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A Poesia Social de Manuel Curros Enríquez. Uma breve análise social e literária

Flávia Marçal Pires

Aluna de Literatura Galega I na UERJ

1. Introdução

Manuel Curros Enríquez, nascido em 15 de setembro de 1851 em Celanova, Ourense, morreu em 1908 na Havana. Foi consagrado (juntamente com Rosalía de Castro e Eduardo Pontal) como um dos grandes referenciais do chamado “Rexurdimento” da Literatura Galega na segunda metade do século XIX.

Curros ajudou o pai como escrevente, estudou Direito e trabalhou como jornalista durante boa parte de sua vida. A obra que o consagrou como poeta civil foi “Aires da miña terra”, na qual o autor faz denúncias sociais em prol dos menos favorecidos e exalta a cultura galega.

Um dos textos deste livro levou Curros a ser condenado por supostamente conter blasfêmias e heresias. Curros sofreu um processo por ter agido contra o livre exercício dos cultos e crenças, foi condenado em Ourense, mas absolvido na Corunha. O fato é que em razão disso foi obrigado a viver alguns anos longe de sua terra.

Podemos vislumbrar em sua obra três tipos de poesia:

i) Costumbrista – são composições mais populares e próximas do povo;

ii) Intimista – apesar de não ser o tipo de poesia mais presente em seu conjunto de obras, não podemos deixar de destacar textos mais introspectivos e sentimentais. Em geral, possuíam temática familiar, como por exemplo N’a morte de miña nai:

Doce malenconía, miña Musa

D’o meu esprito noiva feiticeira,

Déixame qu’oxe n’o teu cólo dorma

Sono de pedra!” 

iii) Poesia Cívica – pode ser dividida em duas partes: a) poesia que reflete as ideologias de Curros, onde ele trata abertamente dos seus ideais de liberdade e progresso; b) poesia agrária, em que o poeta trata das injustiças cometidas contra os camponeses.

Como a proposta deste trabalho é uma breve análise da obra de Curros focando na marginalização social e cultural do povo galego, vamos nos ater principalmente à Poesia Civil ou Social.

2. Pensamento Político

Um aspecto controvertido da vida de Curros diz respeito a sua ideologia e pensamento político. A princípio, dizia-se que Curros era um republicano. Passou então a republicano federalista. Mas, como ocorre a todo ser humano, é possível detectar no pensamento de Curros diferentes evoluções ao longo da sua vida.

Uma delas ganhou certa repercussão. Inserido em seu contexto político-social, Curros posicionou-se contra um pacto político republicano, o Pacto Sinalagmático de Pi i Margall. Ele considerou que o pacto levaria inevitavelmente à Anarquia e ao separatismo, o que o leva a questionar seu republicanismo federal.

Algum tempo depois, passou a ser militante de um partido regionalista de base tradicional. Não há dúvidas sobre possíveis interpretações dessa época de sua vida: ele mesmo se declarou expressamente a favor desse partido e em sua obra passou a demonstrar um forte amor à sua terra natal, entrando na fase do regionalismo galego.

Podemos identificar portanto no seu pensamento político três fases distintas: a) Republicanismo; b) Republicanismo federalista e c) Galeguismo.

Suas obras continuam sendo de extremo valor para a Cultura Galega e serviram de base para a valorização desse povo. Há que se entender apenas que o autor estava inserido e atuante em seu contexto político social, mutável e adaptável.

3. Rexurdimento

Até a segunda metade do século XIX a Galícia sofreu um processo de marginalização. Durante os Séculos Escuros quase não houve obras produzidas em galego. A imposição do castelhano era muito forte. Para a língua galega este foi um período de decadência.

O galego era visto como um dialeto, não era utilizado nos documentos oficiais. Castela impunha a imagem de que o galego era apenas ligado à tradição oral de um povo isolado e por isso não deveria receber qualquer prestígio.

Além da Língua Galega, os próprios galegos sofriam preconceitos. A Galícia era vista como um local rural e atrasado, ignorante e pobre. Isso fez com que milhares de galegos deixassem a Galícia em busca de melhores condições de vida. É o que narra este poema de Rosalía de Castro, do qual extraímos alguns trechos:

Castellanos de Castilla,

Tratade ben ós galegos;

Cando van, van como rosas;

Cando vén, vén como negros.

