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A ressonância do mito de Tristão e Isolda no conto “Tristán Garcia”, de Álvaro Cunqueiro

Asafe Lisboa

Aluna de Introdução à Cultura Galega na UERJ

Na literatura, as figuras de Tristão e Isolda aparecem primeiramente nos versos de Béroul e Thomas da Inglaterra, ambos poetas do século XII. No entanto, apesar da contemporaneidade dos autores, a trajetória do casal adquire feições díspares de acordo com a narrativa em questão: a de Béroul é, de certa forma, um pouco mais agressiva, flertando com o épico, ao passo que Thomas da Inglaterra imprime com mais força os traços do amor cortês e da paixão trágica.

Posteriormente, após a difusão dessas duas versões primordiais, entre tantas variações acerca do tema surge “Tristão em prosa”, obra que através do ciclo da Post-Vulgata ligará Tristão ao ciclo arturiano. O ciclo arturiano, também designado Matéria de Bretanha, alcançou enorme popularidade no noroeste da península Ibérica.

Antes de prosseguirmos é preciso responder a duas questões iniciais: por quê incorporar as lendas de Tristão e Isolda no ciclo arturiano e por quê a Matéria de Bretanha foi mais cultivada em Portugal e em Galiza, se foi primeiramente conhecida em Castela?

O ciclo arturiano, bem como o mito de Tristão e Isolda, possui origens bem mais remotas do que as literárias. Ambos têm suas raízes fixas na tradição ancestral do povo celta. Essa tese, sustentada pelo romanista Gastão Paris, “Parte do princípio de que os escritores se limitam a dar corpo e feição artística ao material folclórico pré-existente.” (LAPA, 1981, p.241). Tomando-a por base, torna-se justificável aproximar literariamente Tristão e Arthur, pois poderíamos concluir que essas personagens compartilham o passado mítico e o berço cultural.

"Tristram and Isolde", pintura de John William Waterhouse (1916)
“Tristram and Isolde”, pintura de John William Waterhouse (1916)

O florescer intenso da Matéria de Bretanha e do mito de Tristão e Isolda no ideário galego-português pode ser explicado através da hipótese de que Portugal e Galiza tenham sofrido forte influência dos celtas. Segundo Lapa (1981, p.243)

[…] a arqueologia e a etnografia, activamente cultivadas na Galiza, têm demonstrado que houve comunicação entre o noroeste da Península e os povos bretões. Um fundo comum de remota civilização patenteia-se na flagrante semelhança dos petroglifos, dos castros e seus despojos. Nos próprios produtos de arte cristã, em que se denuncia a sobrevivência de antigos ritos, como nas cruzes de pedra, tão frequentes na Galiza, há uma dedada inconfundível, que os aproxima estranhamente de monumentos congéneres da Bretanha, como ficou provado pelos trabalhos do artista galego Castelao. O substratum céltico parece, pois, um facto cientificamente provado e não apenas, como muitos cuidam, uma fantasia literária.

Os vestígios celtas evidenciam uma ligação antiga que, apesar do aparente desvanecimento, ressurge de tempos em tempos jamais poderá ser ignorada. Tal como os castros e os petroglifos, as (re)criações literárias são como os monumentos do passado e servem de provas cabais do processo de transculturação.

Álvaro Cunqueiro, expoente do neotrovadorismo, no conto “Tristán Garcia” faz uma releitura cômica, mas ao mesmo tempo profunda e singela do mito de Tristão e Isolda. Em Cunqueiro, o protagonista desconhece as origens do próprio nome: “Este Tristán do que conto nunca soubo por que lle puxeran este nome no sacramento do bautismo, nin coñecía ninguén que se chamase como el.”

Por essa razão, Tristán Garcia estava alheio ao destino de seu célebre homônimo e também alheio ao seu próprio. A trama tem a reviravolta decisiva quando Tristán lê em “La verdadera historia de los amantes de Tristán e Isolda” sobre a paixão arrebatadora vivida pelo Tristão da novela e decide partir em busca de sorte semelhante. O que acontece em seguida, deixarei que as palavras de Cervantes em “Dom Quixote” digam com mais clareza: “Em suma, tanto naquelas leituras se enfrascou, que passava as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro, e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro, de maneira que perdeu o juízo.

Álvaro Cunqueiro
Álvaro Cunqueiro

Ao ler as histórias de Tristão e Isolda, Tristán imagina a grandeza que lhe rondava o nome e apropria-se dela, como, se pelo simples fato de se chamar Tristán, fosse seu destino irrevogável reviver os episódios do romance. A homonímia é a razão prima da demanda da personagem e também é objeto de seu desejo; por se chamar Trístán sua paixão só poderia ser satisfeita única e exclusivamente por uma mulher de nome Isolda (VEGAS, 1995, p.300).

