Arquivo da tag: franquismo

A memória franquista na literatura galega (A partir dos contributos de Xosé Luís Méndez Ferrín)

Gil Gonçalves

Aluno de Língua e Literatura Galega na Universidade Nova de Lisboa

Os anos da guerra civil espanhola e, sobretudo, aqueles que se sucederam à vitória franquista no conflito foram particularmente danosos para a língua galega, que se vinha desenvolvendo paulatinamente no plano literário desde a segunda metade do século XIX, depois de uns “Séculos Escuros” a que agora se queria novamente remetida, nessa nova conjuntura pouco dada às liberdades intelectuais. O desejo do “generalíssimo” de criar um estado forte e, por isso, centralizado, só se realizaria com o saneamento do maior número possível de especificidades “regionais”. A língua, nos mais variados contextos, sempre fora uma das armas fundamentais nas lutas nacionalistas, tendo o caso galego ainda a particularidade da associação de alguns dos vultos mais proeminentes do seu movimento literário a grupos não só galeguistas mas também adeptos de ideologias de esquerda mais “radical” e anti-sistémica, nomeadamente influenciada por correntes marxistas ou mesmo anarquistas.

            Tinha, pois, de se pôr em funcionamento um mecanismo de repressão linguística. Tinha de se impor o castelhano em todos os recantos dessa Grande Espanha idealizada como uma unidade política e cultural sem mácula. Um dos mais descaradamente claros registos dessa campanha chega-nos através de um folheto, datado de 1942 e impresso na Corunha, intitulado (de forma bastante elucidativa quanto aos seus propósitos) “Hable Bien” e que diria o seguinte àqueles que residiam em comunidades com línguas que não a oficial espanhola:

Sea patriota – no sea bárbaro. Es cumplido caballero que Vd. hable nuestro idioma oficial o sea el castellano. Es ser patriota. VIVA ESPAÑA Y LA DISCIPLINA Y NUESTRO IDIOMA CERVANTINO. ARRIBA ESPAÑA!! (in Freitas Juvino, 2008).

Seriam estas políticas de exaltação e defesa de um nacionalismo espanhol a ditar a dura repressão que se abateu sobre os grupos que vinham defendendo a língua galega e o galeguismo. Os homens mais activos das Irmandades da Fala (por alturas da guerra já enquadrados quase na sua totalidade no Partido Galeguista) passariam à clandestinidade e muitos dos seus elementos, juntamente com todos os simpatizantes da causa que fossem vistos como particularmente refractários, teriam de sofrer o drama do exílio. Ainda que se tenham constituído fortes e dinâmicos grupos que continuariam a defesa da fala nessa condição de proscritos, sobretudo nas Américas e em particular nessa quinta província galega que era Bos Aires (onde Castelao terminará de escrever um dos textos base do nacionalismo galego, Sempre en Galiza[1]), dificilmente se poderiam mitigar os danos irreparáveis de uma censura agressiva, durante longos anos, na pátria que foram obrigados a abandonar. A presença única e obrigatória do castelhano nos documentos oficiais conduziria ao progressivo abandono do galego – que desde logo não podia ser ensinado nas escolas –, sobretudo em meio urbano. Se a Galiza era um universo maioritariamente rural, será também nesse período que as cidades se começam a tornar grandes polos de atracção. Instala-se um bilinguismo diglóssico em que há um idioma que, por oficial, prevalece sobre esse outro, “bárbaro”, que deveria ser remetido, quanto muito, a um uso doméstico. Se outras línguas (como o basco e o catalão) viram a sua utilização mais terminantemente proibida, no caso do galego foi esse estigma de inferioridade que exerceu uma pressão psicológica suficiente sobre as populações para que estas a fossem progressivamente deixando cair em desuso. A aparente permissividade estatal é colmatada com a classificação do idioma, de forma iminentemente paternalista, através de epítetos como “rural, lírica ou inofensiva” (Bermúdez Montes, 2010, p. 107).

