aparato do teatro burgués (VIDAL, 2009, p. 152).

II. REDEMOCRATIZAÇÃO E REFLORESCIMENTO LITERÁRIO NA GALÍCIA

Já em 1950, foi fundada a Editoral Galaxia, a responsável pela normalização literária em galego que, “con case 2.000 volumes editados e un catálogo vivo de arredor de un milleiro de títulos, constitúe hoxe a referencia histórica da edición en lingua galega” (GALAXIA, 2006). Entretanto, foi só a partir de 1981, quando da aprovação do Estatuto de Autonomia da Galícia, cinco anos após a morte de Franco, que a literatura em língua galega pôde de fato se reorganizar e se desenvolver, agora livre dos antigos empecilhos legais declarados.

Nesse momento, paralelamente aos esforços por parte dos escritores galegos no sentido de consolidar a legitimação de sua língua e de criar uma literatura emancipada em língua galega, persistia a participação minoritária das mulheres no âmbito produtivo e intelectual. No próprio site da editora Galaxia (2006), são mencionados apenas nomes de homens quando se faz referência aos “autores e autoras máis significativos das letras galegas” e, em se tratando dos “autores clásicos e autores modernos, pertencentes ás sucesivas xeracións que se incorporaron ao cultivo do idioma durante estas décadas”, são mencionados apenas 9 nomes femininos sobre um total de 40.

Dessa maneira, as mulheres, historicamente relegadas à vida privada, permaneciam subrepresentadas; era mantida a forma de divisão do trabalho social com base nas relações sociais de sexo, caracterizada pela destinação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva (KERGOAT, 2009). A década de 80, contudo, foi também o período de fortalecimento das lutas pela liberdade sexual e pela igualdade de direitos que já vinham ganhando corpo desde os anos 60. Essa crescente conscientização, portanto, não poderia deixar de se manifestar na literatura.

Com efeito, é no final dos anos 80 que María Xosé Queizán publica a peça de teatro Antígona, a forza do sangue, obra protagonizada por Elvira, uma “Antígona galega”, personagem que carrega em si, conjugadas, as lutas pela emancipação territorial, pela emancipação linguística e, sobretudo, a luta pela emancipação feminina. Aliás,

Na dramaturxia de Mª Xosé Queizán a condición feminina sempre é un tema central. As cuestións de xénero e a denuncia dunha desigualdade inxusta paira por grande parte da súa obra. A propia autora tenme manifestado a súa vontade de facer un teatro moral e ideolóxico sen complexos. E esa misión faise explícita en Antígona ou a forza do sangue (BECERREÁ, 2012, p. 2).

Queizán, nascida em 1939, portanto em um período de escassez produtiva no campo da literatura e de intensa desvalorização do galego, dedica, ainda hoje, seus estudos à investigação sobre a situação feminina, não só na Galícia, mas lá também. Além de trabalhar como tradutora e escritora de ensaios, romances, contos, poesias e peças de teatro, Queizán foi codiretora do grupo teatral Feministas Independentes Galegas (FIGA), diretora da Galeria de Arte Roizara de Vigo, vicepresidenta do Conselho Municipal da Mulher de Vigo e diretora e organizadora do I Encontro de Mulheres Poetas Peninsulares e das Ilhas. Criou a revista Festa da palabra silenciada, feita só por mulheres, que coordena e dirige desde 1983. Publicada em 1989, a obra de que trataremos a seguir – Antígona, a forza do sangue – lhe rendeu reconhecimentos, dentre eles ser finalista do Prêmio Álvaro Cunqueiro.

Além disso, Queizán mantém uma página na internet na qual publica eventualmente textos que procuram promover uma reflexão acerca da condição social das mulheres na história. O último deles, publicado em fevereiro deste ano e intitulado Son, somos proxenetas, é introduzido com as seguintes afirmações/constatações: “As mulleres estamos no mercado, sempre estivemos no mercado. Existe o mercado público, coñecido co nome de prostitución, e o mercado privado, ao que se lle chama matrimonio, familia, fogar” (QUEIZÁN, 2015).

III. ELVIRA: A ANTÍGONA GALEGA

Ao escrever Antígona, a forza do sangue (1989), que consiste em uma releitura do mito grego publicado pela primeira vez em formato de peça de teatro por Sófocles há quase 25 séculos, María Xosé Queizán segue tratando de temas recorrentes em suas produções, como a colonização sexual das mulheres, e questionando a ideia da maternidade biológica, ou seja, de que a mulher nasce para ser mãe e de que essa é sua única função natural, além de proporcionar reflexões sobre a escrita não androcêntrica, isto é, não centrada em figuras masculinas.

Na peça em questão, a autora recorre à personagem mitológica Antígona, reencarnada em muitas obras ao longo da história e caracterizada sempre, antes de tudo, como um símbolo de insubmissão à lei, o primeiro personagem a dizer não, uma rebelde (SICOT, 2011, p. 818). E, “coa escolla desta figura mítica e a súa historia para a estructura básica da peza, a autora fai unha versión moi persoal do mito” (MAÑAS, 2007, p. 273), afinal, em uma Galícia que conquista sua autonomia, não poderia deixar de haver uma Antígona “autônoma”, mulher marginalizada porque, além de ser mulher, é falante de uma língua minorizada como o galego (SICOT, 2011, p. 820).