A importância do nome é dos aspectos mais notáveis de “Tristán Garcia”. É o nome que lhe sela o destino, funcionando como elemento mágico que lhe arrebata o poder de decisão e o mergulha em uma paixão irresistível. Tristán imagina que, quando a encontrar, Isolda não terá outra escolha a não ser amá-lo, exatamente porque se chama Isolda. Os nomes nos remetem a “le philtre”, a poção bebida pelo casal de “Le verdadera historia de los amantes de Tristán e Isolda” e que os torna tão apaixonados, independentemente de suas ações e das consequências que elas possam vir a ter.

Outro ponto interessante do conto de Cunqueiro é o fato de que Tristán não se apaixona pela mulher Isolda, até porque não conhecia pessoa que assim se chamasse, mas pela Isolda que não existia, a Isolda da novela. Em uma adaptação televisiva de “Tristán Garcia”, exibida na “Televisão de Galicia” em 1989, o protagonista diz “estar apaixonado por uma mulher que não conhece”. Na verdade Tristán não estava enamorado de nenhuma entidade realizada no mundo, mas sim de um sentimento provocado pela leitura que fizera. A paixão pelo sentimento e não pelo indivíduo, o anseio pelo ideal, pelo que é impassível de concretização e uma certa saudade são impressões típicas do substratum céltico:

A expressão mais intensa e elevada da saudade encontra-se no anelo mais característico dos poetas célticos, o anelo do impossível. Esta é a saudade pura, porque não pode ver-se satisfeita, e nela tem relativamente pouca importância o desejado em comparação com o acto de desejar. Esta forma de saudade revela-nos que nela o fundamental é o anelo e não o anelado… (Castro apud LAPA, 1981, p.345)

A paixão que independe de corpo, supera a vontade e subjuga a consciência tem sua razão de ser porque aponta para um fim: o amor eterno. Qualquer paixão que se realize tem um prazo determinado para acabar: o prazo do corpo. O corpo é a condição sine qua nom para existência da vontade e da consciência; com a morte do corpo, qualquer sentimento que se baseie nesses princípios cessa. Porém um sentimento como o de Tristão de “La verdadera historia de los amantes de Tristán e Isolda” ou do Tristán de “Tristán Garcia”, que se nutre de si mesmo, extrapola os limites da vida e morte e do tempo e espaço. O amor que não se realiza parece fugir de um sentimento que o filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche descreveu como “a melancolia da coisa acabada”. Uma vez que se concretiza no corpo e na esfera do real, o amor, agora melancólico, fica restrito a este âmbito. É grande apenas aquilo que é impossível, que não se concretiza e aí novamente vemos ressurgir o anelo saudoso dos celtas.

"Os outros feirantes", novela de Álvaro Cunqueiro na que se acha o relato "Tristán García"
“Os outros feirantes”, novela de Álvaro Cunqueiro na que se acha o relato “Tristán García”

Tristán Garcia ouve falar de uma tal Isolda, viúva e vendedora de churros, que vive em Venta de Baños e quase que imediatamente sai para encontrá-la. A naturalidade com que Cunqueiro vai conduzindo a narrativa para o seu clímax, bem como a ambientação cotidiana e prosaica, não diminuem a ordem de grandeza do desfecho. Pelo contrário, torna-a mais vívida para nós que hoje vivemos em tempos tão diferentes daqueles em que se deu “La verdadera historia de los amantes de Tristán e Isolda”. Ao chegar ao local onde Isolda vende seus churros, Tristán se depara com “unha velliña co cabelo branco, fermosos ollos negros, a pel tersa, as mans moi graciosas…” e é ela a Isolda que tanto procurou. Ao se apresentar como Tristán e dizer que estava ali para conhece-la, escuta de Isolda o seguinte:

– ¡Tristán! ¡Tristán querido!, puido dicir ao fin. ¡Toda a miña mocidade agardando a coñecer un mozo que se chamase Tristán! ¡E como non viña, casei cun tal Ismael, que era de Madrid!

Essa fala concretiza em “Tristán Garcia” a projeção do mito ancestral. As duas personagens reconhecem a ligação que têm, cuja origem única está nos nomes que possuem e na história que seus homônimos viveram. Novamente o amor de Tristán e Isolda se encontra embargado, dessa vez pela diferença de idade. Outro fator que conecta “La verdadera historia de los amantes de Tristán e Isolda” e “Tristán Garcia” é o fato de que há outro homem que se interpõe entre os dois amantes: em uma história é o Rei Marcos da Cornualha e em outra é Ismael de Madrid (VEGAS, 1995, p.301). Se por um acaso do destino Tristán Garcia pudesse ter chegado até sua Isolda quando ela era uma mulher mais jovem, então toparia com seu marido e mais uma vez não poderia satisfazer seus anseios.