            A primeira inflexão e reacção a esse punitivo controlo estatal virá na década de 1950 com a emergência de uma nova geração de autores e com a fundação de uma editora dedicada em exclusivo à publicação de obras em galego, a Galaxia, fundamental para o despertar de um idioma silenciado. É então nesse quadro, já mais favorável, que Xosé Luís Méndez Ferrín publica os seus primeiros textos, enquadrando-se no espírito da Nova narrativa galega (ao mesmo tempo que ia também explorando o campo da poética), importadora de ideias e modelos de autores como Kafka ou Joyce e do nouveau roman francês, mas nunca perdendo de vista a tradição literária e política galega que incorporará de forma exímia nos seus trabalhos.

            Assumir a defesa de uma língua é, em si, um acto político. No caso galego, somar-se-á a isso muitas vezes a directa oposição ao franquismo, estando as duas lutas, obviamente, interligadas. O percurso de Méndez Ferrín será um dos mais evidentes a esse respeito. A sua participação em grupos de intelectuais como o Brais Pinto (influenciado pela cultura beat e assumindo-se como nacionalista de esquerda) e o seu papel na fundação da UPG (Unión do Povo Galego) em 1964 servem bem para ilustrar essa simbiose entre o campo literário/artístico e o da militância política. Fatalmente, teria de haver uma promiscuidade entre eles, assumindo muita da sua obra um forte cunho social e reivindicativo, sendo que muitos dos panos de fundo das suas narrativas têm na violência e na repressão do regime evocações frequentes. Esta atitude, e apesar desses tempos de maior tolerância, não passaria ao lado daqueles a quem não interessava nem uma nova pujança da língua galega nem muito menos a sua politização em sentido contrário à ordem estabelecida. A censura e a autocensura (consciente ou não) continuariam a ser condicionantes da liberdade criativa destes escritores, não escapando Méndez Ferrín a estas lógicas, que não vê ainda completamente ultrapassadas. Recorrer a formas de linguagem quase encriptada e ao universo do fantástico (cenários e personagens irreconhecíveis) eram alguns dos esquemas muitas vezes adoptados para se escapar às malhas censórias. Afirmaria a dada altura que:

Nunca teño conciencia de que me autocensurase ou de que sexa agora máis libre de escribir que naquel momento. En absoluto. E naquel momento inconscientemente había que ter algunha estratexia elíptica (in Bermúdez Montes, 2010, p. 105).

            Mas essa estratégia elíptica nem sempre foi utilizada e, quando assim era, as consequências iam para lá da simples apreensão da obra. Quando foi encontrado o manuscrito do seu romance O Corvo, a Figueira e a Fouce de Ouro – já em 1969 – seria preso durante dois anos e multado em 25.000 pesetas, sendo que o que estava nessa altura em causa era uma dedicatória feita a vários guerrilheiros antifranquistas. Claramente não houve aqui nenhuma espécie de preocupação com eventuais repercussões mas antes uma acção deliberada em busca de preservar uma memória que se queria reprimida. Será essa, pois, uma das demandas que mais marcam a obra de Méndez Ferrín, sempre em contra-corrente mesmo já nos anos posteriores à transição democrática onde as representações memorialísticas quer da guerra-civil quer do franquismo continuam a ser um muito problemático tabu. Para além dos aspectos directamente políticos, as medidas censórias atacariam também aquilo que entendiam ser ofensas à moral ou atentados ao bom gosto, optando-se pela omissão de certos termos coloquiais e todo o calão. As publicações em revistas clandestinas eram um outro mecanismo de divulgação das suas obras, acontecendo isto sobretudo na sua poesia, também não raras vezes politicamente conotada. Através do seu pseudónimo Heriberto Bens publicaria, por exemplo, um poema acerca dos vários episódios de fuga da Galiza pelo mar em 1936, que não raras vezes terminavam da pior forma. Sai em 1967 na revista Si la píldora supiera no la doraran por defuera (Méndez Ferrín e Angueira, 1999, p. 111).

            O enquadramento de Méndez Ferrín na literatura comprometida ligada ao movimento social-realista, fundador em certa medida de um renovado nacionalismo de esquerda, não seria feito sem um profundo processo de crítica a essa corrente, que inicialmente ajudou a desenvolver, acabando mesmo por superá-la a dada altura. A questionável qualidade de alguns desses textos, para além de não contribuir para a eficácia das denúncias que neles eram feitas, dada a sua perda de sentido, revelava, no seu entender, um profundo desconhecimento, desinteresse e desrespeito pela cultura galega, fruto talvez de uma influência excessiva do que era o social-realismo praticado em Espanha. O carácter subsidiário de muitas dessas obras em relação aos interesses e objectivos do PCE era igualmente apontado como um dos factores responsáveis pelo decréscimo do seu valor quer literário quer ideológico.