De fato, a figura de Antígona é perpassada pela noção da resistência ao arbitrário do Estado, e daí a “explosão de Antígonas” durante os revolucionários anos 60/70 (DUROUX; URDICIEN apud PUPB, 2009, p. 453). Nesse sentido,

la obra de María Xosé Queizán adquiere una significación que trasciende con mucho la de una voz individual talentosa. Se convierte en paradigma de la lucha por superar una doble ‘minorización’: la del mundo literario gallego y la de las mujeres gallegas dentro y fuera de ese mundo (REIZS, 1995, p. 208).

Elvira é a heroína da Galícia da Idade Média que defende a si mesma ao defender sua nação e seu povo, falando a mesma língua que ele – o galego. Ela é “o modelo feminino que María Xosé Queizán interpreta como metáfora da muller galega: consciente da súa dobre identidade nacional e feminina” (MAÑAS, 2007, p. 273). Assim como a Antígona do mito grego, Elvira é o fermento para a subversão dos poderes tirânicos e para a configuração de uma nova ordem moral e sociopolítica (RAMOND apud PUPB, 2009, p. 454).

Queizán procede, assim, a uma “galeguização” da história original, enaltecendo a independência e a sabedoria das mulheres e questionando os poderes estabelecidos. E, no fim, a “justiça poética” se superpõe às leis patriarcais (GARCÍA NEGRO, 2012, p. 235): Elvira vence sua dupla luta – nacional e de gênero – ao se suicidar,

xa que no final o seu suicidio supón unha decisión propia e unha actuación consecuente co seu pensamento e cos seus actos. Nin sequera na morte é vencida porque é ela mesma quen a leva a cabo, é ela quen decide como quere permanecer na historia (a liberdade de pensar fronte á maternidade obrigatoria) e non os seus inimigos, a súa morte converte a súa figura en heroína e á súa historia en traxedia (MAÑAS, 2007, p. 279).

A luta da protagonista, que assume um aspecto de confronto constante aos personagens masculinos dotados de poder, é de caráter ativo. Ela é muito consciente da diferença de tratamento entre homens e mulheres e denuncia essa distribuição desigual de papéis, opondo-se a ela de maneira clara, direta e até mesmo agressiva. Ademais, Elvira é uma mulher forte, segura de suas decisões, o que fica evidente em sua fala: “Non obedecerei máis ordes que as da miña conciencia, e esta obrígame a honrar ao meu querido irmán.” (Queizán, 1989, p. 40). E é essa consciência que a impele a entrar na luta ativa e, consequentemente, na esfera pública, âmbito tradicionalmente masculino, ao mesmo tempo em que recusa a esfera privada ao renunciar ao casamento com o Rei e a gerar filhos do monarca (MAÑAS, 2007, pp. 278-279).

Outro traço marcante da autonomia de Elvira é sua negação da passividade, comportamento pelo qual ela é acusada de não amar “como uma mulher”. Realmente, ela não se resigna ao papel submisso que corresponderia ao seu gênero, porque “é activa no amor, decide con quen quere estar, a quen quere amar e con quen compartir a súa vida” (MAÑAS, 2007, p. 278).

Elvira é uma mulher de iniciativa própria, atributo essencial para dirigir a resistência feminista e nacionalista. Em outros termos,

A conciencia nacionalista da particular Antígona de María Xosé Queizán é unha característica fundamental deste novo modelo feminino, mostra nela a unha muller consciente da súa identidade nacional, implicada no conflicto que vive a súa terra e que decide consecuentemente actuar para cambialo. É a súa condición feminina a que fai dela un personaxe excepcional nunha labor combativa que en tantas figuras literarias masculinas parécenos a propia. Ela ten moi clara tamén esta condición, Elvira é consciente da súa identidade feminina e da transgresión que supón a súa actuación, pero acéptaa e defende outra maneira de ser muller, o que interpretamos como metáfora da muller galega (MAÑAS, 2007, p. 277).

IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em linhas gerais, independentemente da forma como se conceba a literatura, a obra literária aqui trabalhada pode ser compreendida como a resposta indignada à situação de opressão que persiste sobre as mulheres, em particular sobre as mulheres galegas; ou como o reflexo de uma nova realidade, de uma nova ordem social que está sendo construída e na qual as mulheres investem em sua autonomia; ou como uma pergunta, um questionamento sobre a posição social da mulher e sobre a naturalização dos papéis a ela atribuídos. Mas a releitura galega de Antígona representa, acima de tudo, um anseio.