(…)

Aló van, malpocadiños,

Todos de esperanzas cheios,

E volven, ai!, sin ventura,

Com um caudal de despresos”

(Cantares Galegos, Rosalía de Castro)

Neste texto a autora demonstra nitidamente o processo de migração dos camponeses galegos que saíam de sua terra e eram massacrados e marginalizados na emigração em Castela.

Rosalía de Castro, Curros Enríquez e Eduardo Pontal são nomes ligados ao Rexurdimento, movimento que retoma a valorização da cultura galega após tantos anos de massacre ideológico. Há nesta época na Europa a retomada do pensamento iluminista unido ao pensamento romântico, o que levava os pensadores a valorizar as singularidades de cada país e a variedade cultural. Assim surge o galeguismo como fonte ideológica. Aparece então uma literatura culta escrita em galego.

Na obra de Curros especificamente podemos observar sua aproximação sentimental daqueles considerados derrotados e vencidos, os párias, os pobres. Demonstra desejos de fraternidade universal que ultrapassam meros recursos literários. Assim, identificamos neste autor nitidamente um comprometimento com o seu amor à Galícia. Um compromisso ideológico básico que determina inclusive sua conduta social.

Curros defende o idioma galego e refuta as afirmações castelhanas de que se trataria de um dialeto agrário. Ele defende (citando Cervantes) que os grandes poetas antigos sempre escreveram em suas línguas maternas. Afirma que o povo galego é guerreiro e transparece sua fé em um futuro melhor, não apenas para a literatura, mas para a Galícia em geral.

Passemos então à análise pormenorizada de alguns textos de Curros Henríquez, que é o objetivo deste breve estudo.

4. O Gueiteiro

(…)Cando n’as festas maores

Era esperado o gueiteiro,

Botábanll’ as nenas frores

Ledas copras os cantores

Foguetes ó fogueteiro.

Tras d’él, em longa riola,

D’a gaita o compás levando

Com infernal batayola,

Iban corrend’ e choutando

Os rapaciños d’a escola.

Nunca se puído avriguar

Véndolla repinicar,

Po qué, o son d’a gaita ouindo,

Cantos bailaban sorrindo,

Acababan por chorar (…)

Tratamos aqui de um dos poemas de Curros Enríquez inspirado em “O Gaiteiro de Penalta”. Está inserido em “Aires d’a miña terra

Aqui Curros evoca tipos clássicos galegos. Vale esclarecer que até hoje o símbolo da tradição musical galega é a gaita. Ao gaiteiro, essa figura tão importante na tradição galega, Curros dedicou este poema.

Podemos perceber neste trecho a tentativa do poeta de contar uma cena típica da sua terra. É descrita a cena de um grande festejo em que o gaiteiro era uma figura esperada, ansiada. Ao som da gaita, as moças dançavam sorrindo e chegavam a se emocionar e chorar.

Este poema nos remete ao ambiente agradável da Galícia e tem a intenção de valorizar aquilo que é típico deste povo. Está, portanto, inserido na postura social mas talvez costumista também de Curros Enríquez, que se propõe a elevar e valorizar aquilo que é peculiar ao seu povo, a fim de retomar a identidade e autoestima dos galegos (após tantos anos de desprezo cultural por parte de outros povos, especificamente por parte dos castelhanos).

5. Mirando ó Chau

Trataremos agora de um dos mais polêmicos poemas de Curros Enríquez: um daqueles usados como “desculpa” para instauração do processo que ele sofreu como herege.

Curros era reconhecidamente um inconformado. Era contra as injustiças, especificamente aquelas cometidas contra os pobres e desfavorecidos de sua terra.

Além disso, era um sujeito apaixonado pela liberdade e que questionava o próprio conceito de Deus. Manifestava nitidamente seu anticlericalismo. Acreditava que o pensamento da Igreja Católica era retrógrado.

Em síntese, o poema “Mirando ó Chau” apresenta uma imagem de Deus, arquiteto do universo, passando em revista ao mundo. Curros mostra sua opinião de que a administração da justiça no mundo pela burocracia administrativa dos homens usa o poder em proveito pessoal, desfavorecendo os pobres. Vejamos um trecho do poema em que o poeta compara os pobres camponeses explorados a verdadeiras toupeiras humanas:

(…)Pantasmas parecen

De cote fozando

N’a codia terrestre,

Toupeiras humanas

Que furan as seves,

O sangue d’as venas

Perdend’á torrentes

Traballan sin folgos

Un chau que n’é d’eles (…)”

É muito interessante observar como o autor é firme em denunciar os abusos por parte dos mais poderosos (em especial, o Clero da Igreja Católica) contra os miseráveis. O poeta afirma que os camponeses trabalhavam sen força, como fantasmas ou toupeiras humanas, furando um chão que não lhes pertencia.