            Esse afastamento do fenómeno do social-realismo nunca se materializaria num abandono do carácter social dos seus textos. Já nos anos pós-transição democrática e da normalização linguística, publicaria contos como o “Episodio de Caza” (Crónica de Nós, 1980) em que descreve detalhadamente – remetendo para uma série de individualidades e espaços reais – aquilo que seria o planeamento de um assassinato por motivos políticos de um “fascista” conduzido por uma guerrilha galeguista que não só sai gorado como se revela um simples delírio, um sonho de um intelectual enfiado numa biblioteca que não era capaz de sair da sua redoma de passividade não fossem breves momentos de fuga imaginados no interior da mesma. Quase um pedido para que houvesse um despertar real para a causa independentista e para que se abandonasse uma retórica vazia, desprovida de uma componente prática, assumindo-se uma posição mais proactiva. Já no início dos anos 1990, obras como Arraianos voltariam a pintar esse doloroso retrato de uma repressão de décadas.

            Ainda que actualmente a questão da censura, pelo menos na sua forma mais directa, já não se coloque, as liberdades concedidas ao emprego da língua galega permanecem reduzidas por comparação a um castelhano que continua a ser francamente privilegiado. Os efeitos da opressão linguística franquista e a diglossia que a partir dela foi gerada prevalecem apesar de alguns esforços em sentido contrário. Será essa uma das heranças da ditadura que só poderá ser eficazmente combatida quando houver a capacidade para explorar e denunciar devidamente esse passado tão incómodo. Méndez Ferrín foi um daqueles que sempre o fez e que, nesse aspecto, poderia com propriedade liderar pelo exemplo.

Bibliografia:

BERMÚDEZ MONTES, Maria Teresa, “As poutas da censura franquista sobre a literatura galega. O caso da “nova narrativa”” in Revista de Investigación en Educación, Vigo, nº7, 2010.

FREITAS JUVINO, Maria Pilar, A represión lingüistica en Galiza no século XX, Vigo, Edicións Xerais de Galicia, 2008.

MÉNDEZ FERRÍN, Xosé Luís e ANGUEIRA, Anxo, Poesía enteira de Heriberto Bens, Vigo, Edicións Xerais de Galicia, 1999.

 [1] Foi também a obra definidora do percurso literário e político de Xosé Luís Méndez Ferrín (vide Méndez Ferrín e Angueira, 1999, p. 13).

 

A mulher no teatro galego do pós-franquismo: análise a partir de “Antígona, a forza do sangue” de María Xosé Queizán

Maria Fernanda Castro Silva

Aluna de Literatura Galega I na UERJ

I. INTRODUÇÃO: O IMPACTO DO FRANQUISMO NO TEATRO GALEGO

Em 1939, o general espanhol Francisco Franco, representante das forças fascistas que combateram na Guerra Civil espanhola (1936-39) contra os republicanos, toma o poder estatal e implanta uma ditadura que duraria os próximos 40 anos. Durante esse período, conhecido como Franquismo, o povo espanhol presenciou o exílio e o assassinato de muitos estudiosos, escritores e artistas cujas produções eram potencialmente perigosas ao regime ditatorial.

Assim, como é de se imaginar, houve uma inevitável redução da produção literária realizada dentro da Espanha, afinal muitos exilados, ainda que continuassem escrevendo, já não estavam em sua terra natal. Nesse contexto, a situação na Galícia era ainda mais crítica: em função dos esforços centralistas em promover o castelhano como língua nacional e única, as publicações em língua galega dificilmente eram autorizadas, o que causou o esmorecimento da literatura galega por alguns anos, especialmente na década de 40.

A literatura dramática em galego, então, surgiu, entre outros, “co obxectivo de demostrar a validez da lingua para o rexistro culto e literario e así neutralizar as acusacións de rudeza e incultura procedentes do discurso centralista español, política e culturalmente dominante” (VIDAL, 2009, p. 162), foi intensamente reprimida. Isso aconteceu não só devido a seu potencial crítico, mas também – e principalmente – porque, naquele período, a própria língua galega e a coragem de registrá-la simbolizavam a resistência à opressão franquista direcionada às minorias, no caso, linguísticas.