Um anseio porque, apesar da democratização e do processo de abertura política pelos quais passou a Espanha nos anos 70/80, que culminaram na conquista de direitos e de liberdades fundamentais, a violência de gênero subsiste e é reconhecida pelo Estado, que, a fim de “pensar medidas integradas para previr e eliminar a violencia contra as mulleres”, se propõe “estudar as causas e as consecuencias da violencia contra as mulleres e a eficacia das medidas de prevención” (XUNTA DE GALICIA, 2001, p. 11). Tais ações ainda são necessárias porque, infelizmente,

Apesar das profundas transformacións sociais que se produciron nas últimas décadas, coa incorporación das mulleres a tódolos ámbitos da vida social, e os indubidables progresos xurídicos e formais inherentes a esta, o feito certo é que non se pode falar, aínda, da existencia dunha igualdade real entre homes e mulleres (XUNTA DE GALICIA, 2001, p. 8).

Nessa conjuntura de democracia seletiva ou parcial, a escrita de uma obra como Antígona, a forza do sangue por María Queizán, uma mulher que viveu a maior parte de sua vida sob um regime fascista, nos faz pensar nas outras possibilidades, sugere o que poderia ter sido. A trama da peça toma lugar na Galícia do século XI, tempo decisivo na existência do Reino de Galícia. Antígona é Elvira, representação da nobreza galega “no sumisa al poder extranjero y de la mujer digna que no admite sujeción de ningún elemento dominante masculino, sea el tirano, sea su hijo, con quien rechaza firmemente ser casada” (GARCÍA NEGRO, 2012, p. 230).

Queizán, portanto, por meio da personagem Elvira, cujo referencial é o ser humano, mais estritamente a mulher galega, desenvolve os temas a partir do mundo que a cerca. E, assim, Elvira encarna o feminino em busca de emancipação e se constitui numa representação contrária à representação clássica da mulher incapaz e submissa, num contraponto ao cânone literário, marcado, por sua vez, pela exclusão das mulheres enquanto sujeito do discurso e pela adulteração na representação da experiência e história femininas.

Dado, portanto, que a linguagem é determinante na construção das representações e que uma menina não pode se tornar o que não vê, pode-se dizer que María Xosé, em Antígona, a forza do sangue, elaborou o conjunto de enunciados pronunciados pela protagonista baseada em seu pensamento como mulher e pesquisadora e na própria realidade que cerca sua vida a fim de construir uma referência para o público feminino. Isso porque

As palavras dos personagens, possuindo no romance, de uma forma ou de outra, autonomia semântico-verbal, perspectiva própria, sendo palavras de outrem numa linguagem de outrem, também podem refratar as intenções do autor e, conseqüentemente, podem ser, em certa medida, a segunda linguagem do autor (BAKHTIN, 1990, p. 119).

Desse modo, por meio da linguagem literária, a autora revela a busca da mulher galega pela igualdade de gêneros num contexto permeado também pela busca da emancipação linguística e territorial. Elvira é uma amálgama de minorias que se entrecruzam e, consciente de sua situação, sabe que sua luta deve articular diferentes formas de resistências às diferentes formas de opressão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e Estética: A teoria do Romance. São Paulo: Hucitec, 1990.

BECERREÁ, Afonso Becerra de. Ritos de sangue: unha transfusión anovadora na dramaturxia de Mª Xosé Queizán. Revista Galega de Teatro. Nº 72. Setembro de 2012. Disponível em: <http://www.revistagalegateatro.com/wp-content/uploads/2013/03/ritos-de-sangue.pdf&gt;

EDITORIAL GALAXIA. As orixes. 2006. Disponível em: <http://www.editorialgalaxia.es/editorial/historia.php&gt;

EL CORREO GALEGO. Mª Xosé Queizán ou o feminismo. 2008. Coluna O PERSONAXE. Disponível em: <http://www.elcorreogallego.es/lo-mas/lo-mas-visto/ecg/m-xose-queizan-ou-feminismo/idEdicion-2008-11-09/idNoticia-362239/&gt;

GARCÍA NEGRO, Pilar. Refacción de mitos clásicos en el teatro gallego contemporáneo. In: Aurora López, Andrés Pociña e María de Fátima Silva (coords.): De ayer a hoy: influencias clásicas en la literatura, Coimbra (Portugal), Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, 2012, pp. 227-236 [ISBN Dixital 978-989-721-038-9].

KERGOAT, Danièle; Divisão Sexual do trabalho e relações sociais de sexo. In: HIRATA, Helena; LABOIRE, Françoise; DOIRÉ, Héléne Le; SENOTIER, Danièle. Dicionário crítico do feminismo. 1ed. São Paulo, SP: UNESP, 2009.

MAÑAS, Emma. Antígona, metáfora da muller galega. Actas do VII Congreso Internacional de Estudos Galegos. Mulleres en Galicia. Galicia e os outros pobos da Península. Barcelona 28 ó 31 de maio de 2003. Ed. de Helena González e M. Xesús Lama. Sada: Ediciós do Castro / Asociación Internacional de Estudos Galegos (AIEG) / Filoloxía Galega (Universitat de Barcelona), 2007. ISBN: 978-84-8485-266-7. Depósito Legal: C-27912007.