6 – O Maio e Ós Mozos

Ainda como poeta social, Curros Enríquez possui outros escritos que denunciam explicitamente as mazelas sofridas pelos galegos. Estes eram vistos como um povo atrasado e rural. Os próximos fazem parte dos chamados poemas agrários. Eles refletem a angústia e miséria dos camponeses da Galícia em razão da injusta repartição da terra, da exploração realizada pelos mais ricos e do abandono do meio rural. Vejamos:

(…) Para min non hai maio

Pra min sempr’ é inverno! (…)

Cantádeme un maio

Sin bruxas nin demos;

Un maio sin segas,

Usuras nin preitos,

Sen quintas, nin portas,

Nin foros, nin cregos (…).” 

(…) Que triste está a aldea,

Que triste é que soia!

A terra sin frutos, a feira sin xente,

Sin brazos o campo,

Sin nenos á escola,

Sin sol o hourizonte, sin fror a semente!” (Ós mozos)

7 – Nouturnio

Um vello, arrimado n’un pau de sanguiño,

O monte atravessa de car’ ó pinar.

Vai canso; unha pedra topou n’o camiño

E n’éla sentóuse pra fôlgos tomar.

-Ay! Dixo, qué triste,

Qué triste eu estou!

Y-on sapo q’o oía

Repuxo: – Cró, cró!

As ánemas tocan! Tal noite com’esta

Queimóusem’a casa, morréum’ a mulher.” (Nouturnio)

Este é um dos poemas de maior repercussão da obra de Curros. Nele podemos observar que através do diálogo com um sapo, um pobre velho expressa sua angústia diante de um Deus que permitiu que sua mulher morresse.

O próprio diálogo com o sapo em si traduz a injustiça divina: o sapo é feio, desprezado. Na cultura popular o sapo não é um animal bem visto, se diz que urina e cospe veneno. É como se apenas o sapo, esse ser rejeitado, desse ouvidos às lamúrias do velho. Ademais, o sapo também é um injustiçado, pois sendo mal visto, tem desprezado seu caráter benéfico como agente eliminador de insetos.

Observamos desta vez de forma sugerida, e não explícita, uma revolta contra Deus e contra as injustiças do mundo.

8 – Conclusão

Diante disso, podemos concluir que Curros Enríquez foi um apaixonado pela Galícia, sua terra natal. Através de suas condutas políticas e de suas obras literárias buscou fazer renascer a autoestima do povo galego, louvando tradições locais e cenas típicas de sua terra.

Não hesitou em demonstrar sua revolta contra as classes dominantes, especialmente contra o Clero da Igreja Católica, o que lhe gerou um processo, anos fora de casa e muita polêmica. Agiu com firmeza em denunciar as mazelas e injustiças sociais, sempre agindo a favor dos desfavorecidos e miseráveis.

Por ocupar esse papel importantíssimo para o ressurgimento da Cultura e Literatura Galega, Manuel Curros Enríquez está eternizado em suas obras e na memória desse povo guerreiro que batalha até hoje para ter sua história valorizada.

Bibliografia

– ACTAS DO I CONGRESO INTERNACIONAL CURROS ENRÍQUEZ E O SEU TEMPO, EDIÇÃO DE XESÚS ALONSO MONTERO, HENRIQUE MONTEAGUDO, BEGONA TAJES MARCOTE – CONSELLO DA CULTURA GALEGA

ENRÍQUEZ, MANUEL CURROS – AIRES D’A MIÑA TERRA http://bvg.udc.es/indice_paxinas.jsp?id_obra=Aid%27miTe1&id_edicion=Aid%27miTe1003&cabecera=%3Ca+href%3D%22ficha_obra.jsp%3Fid%3DAid%2527miTe1%26alias%3DManuel%2BCurros%2BEnr%25EDquez%22+class%3D%22nombreObraPaxina%22%3EAires+d%27a+mi%F1a+terra%3C%2Fa%3E&alias=Manuel+Curros+Enr%EDquez&formato=texto

BLOG FUNDÁCION CURROS ENRÍQUEZ – http://www.currosenriquez.es/gl/o-poeta/curros-enriquez.html