No caso específico do gênero teatral, que sempre havia tido uma presença pouco significativa no espaço público galego, a chegada da ditadura franquista acarretou praticamente sua total supressão da vida pública (VIDAL, 2009, p. 149). Tal situação só começou a ser revertida perto dos anos 50, com a publicação de obras teatrais e poéticas que tematizavam, fundamentalmente, o âmbito rural. Ainda assim, “durante os primeiros trinta anos da ditadura franquista non se pode falar, sen inxenuidade, de actividade teatral en Galicia (VIDAL, 2009, p. 150). Ou seja,

Se a escrita de textos dramáticos neste periodo resulta pouco relevante en termos cuantitativos, polo que se refire á actividade escénica levada a cabo en Galicia durante a ditadura as referencias aínda son máis escasas e redúcense fundamentalmente ao chamado teatro de cámara, […] unha forma de representación e de dramaturxia que limita los medios de expresión escénicos, el número de actores y espectadores, la amplitud de los temas tratado. Este tipo de teatro, en xeral, xurdiu coma unha reacción elitista contra o grandioso aparato do teatro burgués (VIDAL, 2009, p. 152).

II. REDEMOCRATIZAÇÃO E REFLORESCIMENTO LITERÁRIO NA GALÍCIA

Já em 1950, foi fundada a Editoral Galaxia, a responsável pela normalização literária em galego que, “con case 2.000 volumes editados e un catálogo vivo de arredor de un milleiro de títulos, constitúe hoxe a referencia histórica da edición en lingua galega” (GALAXIA, 2006). Entretanto, foi só a partir de 1981, quando da aprovação do Estatuto de Autonomia da Galícia, cinco anos após a morte de Franco, que a literatura em língua galega pôde de fato se reorganizar e se desenvolver, agora livre dos antigos empecilhos legais declarados.

Nesse momento, paralelamente aos esforços por parte dos escritores galegos no sentido de consolidar a legitimação de sua língua e de criar uma literatura emancipada em língua galega, persistia a participação minoritária das mulheres no âmbito produtivo e intelectual. No próprio site da editora Galaxia (2006), são mencionados apenas nomes de homens quando se faz referência aos “autores e autoras máis significativos das letras galegas” e, em se tratando dos “autores clásicos e autores modernos, pertencentes ás sucesivas xeracións que se incorporaron ao cultivo do idioma durante estas décadas”, são mencionados apenas 9 nomes femininos sobre um total de 40.

Dessa maneira, as mulheres, historicamente relegadas à vida privada, permaneciam subrepresentadas; era mantida a forma de divisão do trabalho social com base nas relações sociais de sexo, caracterizada pela destinação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva (KERGOAT, 2009). A década de 80, contudo, foi também o período de fortalecimento das lutas pela liberdade sexual e pela igualdade de direitos que já vinham ganhando corpo desde os anos 60. Essa crescente conscientização, portanto, não poderia deixar de se manifestar na literatura.

Com efeito, é no final dos anos 80 que María Xosé Queizán publica a peça de teatro Antígona, a forza do sangue, obra protagonizada por Elvira, uma “Antígona galega”, personagem que carrega em si, conjugadas, as lutas pela emancipação territorial, pela emancipação linguística e, sobretudo, a luta pela emancipação feminina. Aliás,

Na dramaturxia de Mª Xosé Queizán a condición feminina sempre é un tema central. As cuestións de xénero e a denuncia dunha desigualdade inxusta paira por grande parte da súa obra. A propia autora tenme manifestado a súa vontade de facer un teatro moral e ideolóxico sen complexos. E esa misión faise explícita en Antígona ou a forza do sangue (BECERREÁ, 2012, p. 2).