PUBP. Les Antigones contemporaines (de 1945 à nos jours): Resumes. 2009. Maison des Sciences de l’Homme de Clermont-Ferrand. ISBN – 978-2-84516-407-9. Disponível em: <http://www.msh-clermont.fr/IMG/pdf/Antigones-Resumes.pdf&gt;

QUEIZÁN, María Xosé. Son, somos proxenetas. Fevereiro de 2015. Disponível em: <https://mariaxosequeizan2.wordpress.com/2015/02/01/son-somos-proxenetas/&gt;

REISZ, Susana. ‘Daquelas que cantan …’: voces de mujer en la poesía gallega contemporánea. 1995. Lehman College y Gradúate Center, CUNY. Centro Virtual Cervantes. AIH. Actas XII. Disponível em: <http://cvc.cervantes.es/literatura/aih/pdf/12/aih_12_5_031.pdf&gt;

SICOT, Bernard. Les Antigones contemporaines (de 1945 à nos jours). Bulletin hispanique [En ligne], 113-2. 2011. pp. 816-821.Disponível em: <http://bulletinhispanique.revues.org/1480&gt;

VIDAL, David García. Teatro galego e construción nacional: os Cadernos da Escola Dramática Galega (1978-1994). Julho de 2009. A thesis submitted to The University of Birmingham for the degree of Doctor of Philosophy. Department of Hispanic Studies. College of Arts and Law. The University of Birmingham. Disponível em: <http://etheses.bham.ac.uk/972/2/GarciaVidal_10_PhD.pdf&gt;

XUNTA DE GALÍCIA. A violencia de xénero en Galicia: Plan de acción 2002-2005. Publicado em 2001. Disponível em: <http://igualdade.xunta.es/sites/default/files/files/documentos/planviolx.pdf&gt;

Galego, português, uma questão de língua e familiaridade

Asafe Lisboa

Estudante de Literatura Galega I e pesquisador na UERJ

É, com efeito, de poder que se tratará aqui, indireta, mas obstinadamente.”

Roland Barthes em “Aula”

A primeira matéria que é tratada nas lições de literatura em língua portuguesa, tomando se o critério histórico-cronológico como fator preponderante do estudo, é a lírica trovadoresca. Essa manifestação poética, “[…] a primeira a surgir em língua romance, mais especificamente em provençal, foi tão importante “[…] que se pode dizer sem exagero que […] constitui a primeira etapa do lirismo europeu (TORRES,1987, p.5).

Mesmo que seu início tenha se dado nas regiões do sul da França, próximo ao fim do século XI, não demorou para que a arte de trovar penetrasse a Península Ibérica. Ali ela se cultiva nos moldes de um romance designado galego-português e posto que mantenha alguns dos preceitos do trovar provençal, desenvolve características que destoam totalmente deste, além de originar um tipo autóctone, original e exclusivo: a cantiga de amigo.

Ainda segundo Torres (1987, p.10) considerando-se que o texto mais antigo do “patrimônio poético galego-português” data de 1196 e que é de 1350 em diante que ocorrerá o fenômeno do “interregno poético” (Michaëlis apud PENA, 2002, p.88), para fins expositivos, tomaremos estas duas marcações como pontos inicial e final do trovadorismo, embora tenhamos consciência que as fronteiras históricas podem alargar-se ou recuar em virtude de uma série de fatores e classificações.

Dito isso, nesse período de cerca de cento e cinquenta anos, muito é produzido em galego-português, principalmente em verso. Torres (1987, p.10) fala em cerca de 1.685 textos; o número cresce em Pena (2002, p.105 – 107) que toma por base os registros dos cancioneiros da Biblioteca Nacional de Lisboa, doravante Colloci-Brancuti, da Vaticana e d’Ajuda e contabiliza mais de 3.000 textos.

No que diz respeito à prosa, no entanto, parece que a conjugação galego-português ou ainda literatura galego-portuguesa, já não soa tão apropriada e “[…] xorden voces […] desde o norte e o sur da fronteira, que buscan xa delimitar o que é <<galego>> e o que é <<portugués>>, ou xa reclamando tamén a totalidade desa producíón para unha das dúas rotulacíóns subliñadas.” (PENA, 2002, p.295).

Como conceber que o galego-português seja a língua comum apenas da produção lírica, e não da prosa da qual é contemporânea e conterrânea?

A pergunta que nos cabe formular neste ponto é a seguinte: a tentativa de cisão do koiné galego-português é motivada, apenas, por questões afetas às modalidades literárias? Como conceber que o galego-português seja a língua comum apenas da produção lírica, e não da prosa da qual é contemporânea e conterrânea? Estaremos diante de uma “[…]especializacíon linguística medieval por xéneros?” (PENA, 2002, p.295).