A beleza única de “Tristán Garcia” está no fato de Álvaro Cunqueiro ter conseguido, com uma maestria quase inacreditável, captar toda a sensibilidade presente no mito de Tristão e Isolda. É bem verdade que o cenário das narrativas difere muito entre si; o ingênuo Tristão e a velha simpática que é Isolda, fora os nomes, nada têm em comum com as personagens de “La verdadera historia de los amantes de Tristán e Isolda”. Ainda assim a grandeza do amor e o anelo impossível, através imagens tão simples, continuam reverberando em todos que leem “Tristán Garcia”. Álvaro Cunqueiro, longe desfigurar o mito, enriqueceu-o com tão profunda contribuição e fez com que ele chegasse a seus leitores. “Porque esta é a maneira do mito existir: variando.” (Guimarães apud FRANCH.INI & SEGANFREDO, 2013).

Álvaro Cunqueiro, além de eternizar o mito de Tristão e Isolda através de “Tristán Garcia”, engrandeceu singularmente a língua galega com tal narrativa. Por esse motivo ele afetou diretamente o povo galego, pois estava ciente de que “[…] la duración del idioma es la única posibilidad de nosotros duremos como pueblo. Se hoje, mil primaveras depois (quem sabe?) ainda ouvimos falar de Tristão e Isolda, que por Tristán Garcia”, por Álvaro Cunqueiro, por seu povo, cultura e língua, a Galiza dure mil primaveras mais.

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Referências Bibliográficas

FRANCHINI, A.S; SEGANFREDO, Carmen. As 100 melhores histórias da mitologia: deuses, heróis, monstros e guerras da tradição greco-romana. Porto Alegre, L&PM, 2013.

LAPA, Manoel Rodrigues. Lições de literatura portuguesa. Coimbra, Coimbra Editora, 1981.

RITA, Clara Santana. Tristão e Isolda: mito e magia. Universidade Autónoma de Lisboa. 2010. Disponível na internet em:

< http://www.uniabeu.edu.br/publica/index.php/RE/article/viewFile/17/pdf_13> Acesso em 27/12/2014

VEGAS, Alicia Casado. Dos lécturas contemporáneas del mito de Tristán: Antonio Prieto y Álvaro Cunqueiro. Revistas Científicas Complutenses, n°13. Universidade Complutense de Madrid, 1995. Disponível na internet em:

< http://revistas.ucm.es/index.php/DICE/article/viewFile/DICE9595110295A/13098> Acesso em 27/12/2014

SITES

Gallicia Espallada: Unha recolleita da cultura galega.

galicia.swred.com

Link para o vídeo da readaptação de “Tristán Garcia” exibida pela Televisão de Galicia:

https://www.youtube.com/watch?v=Y8xHj6rOXyw

Galícia: a terra nai do adeus

Thayane Gaspar

Aluna de Literatura Galega II na UERJ e pesquisadora do Programa de Estudos Galegos

INTRODUÇÃO

Um dos movimentos de vanguarda do século XX mais importantes na poesia pré-guerra foi o neotrobadorismo graças à recuperação, divulgação e estudo da lírica medieval. As cantigas trovadorescas foram resgatas com o intuito de resgatar o prestígio do idioma galego na literatura e assim resgatar também a sua cultura.

Há controvérsia a respeito de quem teria inaugurado o neotrobadorismo, e alguns apontam Carles Ribas e outros Eduardo Pondal, mas admite-se com frequência que Pondal com seu poema O Canto do Vígia teria sido o precursor do movimento. Contudo, é o nome de Bouza-Brey que de destaca por ter sido o autor que mais acreditou na possibilidade de usar a estética medieval.

Eduardo Pondal

Por muito tempo, estudiosos consideraram a Idade Média o período das Trevas, mas em Galícia esse mesmo período é considerado a Idade do Ouro, no qual a língua galega tinha prestígio e, politicamente, Galícia contava nessa época com maior soberania, sem imaginar um futuro tão dominado pela Espanha.

A geração do neotrobadorismo tinha passado por consequências históricas devido a Primeira Guerra Mundial, Revolução Russa e a criação de regimes fascistas na Europa. A imigração começa no século XIX com os problemas socioeconômicos enfrentados no país, e ela se intensifica no século XX.

Logo, o retorno ao medievo talvez esteja além do plano político e ideológico. A visão que as cantigas (principalmente as de amigo) apresentavam estão novamente em frente aos olhos do povo galego: as mulheres esperando seus namorados/maridos voltarem, os homens partindo sem nenhuma certeza de retorno, o mar que os leva, e a natureza que conversa com quem fica e que faz chorar quem partiu.