Queizán, nascida em 1939, portanto em um período de escassez produtiva no campo da literatura e de intensa desvalorização do galego, dedica, ainda hoje, seus estudos à investigação sobre a situação feminina, não só na Galícia, mas lá também. Além de trabalhar como tradutora e escritora de ensaios, romances, contos, poesias e peças de teatro, Queizán foi codiretora do grupo teatral Feministas Independentes Galegas (FIGA), diretora da Galeria de Arte Roizara de Vigo, vicepresidenta do Conselho Municipal da Mulher de Vigo e diretora e organizadora do I Encontro de Mulheres Poetas Peninsulares e das Ilhas. Criou a revista Festa da palabra silenciada, feita só por mulheres, que coordena e dirige desde 1983. Publicada em 1989, a obra de que trataremos a seguir – Antígona, a forza do sangue – lhe rendeu reconhecimentos, dentre eles ser finalista do Prêmio Álvaro Cunqueiro.

Além disso, Queizán mantém uma página na internet na qual publica eventualmente textos que procuram promover uma reflexão acerca da condição social das mulheres na história. O último deles, publicado em fevereiro deste ano e intitulado Son, somos proxenetas, é introduzido com as seguintes afirmações/constatações: “As mulleres estamos no mercado, sempre estivemos no mercado. Existe o mercado público, coñecido co nome de prostitución, e o mercado privado, ao que se lle chama matrimonio, familia, fogar” (QUEIZÁN, 2015).

III. ELVIRA: A ANTÍGONA GALEGA

Ao escrever Antígona, a forza do sangue (1989), que consiste em uma releitura do mito grego publicado pela primeira vez em formato de peça de teatro por Sófocles há quase 25 séculos, María Xosé Queizán segue tratando de temas recorrentes em suas produções, como a colonização sexual das mulheres, e questionando a ideia da maternidade biológica, ou seja, de que a mulher nasce para ser mãe e de que essa é sua única função natural, além de proporcionar reflexões sobre a escrita não androcêntrica, isto é, não centrada em figuras masculinas.

Na peça em questão, a autora recorre à personagem mitológica Antígona, reencarnada em muitas obras ao longo da história e caracterizada sempre, antes de tudo, como um símbolo de insubmissão à lei, o primeiro personagem a dizer não, uma rebelde (SICOT, 2011, p. 818). E, “coa escolla desta figura mítica e a súa historia para a estructura básica da peza, a autora fai unha versión moi persoal do mito” (MAÑAS, 2007, p. 273), afinal, em uma Galícia que conquista sua autonomia, não poderia deixar de haver uma Antígona “autônoma”, mulher marginalizada porque, além de ser mulher, é falante de uma língua minorizada como o galego (SICOT, 2011, p. 820).

De fato, a figura de Antígona é perpassada pela noção da resistência ao arbitrário do Estado, e daí a “explosão de Antígonas” durante os revolucionários anos 60/70 (DUROUX; URDICIEN apud PUPB, 2009, p. 453). Nesse sentido,

la obra de María Xosé Queizán adquiere una significación que trasciende con mucho la de una voz individual talentosa. Se convierte en paradigma de la lucha por superar una doble ‘minorización’: la del mundo literario gallego y la de las mujeres gallegas dentro y fuera de ese mundo (REIZS, 1995, p. 208).

Elvira é a heroína da Galícia da Idade Média que defende a si mesma ao defender sua nação e seu povo, falando a mesma língua que ele – o galego. Ela é “o modelo feminino que María Xosé Queizán interpreta como metáfora da muller galega: consciente da súa dobre identidade nacional e feminina” (MAÑAS, 2007, p. 273). Assim como a Antígona do mito grego, Elvira é o fermento para a subversão dos poderes tirânicos e para a configuração de uma nova ordem moral e sociopolítica (RAMOND apud PUPB, 2009, p. 454).

Queizán procede, assim, a uma “galeguização” da história original, enaltecendo a independência e a sabedoria das mulheres e questionando os poderes estabelecidos. E, no fim, a “justiça poética” se superpõe às leis patriarcais (GARCÍA NEGRO, 2012, p. 235): Elvira vence sua dupla luta – nacional e de gênero – ao se suicidar,

xa que no final o seu suicidio supón unha decisión propia e unha actuación consecuente co seu pensamento e cos seus actos. Nin sequera na morte é vencida porque é ela mesma quen a leva a cabo, é ela quen decide como quere permanecer na historia (a liberdade de pensar fronte á maternidade obrigatoria) e non os seus inimigos, a súa morte converte a súa figura en heroína e á súa historia en traxedia (MAÑAS, 2007, p. 279).