A LÍNGUA E OS MODELOS LITERÁRIOS

Do ponto de vista estritamente linguístico, a especialização por gêneros não é uma hipótese inverossímil, Monteagudo (1998, p.34) sinaliza que

[…] na idade media existia a curiosa tendencia a crear rexistros literários con base lingüística diferente segundo o xénero literario: así, no centro e occidente da península [Ibérica], durante o século XIII, o castelán foi a lingua preferida para a épica, mentres que o galego o foi para a lírica.

A mudança de códigos linguísticos para tratar de diferentes tipos de texto, por assim dizer, não é exclusividade da Península Ibérica nem do galego-português. Por exemplo, em vários períodos do medievo, principalmente naqueles em que o romance ainda não tinha definitivamente superado o latim, observa-se o uso deste sempre que se deseja explicitar o caráter sui generis de determinados registros (BURKE, 1995).

Entretanto há alguns aspectos que devem ser ressaltados quando se trata dessa mudança de códigos linguísticos. Um deles é que no século XIII as línguas romances eram muito mais parecidas entre si do que o são hoje. Muito provavelmente, com um mínimo de esforço, os falares da Península Ibérica e até mesmo provençal eram mutuamente compreensíveis. Então, a utilização do galego-português como língua preferida para a lírica, longe de constituir fator inibidor da produção, significava a observância, por parte dos próprios trovadores, de uma tradição na qual essa língua constituía o registro apropriado para a poesia lírica (MONTEAGUDO,1998).

Desenvolver além deste ponto o argumento da especialização linguística por gêneros nos daria o ad absurdum do galego-português como língua da poesia trovadoresca somente, tornando válida a hipótese de que a prosa, se houvesse, deveria estar codificada em outros romances, ou até mesmo no latim.

Não é necessário muito esforço para mostrar o contrário. Citando apenas aqueles documentos escritos totalmente em galego-português, Pena (2002, p.299 – 305) refere-se a Noticia de Torto e Testamento de Afonso II, provavelmente ambos de 1214, Testamento de Estevo Pérez, redigido entre 1230 e 1260, Cronica Troiana de 1373, Historia Troiana (documento bilíngue, em castelhano e galego) da segunda metade do século XIV, o Xosé de Arimatea, datado por volta de 1313, uma tradução de parte do original francês da Suite du Merlin, da primeira metade do século XIV e Demanda do Santo Graal, que se afigura como uma antologia que inclui os episódios da Matéria de Bretanha mais apreciados pelo público, do século XV. Há ainda, para não deixar de mencioná-los, uma infinidade de hagiografias e textos de cunho historiográficos, jurídicos e didáticos.

Pois bem, se muito se produziu em galego-português, também em prosa, por que se verifica uma insistente tentativa de cisão, de delimitar o que é estritamente galego e o que é estritamente português, apenas na prosa?

O SOM E A LETRA

Até aqui estivemos deliberadamente tratando da lírica trovadoresca como registro literário apenas, tal qual é nos Cancioneiros. Entretanto como o próprio nome sugere, a lírica antes de tudo é música. A poesia do trovador tinha o acompanhamento instrumentos musicais e não era feita para ser lida e sim para ser ouvida (TORRES, 1987). Mais do que isso, conforme nos diz Monteagudo (1998, p.24)

A poesía trobadoresca constituía, como acto comunicativo, en primeiro lugar, un espetáculo, pois chegaba ó seu público mediante unha actuación, […] executada por um ou vários interpretes: como mínimo, un xograr acompañado dun instrumento musical, pero existía a posibilidade de que participasen varios músicos/cantantes, e tamén bailaríns ou bailarinas.

Pelo seu caráter performático é natural que a lírica obtivesse um maior destaque e se disseminasse mais rapidamente pelas cortes. Isso, como já cuidamos ter exposto, não significa dizer que não houve uma prosa galego-portuguesa, mas ressalta uma diferença fundamental entre esses dois modelos literários. Pena (2002, grifo nosso), ao tratar da prosa galego-portuguesa diz que embora esta não tenha alcançado o esplendor nem os elevados níveis qualidade e originalidade da lírica, não se trata de uma produção menor, apenas menos vistosa.

Menos vistosa porque no âmbito da prosa, principalmente após a introdução das novelas de cavalaria, em vez de termos uma plateia que ouve uma música, teremos o surgimento de uma figura solitária que lê uma narração. Uma vez que ocorra essa drástica mudança do público-alvo, por assim dizer, a mudança do código linguístico é uma consequência quase que inevitável. Note o leitor que isso difere de uma especialização linguística por gêneros; o que está posto é que o fator determinante da mudança é a alteração do receptor.