MORRIÑA X SAUDOSISMO

Segundo o Dicionário da Real Academia Galega, morriña tem três significados, mas o que nos interessa é a definição de “sentimento e estado de ánimo melancólico e depresivo, em particular o causado pela nostalxia da terra.”. Esse é um sentimento particular da cultura galega e também um mito que surgiu no século XIX por conta das imigrações e a saudade causada pela distância.

Porém, a morriña não é um sentimento exclusivo daquele galego imigrante que partiu contra a sua vontade e que deseja retornar à sua pátria. Outro tipo de morriña também era sentida pelas mulheres e pelos filhos quando o homem era obrigado a deixar o lar.

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A migração por mar a América foi contínua para as galegas e galegos de finais do século XIX e durante o século XX

A palavra saudade existe em galego, mas a morriña é mais que isso. A morriña, o lirismo, o sentimentalismo, todos esses elementos traçam uma imagem tradicionalmente feminina da Galícia. Para Helena Miguélez-Carballeira, da Universidade de Bangor (Gales), esse sentimentalismo serviu para que o Estado espanhol freasse o nacionalismo galego e a singularização da nação. Sendo assim, a morriña seria oriunda de relações de desigualdade causadas principalmente pela dominação espanhola.

A autora em seu livro Galicia, a sentimental nation critica também a passividade do povo galego e alega que há uma difusão da visão “chorona e lacrimóxena” de Rosalía de Castro.

Com o viés político empregnando essa palavra, pode-se aproximar morriña do saudosismo português. Principalmente se formos analisar a morriña dentro do neotrobadorismo, que busca resgatar seu período de glória, prestígio e soberania. O que acontece de forma muito semelhante no saudosismo português, no qual Portugal deseja ser novamente “a cabeça” da Europa.

O saudosismo português foi um movimento social, político e estético do século XX em Portugal, e assim como a morriña, viveu no coletivo. O saudosismo foi consequência da decadência das expansões martítimas, da morte de D. Sebastião e da dominação pela coroa espanhola. O saudosismo é o marco da decadência de Portugal, assim como também marca a crise na identidade da pátria, pois esta é colocada em questão.

Semelhanças acabam aparecendo entre os dois movimentos quando colocados em parelelos, principamente se admitir que foram causados direta ou indiretamente pela dominação da Espanha. A passividade galega citada por Miguélez-Carballeira também é encontrada no saudosismo português. Portugal não reage à dominação espanhola porque nesse momento o país estava passando por dificuldades na economia, e a Espanha gozava de uma melhor economia, então a nobreza portuguesa acreditou que se beneficiaria de alguma forma. E os galegos? Por que não resistiram? Como diz Bouza-Brey no poema Trova Infinita:

Teño aínda aberto os beizos

onde findou a canzón

que agora quere ser bico

xa que deixou de ser voz.

Uma semelhança estética entre os dois conceitos é a forma da sociedade nostálgica e melancólica se expressar através do gênero lírico. É através desse lirismo que abro espaço para um intertexto já que a morriña e o saudosismo são caracterizados pela melancolia.

Freud em seu texto “Luto e melancolia” (1917) compara esses dois sentimentos traçando um quadro de sintomas comum aos dois. Ele diz: “O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante.”. E essas causas geram melancolia em pessoas pré-dispostas patologicamente.

Segundo Freud, o luto se curava com o tempo e portanto não deveria haver interferência no processo. A melancolia se distinguiria por ser um desânimo profundo e penoso, desinteresse pelo mundo externo, perda da capacidade de amar, diminuição da autoestima, auto recriminação e até uma expectativa de punição.

A melancolia é enigmática. O melancólico tem uma baixa extraordinária da autoestima, um empobrecimento do ego, o que não acontece no luto. “No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio, na melancolia, é o próprio ego.” Essa questão sobre a baixa autoestima e o ego empobrecido parece responder ou justificar um pouco a passividade galega. O povo galego aceitou o estereótipo de ser falante de uma língua “inculta”, sem prestígio, de ser homem do campo, rude (o termo “galego” frequentemente é pejorativo nos dicionários), incivilizado, passivo. E como se encontra em estado melancólico, o galego não consegue lutar contra o estereótipo porque seu ego está prejudicado, e ele não enxerga seu valor.

FERMÍN BOUZA-BREY

Analisaremos dois poemas extraídos do livro Nao senlleira (1933) para ilustrar a morriña, o psicológico e o social decorrente das imigrações, a melancolia e a baixo autoestima galega. O próprio título do livro já traz o elemento de despedida: a nao que leva o povo galego para longe da sua terra nai. E o adjetivo senlleira (solitário ou singular) que pode ser lido de duas maneiras, uma positiva e outra negativa. Senlleira como o galego melancólico que se vê sozinho no estrangeiro ou àquele que reconhece seu valor cultural, histórico, social, literário, e linguístico e reconhece sua singularidade, que se achá único.