A luta da protagonista, que assume um aspecto de confronto constante aos personagens masculinos dotados de poder, é de caráter ativo. Ela é muito consciente da diferença de tratamento entre homens e mulheres e denuncia essa distribuição desigual de papéis, opondo-se a ela de maneira clara, direta e até mesmo agressiva. Ademais, Elvira é uma mulher forte, segura de suas decisões, o que fica evidente em sua fala: “Non obedecerei máis ordes que as da miña conciencia, e esta obrígame a honrar ao meu querido irmán.” (Queizán, 1989, p. 40). E é essa consciência que a impele a entrar na luta ativa e, consequentemente, na esfera pública, âmbito tradicionalmente masculino, ao mesmo tempo em que recusa a esfera privada ao renunciar ao casamento com o Rei e a gerar filhos do monarca (MAÑAS, 2007, pp. 278-279).

Outro traço marcante da autonomia de Elvira é sua negação da passividade, comportamento pelo qual ela é acusada de não amar “como uma mulher”. Realmente, ela não se resigna ao papel submisso que corresponderia ao seu gênero, porque “é activa no amor, decide con quen quere estar, a quen quere amar e con quen compartir a súa vida” (MAÑAS, 2007, p. 278).

Elvira é uma mulher de iniciativa própria, atributo essencial para dirigir a resistência feminista e nacionalista. Em outros termos,

A conciencia nacionalista da particular Antígona de María Xosé Queizán é unha característica fundamental deste novo modelo feminino, mostra nela a unha muller consciente da súa identidade nacional, implicada no conflicto que vive a súa terra e que decide consecuentemente actuar para cambialo. É a súa condición feminina a que fai dela un personaxe excepcional nunha labor combativa que en tantas figuras literarias masculinas parécenos a propia. Ela ten moi clara tamén esta condición, Elvira é consciente da súa identidade feminina e da transgresión que supón a súa actuación, pero acéptaa e defende outra maneira de ser muller, o que interpretamos como metáfora da muller galega (MAÑAS, 2007, p. 277).

IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em linhas gerais, independentemente da forma como se conceba a literatura, a obra literária aqui trabalhada pode ser compreendida como a resposta indignada à situação de opressão que persiste sobre as mulheres, em particular sobre as mulheres galegas; ou como o reflexo de uma nova realidade, de uma nova ordem social que está sendo construída e na qual as mulheres investem em sua autonomia; ou como uma pergunta, um questionamento sobre a posição social da mulher e sobre a naturalização dos papéis a ela atribuídos. Mas a releitura galega de Antígona representa, acima de tudo, um anseio.

Um anseio porque, apesar da democratização e do processo de abertura política pelos quais passou a Espanha nos anos 70/80, que culminaram na conquista de direitos e de liberdades fundamentais, a violência de gênero subsiste e é reconhecida pelo Estado, que, a fim de “pensar medidas integradas para previr e eliminar a violencia contra as mulleres”, se propõe “estudar as causas e as consecuencias da violencia contra as mulleres e a eficacia das medidas de prevención” (XUNTA DE GALICIA, 2001, p. 11). Tais ações ainda são necessárias porque, infelizmente,

Apesar das profundas transformacións sociais que se produciron nas últimas décadas, coa incorporación das mulleres a tódolos ámbitos da vida social, e os indubidables progresos xurídicos e formais inherentes a esta, o feito certo é que non se pode falar, aínda, da existencia dunha igualdade real entre homes e mulleres (XUNTA DE GALICIA, 2001, p. 8).

Nessa conjuntura de democracia seletiva ou parcial, a escrita de uma obra como Antígona, a forza do sangue por María Queizán, uma mulher que viveu a maior parte de sua vida sob um regime fascista, nos faz pensar nas outras possibilidades, sugere o que poderia ter sido. A trama da peça toma lugar na Galícia do século XI, tempo decisivo na existência do Reino de Galícia. Antígona é Elvira, representação da nobreza galega “no sumisa al poder extranjero y de la mujer digna que no admite sujeción de ningún elemento dominante masculino, sea el tirano, sea su hijo, con quien rechaza firmemente ser casada” (GARCÍA NEGRO, 2012, p. 230).