No que concerne a lírica trovadoresca, o galego-português era o koiné da produção e também do registro nos cancioneiros. Os poetas adotavam suas convenções e particularidades porque estas já haviam se sagrado pelo uso e eram reconhecidas pelo grande público. Na prosa, não havia necessidade de tantas formalidades (nas acepções mais literais do termo); o que guiava a pena do escritor era a intenção de estabelecer ligação direta com um leitor. Para cumprir esse propósito cada autor

[…] semella utilizar aquela variedade [do galego-português] que ten máis á man. Dessa maneira[…] entendemos que o lóxico é asistirmos a unha manifestación das diversas falas, do conjunto de possibilidades que compoñen o romance occidental peninsular.” (PENA, 2002, p.297)

Respondendo, em parte, a indagação que fizemos anteriormente, concluímos que através da prosificação é possível, não delimitar o que é galego ou o que é português, mas compreender que o galego-português abarcava em si uma série de variedades regionais mais ou menos semelhantes. A busca pela distinção, à época, do que seria o galego e o português, tem sua razão de ser e seu pano de fundo linguístico e literário. Mas, reiterando a questão, será que seriam estes os únicos aspectos responsáveis pela diferenciação?

Através da prosificação é possível, não delimitar o que é galego ou o que é português, mas compreender que o galego-português abarcava em si uma série de variedades regionais mais ou menos semelhantes.

O PODER DA LÍNGUA

Nunca é demais lembrar que a questão dos nomes que se dá às línguas escapa da órbita dos especialistas (filólogos, gramáticos, linguistas) e se vincula muito mais a problemáticas de natureza política, cultural, econômica e ideológica.” (BAGNO, 2011, p. 34). A título de exemplificação do exposto, recorrerei mais uma vez a história da língua latina. O legado imanente do espírito grego conduziu o latim, língua lacônica, precisa e substancialmente denotativa, a uma vagarosa porém constante reorganização estilística que cindiu o idioma em duas modalidades: o sermo cultus, latim culto, ou ainda, latim clássico e o sermo vulgaris ou simplesmente latim vulgar. Como se pode imaginar, o sermo cultus era a variante utilizada pela elite instruída, ao passo que o sermo vulgaris era praticado pela plebe.

Em relação ao galego-português, principalmente depois do período do Interregno Poético (1350 em diante), devido a circunstâncias essencialmente políticas, a língua vai sofrendo com a intromissão castelhana e seu desenvolvimento natural e seu continuum de transmissão cultural são interrompidos. É exatamente o que atesta Pena (2002, p.96)

Así pois, se triunfa o mundo trobadoresco galego (ou galego-português) na corte de D.Denís, ou naqueloutra de Fenando III, é porque se mantén ainda o poder – e polo tanto, os gustos, costumes, idioma … dominantes – dos nobres de procedencia galega em ambos os dous lugares. Cando isso xa non suceda así; cando dunha parte, Portugal deseñe novos rumbos e cando o conxunto formado por Castela, León e Galicia atope um novo eixo – Sevilla-Toledo-Burgos -; cando un novo poder, de solar castelán, se consolide e cando novas modas prevalezan nunha corte afastada de nós… daquela assistiremos aos momentos epigonais do centileo das cantigas

A decadência do mundo trovadoresco, e de certa forma do galego-português como língua de expressão literária, entretanto não são termos suficientes para nos fazer entrever o estritamente galego e o estritamente português. Quando falamos em decadência, não estamos dizendo que a produção em prosa, que aliás seguiu bastante intensa até o século XV, seja insignificante ou inferior mas relembramos que, conforme já exposto, era bem menos vistosa e uniforme. Essa falta de uniformidade, aliás a explicitação da variedade de possibilidades do galego-português proporcionada pelos registros em prosa, nos mostra um romance multifacetado, que apesar das diferenças, era mutuamente compreensível entre os povos do noroeste da Península Ibérica, bem como nas regiões centro-ocidentais.

Nos resta, parafraseando Bagno, assumir que as distinções e nomeações que dizem respeito a uma determinada língua se respaldam em conceitos totalmente alheios à gramática, à literatura e à linguística. A busca de uma designação entre o que é estritamente galego e o que é estritamente português é reflexo, dentre outros motivos, de um impulso de demarcação de fronteiras físicas e de uma autoafirmação nacional.

Para compreendermos como isso se aplica aos casos do galego e do português é preciso fazer uma breve incursão na história. Dentro dos limites da Gallaecia, província romana na Península Ibérica, foi se formando um romance de características muito particulares. Quando, nas vésperas do século XII, a lírica trovadoresca ganhou eco naqueles territórios foi porque “[…] a lingua tiña xa unha estructura e unha entidade que posibilitou a grandeza literaria […]” (QUEIZÁN, 1998, p.202) e também por que o “[…] país ofrecía unha madurez cultural relativamente avanzada, conseguida en boa parte durante o século XII gracias ó auxe da peregrinación a Santiago e a unhas condicíóns políticas favorables […]” (MONTEAGUDO, 1998, p.23). Condições políticas favoráveis explicitadas pelo próprio Monteagudo (1998, p.34)

Desde o final do século XI ata a metade do XIII, os condes de Traba ou Trastámara, a liñaxe máis importante da Galicia, constituíron ó mesmo tempo unha das liñaxes máis poderosas da Hispania cristiá, que portiña coas casas reais de Léon e de Portugal e mais coas familias máis empoleiradas da aristocracia castelá […] Precisamente, entre os seus familiares cóntanse aristócratas que á sua vez xogaram un papel moi importante na acollida da lírica occitana na península ibérica[…]

Visto que a tradição trovadoresca penetrou a Península Ibérica através da Galiza, se difundiu, principalmente, pelo esforço da nobreza galega, seguindo os moldes do romance que era há muito ali cultivado, por que chamar a língua das cantigas de galego-português?