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Fermin Bouza-Brey

O primeiro poema escolhido é “Tríades no mar e na noite”.

Meu navío leva ao vento

no mastro eterno da noite

o treu do meu pensamento.

Leda vai a nao

na proa unha frol:

a rosa albariña

do meu corazón.

Amiguiña, crara estrela,

dáme a aguillada de un bico

para apurrar a gamela.

Leda vai a nao, et sic.

Por navegar ao desvío

varei a miña chalana

no teu corazón-baijío.

Leda vai a nao, et sic.

Os agros van de ruada.

Vinde ruar pol-as ondas

levarés a herba mollada.

Leda vai a nao, et sic.

O faro de Corrubedo

co seu ollo largasío,

ai amor, púxome medo,

Leda vai a nao, et sic.

Deitouse o mar, foise o vento,

no mastro da noite albean

os liños do pensamento

Leda vai a nao

abordo un amor;

é granada a rosa

do meu corazón.

Dentre os elementos destacados temos “tríade”, pois mitologicamente o número três tem uma grande importância para a cultura celta, mas em especial nesse poema o número três pode se explicado ao final (retomaremos a tríade). “Noite” que também está no título é assinalada porque a noite significava o tempo dos amantes no trovadorismo, mas nunca se escrevia sobre ela, e sim sobre o amanhecer, a despedida dos amantes. Nesse poema é como se a despedida pudesse acontecer a qualquer hora e a noite agora pudesse ser também ter esse duplo significado: despedida e encontro.

Leda” está descatada apenas por remeter ao vocabulário medieval e pelo eu poético enxergar na despedida, na imigração algo de belo. Provavelmente a esperança ou o cumprimeito de um dever. “Vento” está destado também por remeter ao léxico das cantigas medievais, fazendo referência a ordem do sexual, da virilidade e da força do homem.

Rosa albariña” é importante por dois motivos: a rosa nas cantigas medievais eram sinônimo de um relógio. A rosa indicava o tempo de primavera, o tempo de despedida dos amantes e também o tempo que a mulher tinha para engravidar. Outro motivo para assinalar a expressão é porque essa rosa é tida como luz, claridade, opondo-se ao cenário noturno, melancólico e sombrio da noite. O próximo adjetivo reforça essa ideia de luminosidade quando denomina a amiga de “estrela crara”.

Aguillada de um bico” representa o beijo de despedida de forma áspera, dolorosa, já que aguillada é um pau com a ponta de ferro para estimular o gado. Essa analogia traz a ideia de que esse beijo é estímulo para eles se afastarem e também para mostrar que a imigração era tão intensa que os homens se tornavam gados, trabalhavam feito animais e nas condições de um.

Gamela” e “chalana” são embarcações que ajudam a reforçar esse aspecto migratório do povo galego e sua relação com o mar. “Agros” traz a paisagem campesina das cantigas de amigo com uma outra conotação. Enquanto na Idade Média o campo servia para que a mulher dialogasse com a natureza, nesse poema o campo, o lugar de trabalho, vira a “ruada”, ou seja, o lugar das reuniões, das festas, demonstrando esses dois aspectos do campo no século XX.

É justamente no final do poema que se entende a tríade quando o eu lírico se refere à amada, como “granada rosa”. Significa que ela está grávida, e o bebê que ela espera forma a tríade junto do homem e da mulher que protagonizam esse poema. Além disso, o poema sugere que quem está partindo é a mulher, representando outro aspecto da imigração, o aspecto de quando até as mulheres partem em busca de melhores condições deixando Galícia para trás.

O segundo poema é chamado “Regueifa”:

A balandra dos “Ultreya

leva os corazós por vela;

navega cara ao Futuro…

¡toda Galiza vai nela!

Toda Galiza vai nela,

prenda do meu paladar.

¡Os mares polo Infinito

que leviáns son de pasar!

Que leviáns son de pasar,

prenda do meu corazón,

os astros forman trisqueles

en cada constelazón.

En cada constelazón

oise cantar unha estrela:

“Velaivén a fror das naos,

¡toda Galiza con ela!

Novamente a imigração aparece como fundo do poema. “Balandra” é uma embarcação também e divide espaço no poema com palavras como “navega”, “mares”, “vela”, “naos” criando no leitor essa ambientação de despedida, de viagem. “Ultreya” é uma palavra de um canção francesa e acabou virando símbolo da peregrinação nos caminhos de Santiago, reforçando a Galícia como um território de passagem onde em breve haverá despedida.