Queizán, portanto, por meio da personagem Elvira, cujo referencial é o ser humano, mais estritamente a mulher galega, desenvolve os temas a partir do mundo que a cerca. E, assim, Elvira encarna o feminino em busca de emancipação e se constitui numa representação contrária à representação clássica da mulher incapaz e submissa, num contraponto ao cânone literário, marcado, por sua vez, pela exclusão das mulheres enquanto sujeito do discurso e pela adulteração na representação da experiência e história femininas.

Dado, portanto, que a linguagem é determinante na construção das representações e que uma menina não pode se tornar o que não vê, pode-se dizer que María Xosé, em Antígona, a forza do sangue, elaborou o conjunto de enunciados pronunciados pela protagonista baseada em seu pensamento como mulher e pesquisadora e na própria realidade que cerca sua vida a fim de construir uma referência para o público feminino. Isso porque

As palavras dos personagens, possuindo no romance, de uma forma ou de outra, autonomia semântico-verbal, perspectiva própria, sendo palavras de outrem numa linguagem de outrem, também podem refratar as intenções do autor e, conseqüentemente, podem ser, em certa medida, a segunda linguagem do autor (BAKHTIN, 1990, p. 119).

Desse modo, por meio da linguagem literária, a autora revela a busca da mulher galega pela igualdade de gêneros num contexto permeado também pela busca da emancipação linguística e territorial. Elvira é uma amálgama de minorias que se entrecruzam e, consciente de sua situação, sabe que sua luta deve articular diferentes formas de resistências às diferentes formas de opressão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e Estética: A teoria do Romance. São Paulo: Hucitec, 1990.

BECERREÁ, Afonso Becerra de. Ritos de sangue: unha transfusión anovadora na dramaturxia de Mª Xosé Queizán. Revista Galega de Teatro. Nº 72. Setembro de 2012. Disponível em: <http://www.revistagalegateatro.com/wp-content/uploads/2013/03/ritos-de-sangue.pdf&gt;

EDITORIAL GALAXIA. As orixes. 2006. Disponível em: <http://www.editorialgalaxia.es/editorial/historia.php&gt;

EL CORREO GALEGO. Mª Xosé Queizán ou o feminismo. 2008. Coluna O PERSONAXE. Disponível em: <http://www.elcorreogallego.es/lo-mas/lo-mas-visto/ecg/m-xose-queizan-ou-feminismo/idEdicion-2008-11-09/idNoticia-362239/&gt;

GARCÍA NEGRO, Pilar. Refacción de mitos clásicos en el teatro gallego contemporáneo. In: Aurora López, Andrés Pociña e María de Fátima Silva (coords.): De ayer a hoy: influencias clásicas en la literatura, Coimbra (Portugal), Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, 2012, pp. 227-236 [ISBN Dixital 978-989-721-038-9].

KERGOAT, Danièle; Divisão Sexual do trabalho e relações sociais de sexo. In: HIRATA, Helena; LABOIRE, Françoise; DOIRÉ, Héléne Le; SENOTIER, Danièle. Dicionário crítico do feminismo. 1ed. São Paulo, SP: UNESP, 2009.

MAÑAS, Emma. Antígona, metáfora da muller galega. Actas do VII Congreso Internacional de Estudos Galegos. Mulleres en Galicia. Galicia e os outros pobos da Península. Barcelona 28 ó 31 de maio de 2003. Ed. de Helena González e M. Xesús Lama. Sada: Ediciós do Castro / Asociación Internacional de Estudos Galegos (AIEG) / Filoloxía Galega (Universitat de Barcelona), 2007. ISBN: 978-84-8485-266-7. Depósito Legal: C-27912007.

PUBP. Les Antigones contemporaines (de 1945 à nos jours): Resumes. 2009. Maison des Sciences de l’Homme de Clermont-Ferrand. ISBN – 978-2-84516-407-9. Disponível em: <http://www.msh-clermont.fr/IMG/pdf/Antigones-Resumes.pdf&gt;

QUEIZÁN, María Xosé. Son, somos proxenetas. Fevereiro de 2015. Disponível em: <https://mariaxosequeizan2.wordpress.com/2015/02/01/son-somos-proxenetas/&gt;

REISZ, Susana. ‘Daquelas que cantan …’: voces de mujer en la poesía gallega contemporánea. 1995. Lehman College y Gradúate Center, CUNY. Centro Virtual Cervantes. AIH. Actas XII. Disponível em: <http://cvc.cervantes.es/literatura/aih/pdf/12/aih_12_5_031.pdf&gt;