De tódolos xeitos, hai que subliñar que a denominación que recebía a lingua empregada polos poetas da tradicíon trovadoresca galego-portuguesa era galego, ou polo menos así lle chama o trobador catalán Jofre de Foixá nas Regras de trobar, um manual de poesia cortés de contras os finais do século XIII (MONTEAGUDO, 1998, p.21)

Se nos detivermos um pouco mais nesta análise histórica veremos que embora Afonso Henriques, por meio de seus muitos êxitos militares e do reconhecimento de Afonso VII e do Papa Alexandre III, finalmente se torne rei do Condado Portucalense, em 1179, ainda é cedo para se falar em língua portuguesa. Isso por que a língua se falava no Condado Portucalense, à essa época, era a mesma que se falava na Galiza (BAGNO, 2011).

Por que chamar galego-português o romance que é anterior ao surgimento de Portugal (e até mesmo do Condado Portucalense), e que já era cultivado na Galécia, entidade político-geográfica que existia desde a época dos romanos?

E mesmo depois. Os seguintes serán anos de conquista, tempos de guerra, con rei e nobres analfabetos nos que non se pode esperar preocupacións idiomáticas.” (QUEIZÁN, 1998, p.201). Por mais que as fronteiras físicas de Portugal tenham se tornado mais fixas, no eidos da língua elas ainda permaneceriam ligadas a Galiza. Até que haja, de fato, uma fronteira linguística entre o galego e o português haveremos de presenciar o surgimento de outra dinastia em Portugal. Pois bem se galego e português eram um só até o século XIV, por que chamar galego-português o romance que é anterior ao surgimento de Portugal (e até mesmo do Condado Portucalense), e que já era cultivado na Galécia, entidade político-geográfica que existia desde a época dos romanos? (BAGNO, 2011) “Somente por uma necessidade ideológica de afirmação nacionalista é que se pode utilizar um termo anacrônico como ‘galego-português’ para designar uma língua que em tudo era galega […]” (BAGNO, 2011).

A nação de Portugal precisava de uma língua que se chamasse portuguesa, pois é a partir da língua que o poder é desenvolvido e exercido:

[…] o poder é o parasita de um organismo transsocial, ligado à história inteira do homem, e não somente à sua história política ,histórica. Esse objeto em que se inscreve o poder, desde toda eternidade humana, é:a linguagem — ou, para ser mais preciso, sua expressão obrigatória: a língua. A linguagem é uma legislação, a língua é seu código. (BARTHES, 1977, p.11)

Afirmar a existência de uma língua própria, contudo, ainda não é o suficiente. É preciso torna-la grande. Para tanto os gramáticos portugueses indicam a afiliação direta de sua língua, língua portuguesa, com o latim. Bagno (2011, p. 35), para ilustrar essa ideologia, transcreve trechos de Duarte Nunes de Leão (da obra “Origem da lingoa portuguesa”, de 1606):

E por a muita semelhança que a nossa língua tem com ela [a latina] e que é a maior que nenhuma língua tem com outra, & tal que em muitas palavras & períodos podemos falar que sejam juntamente latinos & portugueses.

E também de Manoel Severim de Faria (da obra “Discursos varios politicos”, de 1624):

E mostrando nós que a portugueza participa mais da latina, & que na cópia, pronunciação, brevidade, ortografia, aptidão para todos os estilos, não é inferior a nenhuma das modernas antes igual a algumas das antigas, com razão lhe poderemos dar o louvor de lingua perfeita, & de ser uma das melhores do mundo.

Observamos então que o que era galego transmuta-se, tal logo a ascensão e expansão políticas assim o demandem, em português, língua que por sua vez advém, supostamente, do latim. Pois bem, cogitando a hipótese de que isto realmente tenha ocorrido, teremos de imaginar que a língua se dissemina do sul para o norte, contrariando o caminho da Reconquista (QUEIZÁN, 1998).

A transformação do galego em português, filho do latim, além de prover uma língua para a nação de Portugal, ainda se presta a outro propósito: fazer esvanecer qualquer vestígio de procedência galega no idioma. Isso porque a Galiza, a partir de 1230, vai perdendo gradativamente sua autonomia política e resulta disso que o galego se torna um falar desprestigiado (BAGNO, 2011). Era necessário então fazer recuar as origens, em nome da política e do anseio de se afirmar como nação autônoma, e tomar como nascedouro o passado quase mitológico da antiguidade clássica.