 

Aires da miña terra, de Curros Enríquez e a literatura brasileira romântica

Mariana de Azevedo

Aluna de Introdução à Cultura Galega na UERJ

Curros Enríquez nasceu no ano de 1851 e faleceu em 1908, ajudou o pai na profissão de escrevente e estudou direito. Junto com Rosalía de Castro e Eduardo Pondal passa a ser uma grande referência do movimento denominado de rexurgimento da literatura galega do século XIX. A sua obra Aires da miña terra o consagrou como um grande poeta civil, pois fez denúncias sociais a favor da classe mais desfavorecida e exaltou os valores e as tradições da cultura galega.

Curros Enríquez
Curros Enríquez

Curiosidade: Por conta de uns dos textos desse livro, do qual obteve um prémio poético em Ourense, o bispo de Ourense condenou o livro de Curros por conter proposições heréticas e blasfemas. Curros foi processado por delito contra o livre exercício dos cultos, foi condenado em Ourense, mas absolvido na Corunha. Por conta desse episódio teve que viver alguns anos longe de sua terra.

Além de poesias, C. Enríquez trabalhou durante grande parte de sua vida com o jornalismo em jornais de destaque mundial como “El País” e “Gaceta de Madrid”, por exemplo. Sua formação foi fundamental para, em colaboração com outros intelectuais galegos, promover a constituição da atual Real Academia Galega através da “Associação iniciadora e Protetora da Academia Galega”, da que foi eleito presidente-fundador.

Em sua obra encontramos principalmente três tipos de poesia:

1) Costumbrista: Composições de caráter popular;

2) Intimista: O autor não era muito a favor de poesias desse tipo, porém, em determinados momentos que ele expressa suas reações e sentimentos pessoais, como em composições de temas familiares, como por exemplo, o nascimento ou a morte do filho esse tipo de poesia ganha destaque.

3) Cívica: Divide-se em duas partes

     a) Aquela em que o autor expõe abertamente seu pensamento e ideologias. Podemos encontrar um Curros defensor do progresso e liberdade.

     b) Poesia agrária, pois o poeta observa as dificuldades dos camponeses e as injustiças para com esse povo.

De acordo com isso podemos fazer a comparação da obra literária de Curros e seus três tipos de poesia com as três fases do romantismo brasileiro. O romantismo foi um movimento literário que ocorreu de acordo com um contexto social e baseado em uma estética literária antecedente. O movimento teve características gerais, como o repúdio a determinados aspectos da era clássica, o culto ao amor sem racionalidade, o subjetivismo e o individualismo. E teve também características específicas que nos permite dividi-lo em três grupos: primeira, segunda e terceira geração românticas.

O contexto histórico e social em que se encontravam os românticos, principalmente os da primeira geração, era de recente independência do país. Assim, um verdadeiro sentimento nacionalista veio a surgir, por conta dos artistas que procuraram valorizar suas características naturais e nacionais exaltando a natureza. Esse movimento é fruto de um verdadeiro descontentamento por conta da evidente desigualdade social, gerando um inconformismo

Dito isto, podemos, primeiramente, comparar as características gerais da poesia de Curros Enríquez com o romantismo brasileiro. A luta de Curros pelos direitos do povo galego o faz escrever como os autores do Brasil que tentam firmar sua nacionalidade na prática, pois só a tinham de forma teórica. Ambos realçam as características naturais e exaltam de forma enfática a natureza, atributo comum aos dois lugares. Curros utiliza também, em muitos de seus versos, a subjetividade e demonstra insatisfação com a questão da nacionalidade galega, outros recursos que se assemelham a geração romântica brasileira.

Analisando especificadamente as fases desses dois movimentos literários, pode-se comparar o primeiro tipo de poesia de Curros Enríquez, que compõe para o popular, com a primeira geração do romantismo. O primeiro fala do povo galego e de situações de lutas diárias. A segunda prega um culto à cultura primitiva, que seria a “verdadeira” cultura do país exaltando, por exemplo, o índio e colocando-o como herói.

Escribir nada mais para unha província

Ou, com’os povos árcades fixeram;

Escribir sobre a casca d’os curtizos,

Cáxeque todo ven á ser o mesmo. (…)

As xentes tristes que n-o verbo humano

peneuran os ideales qu’entreveron,

cuando ô vate interrogan, novo Oráculo,

queren revelaciós, que no misterios.