A palavra “prenda” tem alguns significados e geralmente diz respeito a algo que será dado como garantia ou diz respeito a alguém que se quer muito. E podemos interpretar como a partida da terra como uma penhora do sentimento galego para se alcançar alguma coisa, e que depois do êxito, se retornará para Galícia, pois é uma terra querida pelos galegos que estão imigrando. “Trisqueles” palavra que designa um símbolo celta que significa “três pernas” e simboliza o movimento da vida.

O poema mostra como esse sentimento de se despedir da sua pátria é nacional e coletivo (¡toda Galiza con ela!”) e que essa pátria é “a fror das naos”, a despedida também faz parte da sua caracterização.


O GALEGO DE ALUÍSIO AZEVEDO

Unindo agora o morriña galega, o saudosismo português e as imigrações veremos como a literatura brasileira enxergou esse imigrante galego através do livro O Cortiço (1890) de Aluísio Azevedo.

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O Cortiço, de Aluísio de Azevedo

Por ignorância, confundia-se o estrangeiro imigrante da Europa falante do português (ou algo próximo ao idioma), seja de Portugal ou da Galícia, chamando-o de galego. E essa denominação era na maioria das vezes pejorativa. O estereótipo desse “galego” descrito por essa obra realista do século XIX é apresentado através do personagem Jerônimo.

Jerônimo é um português ou galego melancólico que vive com uma mulher igualmente imigrante e que não conseguem esquecer sua pátria. Ambos se recusam a assimilar a cultura brasileira e permanecem alimentando costumes culturais da sua origem como a gastronomia, os hábito, a educação e até mesmo a higiene.

Jerônimo é tipo como um rude e como inferior pela sua origem. Apesar disso, toda a rotina dele e da sua mulher demonstra que eles se orgulham de serem “galegos”, mas essa apreciação não é compartilhada pelos demais personagens como pode se inferir nessa fala dita por Rita Baiana retirada da obra: “Olha o bruto!… queixou -se esta, levando a mão ao lagar da pancada. Sempre há de mostrar que é galego!”

Contudo, no meio da narrativa, Jerônimo se apaixona pela personagem Rita Baiana (essa personagem tem um forte significado por conta da mestiçagem brasileira) e sofre uma metamorfose perdendo sua identidade. Ele deixa sua morriña ou seu saudosismo e adota pouco a pouco os costumes brasileiros. Ao cortar sua ligação com o seu passado, sua pátria e sua identidade, fica impossível que ele e sua mulher continuem juntos, pois mais nada os une.


CONCLUSÃO

Ao se levar em conta o momento histórico e social da Galícia pré-guerra, as imagens medievais descritas pelas cantigas parecem se aproximar bastante da nova realidade neotrobadoresca. A despedida e a morriña são elementos conservados mesmo nesse enorme lapso de tempo. Galícia parece ser a terra da despedida, a nai que tem que abrir mão dos seus filhos e estar fadada a esperar o retorno deles. E o retorno é um desejo tão grande entre os imigrantes que faz com que se acredite que a Galícia é a terra da despedida, mas a terra do retorno. Por isso as cantigas medievais “retornam”, pois os galegos querem se sentir galegos de novo, e se sentirem bem ao voltarem a sê-lo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Diário da Universidade de Vigo. A morriña, un estereotipo que xorde das desiguais relacións de poder entre Galicia e España. Disponível em: < http://duvi.uvigo.es/index.php?option=com_content&task=view&id=7830 > Acesso Novembro de 2014
LANDEIRA, Ricardo.
La saudade en el renacimiento de la literatura gallega.
ÁLVAREZ, Rosario; VILAVEDRA, Dolores. Cinguidos por unha arela común: homenaxe ó profesor Xesús Alonso Monteiro Volume 1
LAMAS, Jorge. A morriña galega, un mito nacido no XIX. Disponível em: < http://www.lavozdegalicia.es/noticia/sociedad/2013/11/13/morrina-galega-mito-nacido-xix/0003_201311G13P30992.htm > acesso Novembro de 2014
ALVAREZ, Enrique Rodríguez.
La Morriña… un sentimiento de identidad. Disponível em: < http://planetagalego.blogaliza.org/2001/06/01/30/ >
LÓPEZ,
Xesús M. Freire. História da Literatura Galega.
JORGE, Walter. ULTREYA E SUSEYA. Disponível em: < http://www.caminhodesantiago.com.br/walter/ultreya_suseya.htm > Acesso em Novembro de 2014.
AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. Porto Alegre: L&PM, 1998

A identidade e a literatura galega do século XX

                        Rodrigo Moura (Mestrando UERJ)
 

A literatura galega produzida no século XX faz inúmeras indagações no que tange ao processo de identificação dos sujeitos, sobretudo com a literatura produzida na segunda metade deste século, posto que esta reflete uma nova concepção de ser galego, um ser urbano, fragmentado e inquieto. Além disso, a crítica literária avança em seus estudos com os nomes de Dolores Vilavedra, Manuel Forcadela e Anxo Tarrío Varela.