SICOT, Bernard. Les Antigones contemporaines (de 1945 à nos jours). Bulletin hispanique [En ligne], 113-2. 2011. pp. 816-821.Disponível em: <http://bulletinhispanique.revues.org/1480&gt;

VIDAL, David García. Teatro galego e construción nacional: os Cadernos da Escola Dramática Galega (1978-1994). Julho de 2009. A thesis submitted to The University of Birmingham for the degree of Doctor of Philosophy. Department of Hispanic Studies. College of Arts and Law. The University of Birmingham. Disponível em: <http://etheses.bham.ac.uk/972/2/GarciaVidal_10_PhD.pdf&gt;

XUNTA DE GALÍCIA. A violencia de xénero en Galicia: Plan de acción 2002-2005. Publicado em 2001. Disponível em: <http://igualdade.xunta.es/sites/default/files/files/documentos/planviolx.pdf&gt;

A Galícia na ditadura franquista: repressão e resistência cultural

Na próxima segunda-feira dia 30 de março vai ter lugar no Instituto de Letras da UERJ o evento A Galícia na ditadura franquista: repressão e resistência cultural. Uma aproximação histórica, linguística e literária. 

Lugar: Miniauditório da Pos-graduação do Instituto de Letras da UERJ

Horário: 09:30 horas

A palestra vai ser ministrada polos pesquisadores galegos Malores Villanueva e Afonso V. Monxardin.

Cartaz conferencias 30 marzo

Malores Villanueva Gesteira (A Xesteira-Cotobade, 1982) licenciouse pola Universidade de Santiago de Compostela (USC) en Filoloxía Galega, obtendo o Premio Nacional Fin de Carreira, e en Filoloxía Románica, licenciatura pola que recibiu o Premio Fin de Carreira da Comunidade Autónoma de Galicia. Na actualidade prepara a súa tese de doutoramento sobre a primeira etapa da editorial Galaxia. Entre as súas publicacións recentes destacan os libros Lingua en sociedade, a aldea da Xesteira (Deputación de Pontevedra/ Consello da Cultura Galega, 2006) e A lingua galega entre 1963 e 1975. Situación social e discursos dende o galeguismo (Deputación de Pontevedra, 2010), polos que recibiu, respectivamente, o Premio Antón Fraguas de Investigación e o Premio novos investigadores: Humanidades e ciencias sociais. Editou un conto inédito de Xosé Luís Méndez Ferrín publicado en Grial baixo o título “Percival e unha historia máis: a de Tristán”, que posteriormente traduciu ó castelán. Entre 2006 e 2011 foi secretaría dos Cursos de lingua e cultura galegas para estranxeiros e españois de fóra de Galicia e impartiu docencia na licenciatura e grao de Filoloxía Galega (USC) entre 2009 e 2011. Ademais, foi profesora-lectora da Universidade de Barcelona entre os anos 2011 e 2014.

Afonso Vázquez Monxardín  (Ourense, 1960) é licenciado en Xeografía e Historia, nas especialidades de Prehistoria e Arqueoloxía, Xeografía e Historia de Galicia e Arquivística e Biblioteconomía. Foi o arqueólogo de numerosas escavacións en Galicia, Portugal e Italia e en 1983 pasou á docencia de lingua e literatura galega. É catedrático de ensino medio desde 1996. Foi profesor visitante da súa materia en centros galegos e universidades de América (Centro Galego, Centro Galicia e Universidade de Belgrano, en Bos Aires; Universidade Federal da Bahía, en Brasil; e Lar Gallego en Santiago de Chile). Foi o impulsor do proxecto Arquivo Sonoro de Galicia no seo do Consello da Cultura Galega e estivo durante trece anos no equipo directivo do IES As Lagoas de Ourense. Foi colaborador de O Correo Galego, Galicia Hoxe e na actualidade escribe en La Región. Entre as súas publicacións destacan Xaquin Lorenzo Fernández “Xocas”. A fidelidade á Galicia soñada, (2004), Xoaquín Lorenzo (1907-1989). Unha fotobiografía (coord.) (2004), Danse lido (2014) e a recentemente publicada Ramón Otero Pedrayo, Unha fotobiografía .