(…)

Aires da miña terra. Curros Enríquez

“Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

(…)

Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

(…)

Canção do exílio. Gonçalves Dias

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Gonçalves Dias

As segundas partes dos respectivos movimentos podem ser caracterizadas por melancolia. Em Curros há poucas expressões desse tipo, na segunda geração romântica, porém, o repertório é um dos mais vastos. O tema ‘amor’ é o principal nesse grupo, tanto para o autor galego quanto para os brasileiros, em decorrência desse grande sentimento, a morte também é figura presente. No caso de Curros, ele utiliza, em sua maioria, temas familiares como a morte do filho e da mãe e também das suas lutas e comoções para escrever. No caso dos poetas brasileiros, conhecidos nessa fase como “ultrarromânticos”, a morte é consequência de dores, principalmente a causada por amar demais.

Na morte da miña Nai

Dulce melancolia, miña musa,

Do meu espiritu novia feiticera,

¡déixame que hoxe no teu colo durma

sono de pedra!

Nunca, reiciña, nunca como agora

falla fixéronme os teus bicos mornos:

choveu por min chuvia de sangue e traio

frío nos ósos.

Quéntame ti, que tiritando veño,

ti, que do peito curas as feridas,

¡amiga xenerosa dos que sofren,

melancolía!

(…)

Curros Enríquez

Lembranças de Morrer

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,

Que o espírito enlaça à dor vivente,

Não derramem por mim nem uma lágrima

Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura

A flor do vale que adormece ao vento:

Não quero que uma nota de alegria

Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio

Do deserto, o poento caminheiro,

…Como as horas de um longo pesadelo

Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

(…) Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo
Álvares de Azevedo

De acordo com isso pode-se passar ao terceiro tipo de poesia de Enríquez e à terceira geração romântica. Essa é uma fase voltada ao social e ao ideário de liberdade em relação às mazelas da sociedade e ao pensamento individual. No Brasil, os poetas mostram indignação, sobretudo com a escravidão, para o galego, o descontentamento é com as desigualdades que sofre o povo do campo. Ambos os poetas pregam a liberdade e se expressam livremente. Curros expõe abertamente seus ideários e os poetas brasileiros buscam o pensamento individualista.

O maio

(…)

Para min non hai maio,

¡pra min sempre é inverno!…

pide un maio

sen bruxas nin demos;

un maio sen segas,

usuras nin preitos,

sen quintas, nin portas,

nin foros, nin cregos. (…)

Curros Enríquez

Navio Negreiro

(…)

Ontem plena liberdade,

A vontade por poder…

Hoje… cúm’lo de maldade,

Nem são livres p’ra morrer. .

Prende-os a mesma corrente

— Férrea, lúgubre serpente —

Nas roscas da escravidão.

E assim zombando da morte,

Dança a lúgubre coorte

Ao som do açoute… Irrisão!…

Castro Alves

Castro Alves
Castro Alves

A semelhança entre as partes existe, porém o contexto social e a realidade de cada autor é relevante no sentido de que são bastante distintas e que Curros Enríquez estava sendo processado e procurado por conta de sua obra, Aires da miña terra, enquanto os poetas brasileiros tinham conquistado sua “liberdade”, desde que fossem homens brancos (já que os negros eram, ainda, escravos). Dessa forma, percebe-se que os motivos que cada poeta teve para escrever, em geral, pode ter sido um descontentamento social, porém, cada um viveu e fala sobre detalhes que se diferem. Entre semelhanças e diferenças, é inegável, entretanto, a qualidade dos versos de cada poema e como através da escrita pode-se comparar a luta pela nacionalidade, pelo sentimento, pela individualidade, entre outras coisas, que esses poetas de diferentes lugares questionam e reivindicam. Assim, a obra galega de Curros Enríquez pode servir de inspiração para as lutas sociais diárias dos poetas brasileiros e vice-versa.

BIBLIOGRAFIA

http://www.currosenriquez.es/es/o-poeta/curros-enriquez.html

http://www.cultureduca.com/blog/literatura-gallega-manuel-curros-enriquez-3/

https://archive.org/details/airesdamiaterr00curruoft

http://galegos.galiciadigital.com/es/manuel-curros-enriquez

http://www.alunosonline.com.br/portugues/as-tres-fases-romantismo-brasileiro.html

http://www.portugues.com.br/literatura/astresfasesromantismo.html