Uma pergunta constante nesse novo século diz respeito ao caráter periférico da literatura galega. Esta condição surge quando há uma certa necessidade de se explicar a especificidade do funcionamento do texto literário galego em uma situação linguística sem normatização, ou seja : “… o idioma galego se atopa nunha situación non normalizada (tamém cualificada como minorizada) e que esta condición ten importantes repercursións no texto literário en tanto acto de fala, na súa produción e recepción (Vilavedra, 1999, p.26).

A condição periférica da literatura galega é inseparável de sua expressão linguística, sobretudo no desenvolvimento do relato breve. Esse gênero foi de extrema importância para o tipo de literatura desenvolvida em Galiza, porque conseguia produzir um texto mais sintético e acessível à população galega da época, acostumada a ler em castelhano. O relato breve surge como uma necessidade para a promoção e sobrevivência da literatura galega contemporânea.

Dever-se-ia citar alguns momentos históricos em que as instituições públicas e sociais sofrem uma imensa transformação tão profunda que as diversas práticas sociais e culturais têm de demonstrar seu impacto. Com o triunfo fascista de 1936 acrescido aos três anos de guerra civil que provocaram uma ferida histórica de graves repercurssões na literatura galega contemporânea. Muitos escritores foram presos, exilados e até mortos.

No início da década de 1950 começaram a surgir, mesmo que de forma tímida, alguns sinais de mudança no fazer literário galego. Um fator de grande importância foi a criação do Editorial Galaxia que serviu de base para a publicação de novos autores e foi responsável por uma espécie de ressurgimento literário galego.

A Nova Narrativa Galega (N.N.G), conjunto de algumas obras e autores que publicaram entre as décadas de 1950 e 1980 e também foi decisiva na reconstrução da literatura e da identidade galega, porque renovou essa literatura tanto na temática – mais urbana e cosmopolita, quanto em relação  ao gênero privilegiado- o relato breve.

Na década de 1970, inicia-se um período de confirmação do processo de modernização técnica começado pelos autores da Nova Narrativa Galega, tais como: Gonzalo Mourullo, Carlos Casares e Xosé Luís Méndez Ferrín. Nota-se, nesse período, um certo abandono do experimentalismo gratuito, logo a literatura galega atinge, de certa forma, um grau mais sólido e maduro, como nos demonstram as obras Adiós Maria,  de Xohana Torres e Retorno a tagen ata, de Xosé Luís Méndez Ferrín.

Além disso, o Prêmio Modesto R. Figueiredo atuou como uma espécie de ponte para a promoção de novos autores e valores literários, concedendo aos destaques publicações sistemáticas nas Edicións do Castro, uma importante fonte de escritores e obras dessa nova escrita em galego.

Atualmente, a literatura galega se desenvolve a passos largos, com uma inúmera quantidade de obras em galego e com o aumento do número de gêneros, como o crescimento da literatura infanto-juvenil e literaturas de cunho fantástico, por exemplo. O ato de escrever em galego continua, em certa medida, sendo um movimento político e de resistência, já que o castelhano permanece em seu lugar de prestígio e vista como única variante válida para qualquer tipo de produção: “En última instancia, a narrativa actual, incapaz xa de actuar como mecanismo xerador dunha visión do mundo estable e coherente, opta por reflectir a dispersión, a carencia de respostas e a desorientación que asexan ó home do noso tempo” (Vilavedra, 1999, p.41)

Vimos através dessas indagações que a literatura galega do século XX tem muito a nos oferecer no que tange à compreensão do sujeito e da identidade galega, já que a literatura reflete essa problemática e essas indagações.

A literatura galega, por sua vez, retrata esse “ser galego” deslocado a partir de uma literatura, em grande parte, fragmentada e periférica que lutou contra os fantasmas do franquismo e conseguiu, após muitas lutas, criação de prêmios literários e incentivos à produção, criar um ambiente propício e saudável para a criação de inúmeras obras escritas em galego.

Referência Bibliográfica
VILAVEDRA, Dolores. História da literatura galega. Editorial Galaxia: Vigo, 1999

Xosé Luís Méndez Ferrín e a reconstrução da literatura galega

Rodrigo Moura

Mestrando em Literatura Comparada na UERJ

 

Xosé Luís Méndez Ferrín, nasceu em Ourense  em 1938. Nesta cidade e em Vilanova dos Infantes passou a sua infância, nos anos da posguerra, num ambiente que influenciou todo o fazer literário do autor.