Por fim

En realidade, o galego é o nome da lingua e o portugués é o nome político, derivado do Estado de Portugal. Ou sexa que o galego é ao portugués o mesmo que o castellano é ao español. Portugués e Español son os nomes políticos derivados do nome do Estado; o galego e o castellano son os nomes das linguas e do lugar onde se orixina. A diferencia está en que […] Ningúm español, sexa da Mancha, de Andalucía, ou As Canarias, ten problema en recoñecer que súa lingua […] é o castellano. Se polo contra, os portugueses negan que a súa lingua é o galego, é por claríssimas razóns políticas. (QUEIZÁN, 1998, p.203)

GALEGO – PORTUGUÊS?

Quando no início do trabalho aludimos às vozes que buscavam separar o que era galego e o que era português, mencionamos que algumas delas já reclamavam a totalidade da produção literária, ao menos da prosa, para uma dessas rotulações. Isso se deve ao fato de que “galego-português” nunca foi um termo utilizado naquela época.

O binômio “galego-português” faz supor que o português e galego eram uma só língua, e que se dividem, tornando-se completamente diferentes tão logo Portugal se torne independente (QUEIZÁN,1998). Reiteramos que o mero estabelecimento de fronteiras físicas não cinde o idioma instantaneamente; a língua que se falava no Condado Portucalense era a mesma que se falava na Galiza. Acontece que o designado “português” vai ser a língua oficial de um Estado, que se não era de todo independente, não media esforços para sê-lo. O galego por sua vez não poderia ter destino mais díspar. Queizán (1998) afirma que para evitar as confusões fomentadas pelo uso do par “galego-português, ele deve ser substituído pela terminologia Galego Medieval.

Se galego-português não é, nem nunca foi, o nome da língua da lírica e da prosa medieval produzida no noroeste da Península Ibérica, e tampouco é uma terminologia adequada para tratar do romance da Galiza, por que segue como presença constante nos livros de história e de literatura portuguesa e galega? Na verdade, o termo galego-português é recente, cunhado por especialistas e estudiosos portugueses, no século XIX. Sua aplicação prática satisfaz a duas necessidades: reconhecer o galego como língua da prosa e da poesia medievais, ao mesmo tempo em que incorpora essa produção literária ao patrimônio cultural português. (BAGNO, 2013)

CONCLUSÃO

Como já afirmamos anteriormente, o mero estabelecimento de fronteiras políticas, por si só, não estabelece uma fronteira linguística. Hoje, séculos após a Reconquista e o colonialismo do século XVI, o galego e o português ainda possuem enormes semelhanças. Semelhanças que não se restringem apenas a variante do português falado na Europa.

Uma familiaridade que atravessou mares e continentes. Onde quer se fale a língua portuguesa, de um modo peculiar a cada região, fala-se também o galego. Assim a iniciativa de conhecer mais a língua galega torna-se instrumento de aproximação de povos que compartilham cultura e identidade.

Onde quer se fale a língua portuguesa, de um modo peculiar a cada região, fala-se também o galego.

É comum que desde sempre estudemos a língua portuguesa através de suas reminiscências mais óbvias. A tradição formalista da maioria das gramáticas do português no Brasil não nos deixa mentir. Mas tornou-se insustentável continuarmos a dirigir nossos olhares somente para a Lusitânia e para a Península Itálica. É preciso lembrarmos da Gallaecia.

Um de nossos maiores poetas cantou a língua portuguesa como a “última flor do Lácio”. Uma perspectiva um pouco lúgubre, a meu ver. Prefiro imaginar que a língua que falamos aqui no Brasil é uma folha nova. Uma folha de uma árvore que tem suas raízes assentadas não em Roma ou em Lusitânia, e que continua florescendo e frutificando. Uma folha da árvore da Galiza.

BIBLIOGRAFIA

BAGNO, Marcos. O português não procede do latim: uma proposta de classificação das línguas derivadas do galego, 2011.

Disponível na internet em:

< http://www.editorialgalaxia.es/imxd/libros/doc/1320761642191_Marcos_Bagno.pdf&gt;

Acesso em 20/05/2015.

BARTHES, Roland. Aula: Aula inaugural da cadeira de semiologia literária do colégio de França. São Paulo: Cultrix, 2007.

BURKE, Peter. “Heu domine, adsunt turcae”: esboço para uma história social do latim pós medieval. In: A arte da conversação. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995.

MONTEAGUDO, Henrique. O marco histórico literário: a lírica trovadoresca galego-portuguesa. In: Três poetas medievais da Ría de Vigo: Martín Codax, Mendiño, Xoham de Cangas. Vigo: Editora Galaxia, 1998.

PENA, Xosé Ramón. Historia da literatura medieval galego-portuguesa, San Marcos – Santiago de Compostela: Sotelo Blanco Edicíons, 2002.

QUEIZÁN, María Xosé. A falacia do galego-português. In: Estudos Galegos 2. MALEVAL, Maria do Amparo Tavares (ORG). Niterói: EdUFF; Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998.

TORRRES, Alexandre Pinheiro. Antologia da poesia trovadoresca galego portuguesa. Porto: Lello & Irmão Editores, 1987.