Aos onze anos mudou-se para Pontevedra e ali cursou Bacharelado e aprendeu com ele todo o ideário galeguista. Nesse mesmo tempo começou a escrever para a revista Litoral. No ano de 1955, já em Santiago de Compostela, assistiu as aulas de Otero Pedrayo na Universidade, fazendo amizade com outros grandes nomes das letras galegas.

Em 1958 mudou-se para Madri para terminar seus estudos de Filosofia e Letras, e nesta cidade, fundou junto com outros estudantes, o Grupo Brais Pinto cuja finalidade era o compromisso com o nacionalismo galego. Nos anos seguintes seguiu um curso de cultura inglesa em Oxford e viajou por vários países da Europa, entre eles França, Alemanha e Itália.

De volta à Galiza, colaborou ativamente na vida sócio-política e cultural da região e em 1964, participou em conjunto com Luís Soto e Celso Emílio Ferreiro, da fundação da Unión do pobo galego (UPG).

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Além do seu importante papel como cronista, crítico e pesquisador, a obra literária de Xosé Luís Méndez Ferrín canaliza-se frente à poesia e à narrativa, fundamentalmente. E justamente nesses dois gêneros, Ferrín projeta toda uma estética inovadora, mantendo-se distante da estética realista que vinha sendo quase a única opção dos escritores de postura marxista.

A sua obra é o resultado de uma espécie de assimilação marcadamente pessoal de influências culturais diversas, proveniente da literatura galega e das letras universais.

O seu primeiro livro de poemas, Voce na néboa (1975), já prefigura, de certa forma, a criação de mundos autônomos, com o decorrer incensante das coisas, a procura da essência do “eu”.

Con pólvoras e magnolias (1976) rompe drasticamente com o realismo cuja obra tem influência de autores mais novos. O conjunto de poemas discorre entre o rigor ideológico e beleza dos elementos pólvora – significando revolução, reveindicação- e magnólias – significando culturalismo, intimismo e formalismo.

Nos diversos poemas, Ferrín declara poeticamente a sua concepção dinâmica e fluente da vida, com uma imagem recorrente do rio, símbolo do futuro e da natureza. O passar do tempo deixa no autor um pouco de tristeza, posto que a fadiga existencial são as bases de sua poesia.

No que tange à obra narrativa de Méndez Ferrín, a intensidade e o elemento insólito (estranho) concedem ao autor um lugar de destaque dentro do cânone das letras galegas, especialmente em se tratando do gênero conto. Aos dezenove anos, Ferrín escreve Percival e outras historias (1958) obra composta por quatorze relatos que caminham em direção ao irreal, com a presença frequente do elemento ilusório e a presença de personagens e espaços com nomes exóticos, além da vivência de situações violentas, típicas da chamada Nova Narrativa Galega.

Em O crepúsculo e as formigas (1961), o autor explora os quadros mais obscuros da existência humana, com personagens movidos por forças estranhas que impõem um destino totalmente trágico.

Retorno a Tagen Ata (1971) trata-se de um relato breve com fundo alegórico, que inaugura a obra de Ferrín num espaço mítico, o país de Tagen Ata, no qual voltará a aparecer em livros posteriores. A narrativa relata o retorno de uma personagem exilada à Galiza, nesse sentido, a mesma vê um ambiente de miséria e tristeza advindas da guerra civil e da ditadura franquista, fazendo-nos repensar o que significa ser galego.
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Parte da narrativa de Méndez Ferrín aparece atravessada pela presença do espaço mítico de Tagen Ata: um mundo imaginário que, às vezes, se identifica com outros espaços e, ao mesmo tempo, se contrapõe à realidade histórica de Galiza e do que, em diferentes livros e relatos, se nos mostram fragmentos e personagens a ele pertencentes, o país de Tagen Ata.

A violência, o cárcere, a liberdade, o compromisso, a traição, o amor e a nostalgia são alguns dos motivos e paixões humanas que a narrativa de Ferrín explora, desde perspectivas inovadoras na sua concepção e tratamento: o aspecto absurdo, indefinido ou singular dos comportamentos e emoções revelam o caráter contraditório e polimórfico do ser humano, dentro de uma visão globalizadora da existência.

Ferrín representa essa vontade de inovação da narrativa galega, através da implementação de novos traços estilísticos na prosa: harmonia e intensidade dos relatos. Desta forma, a obra de Xosé Luís Méndez Ferrín eleva-se como uma obra aberta que precisa do concurso do leitor para se compreender o seu sentido, por mais que este parece escapar sempre de uma significação imediata e firme.