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Vanguardas Galegas: Conservadorismo e Inovação

Bárbara Soares dos Santos

Aluna de Literatura Galega I na UERJ

INTRODUÇÃO

O século XX foi um período de grandes transformações históricas, sociais e culturais. Com o advento da tecnologia, as consequências da Revolução Industrial, a Primeira Guerra Mundial e a atmosfera política que resultou desses grandes acontecimentos, surge um sentimento nacionalista, além de um crescimento das grandes potências mundiais e das disputas de poder. A evolução científica e tecnológica, expansão dos automóveis, avião e criação da internet, são exemplos de acontecimentos que marcam, nesse século, o crescimento da modernidade. Com tantas transformações ocorridas nesse período, não é de estranhar-se que a arte e a literatura também tenham sofrido seu impacto, surgindo os movimentos artísticos que chamamos de “Vanguardas”.

O movimento das Vanguardas surgiu na França nas duas primeiras décadas do século XX, com o objetivo de criar uma ruptura da arte moderna com a tradição cultural do século anterior, ou seja, criar uma expressão artística original, que se afastasse do conservadorismo e que fosse mais coerente com a realidade histórica e cultural do século que surgia. Essas mudanças artísticas e literárias atingiram, não só a temática das obras, mas também a forma e destacaram-se, além dos motivos já citados, por sua radicalidade, a qual proporcionou que influenciassem a arte por todo mundo, começando pela Europa e atingindo, posteriormente, outros continentes.

Desse modo, não tardou para que Galícia e países da América latina, como o Brasil, também fossem atingidos por essas correntes, ainda que não o tenham sido na mesma medida. No Brasil, por exemplo, o movimento chegou num momento da história em que as manifestações artísticas estavam crescendo no país, e que a maioria dos artistas se espelhavam nas tendências europeias, fosse como forma de inspiração ou para combatê-las e assim como em outros países da América, o movimento buscou adotar uma postura mais radical, bem inspirado nos movimentos europeus. A Galícia, por sua vez, também sofreu a influência do movimento. Entretanto, alguns críticos, como Xesús Gonzáles Gómes, questionam a existência de uma vanguarda no país, pois embora tenha assumido muitos dos princípios estéticos do vanguardismo europeu, procurou não se desvincular do compromisso com a sociedade galega e a situação de sua língua e cultura. (Villar, 2010)

Desse modo, o presente trabalho tem como objetivo analisar alguns dos princípios básicos do vanguardismo galego, assim como as correntes e autores que mais tiveram destaque, buscando ressaltar os aspectos inovadores do movimento que o permitem encaixar em uma corrente vanguardista e os mais conservadores, que justificariam a teoria de críticos como Gonzáles Gómes de que não se poderia supor a existência de um movimento de vanguarda na Galícia. Para isso, trataremos brevemente de alguns aspectos da vanguarda europeia que contribuíram para a construção de uma identidade no movimento galego do século XX.

PRINCIPAIS MOVIMENTOS DE VANGUARDA

No final do século XIX, o gosto artístico que predominava era o que entendia a obra de arte como sendo uma cópia fiel da realidade, de características realistas e naturalistas herdadas da época do renascimento. Tal fato gera um clima de efervescência artística, resultando no surgimento de várias tendências, ditas por “ismos”, como futurismo, dadaísmo e surrealismo, que passaram a ser conhecidas por “Vanguardas Europeias”.

As correntes de vanguarda surgiram antes, durante e depois da primeira guerra mundial e introduziram uma estética marcada pela experimentação e pela subjetividade que atingiram os diversos tipos de arte. O artista agora estaria livre da função de representar a realidade, papel que passa a ser desempenhado pela fotografia. A pintura liberta-se e passa a expressar os sentimentos do artista, que cria a arte por puro prazer estético ou como forma de intervenção social.

De maneira geral, podemos caracterizar os movimentos vanguardistas pela busca do purismo – que via o movimento artístico como algo afastado do real – desumanização, antissentimentalismo, valorização do irracional e intrascendência – capacidade de enxergar a arte por si mesma. Dentre as correntes vanguardistas mais destacadas mundialmente podemos citar:

Futurismo

O futurismo é um movimento artístico e literário que nasce oficialmente no dia 20 de fevereiro de 1909, com a publicação do Manifesto Futurista, escrito pelo poeta italiano Filippo Marinetti (1944-1976). Seus adeptos rejeitavam o moralismo e o passado e suas obras baseavam-se na velocidade dos desenvolvimentos tecnológicos do final do século, ou seja, na civilização construída sobre o progresso da máquina.

Cubismo

O movimento cubista foi criado pelo francês Apollinaire (1880 -1918), influenciado por alguns elementos futuristas. Na poesia, a corrente pode ser bem representada pelos caligramas – Apollinaire (1918) – subtitulados de poemas da paz e da guerra. Neles, o poeta mostra a supressão da pontuação e a fusão entre o desenho e poesia. A disposição dos versos sugeria o tema do poema. Na pintura, o artista que marca a corrente cubista é Picasso, em 1907, a partir de seu quadro “Les demoiselles d’Avignon”.

Dadaísmo

O dadaísmo foi criado por Tristan Tzara (1896 -1963). Tal movimento foi iniciado em Zurique, em 1916. Embora a palavra em francês signifique “cavalo de brinquedo”, sua utilização marca a falta de sentido que pode ter a linguagem (como na língua de um bebê). Esse pode ser considerado o movimento mais provocador e o que mais rompeu com as tradições. Seu objetivo era negar tudo o que se sabia até o momento sobre a arte, desde sua utilidade até a existência de um autor, uma mensagem e um receptor. Acredita-se que o nome “dadaísmo” foi escolhido aleatoriamente, abrindo-se uma página de um dicionário. O resultado, talvez, possa ser considerado absurdo. Entretanto, abre espaço para o surrealismo, que pode ser tido como uma das vanguardas mais fecundas.

Surrealismo

O surrealismo pode ser considerado a maior revolução poética do século XX, mantendo sua influência até os dias atuais. O movimento nasce primeiramente em Paris, reunindo artistas anteriormente ligados ao dadaísmo e, posteriormente, expandido para outros países. Tal corrente foi fortemente inspirada nas teorias psicanalíticas de Freud sobre o subconsciente e a interpretação dos sonhos. Em 1924, André Breton – escritor francês, representante do surrealismo na literatura – publicou o “Manifeste Surrealiste”, que defendia o ato criativo livre do plano consciente, mediante a escrita automática, associação livre de palavras, metáforas insólitas etc.

Esses são apenas alguns exemplos das correntes mais difundidas mundialmente, iniciadas na Europa. Entretanto, com o passar dos anos, outros “ísmos” foram criados em outros continentes, influenciados pelos movimentos europeus. Na Galícia, especificamente, costumou-se mesclar muitas dessas correntes com outras que veremos posteriormente.

VANGUARDAS GALEGAS

A literatura galega do século XX pode ser dividida em três períodos: literatura de pré-guerra, literatura de pós-guerra e literatura do fim da ditadura ao fim do século. As vanguardas galegas são desenvolvidas no período de pré-guerra. Esse foi um momento caracterizado pelo surgimento das Irmandades da Fala e do Grupo Nós, além de correntes de vanguarda como surrealismo e outras, que ocorreram mais especificamente na Galícia, como Hilozoísmo e Neotrovadorismo.

A existência da poesia vanguardista galega deveu-se ao afã modernizador e europeu que tanto o Grupo Nós como as Irmandades da fala desejavam para sua cultura. As Irmandades da Fala foi uma organização nacionalista galega, ativa entre 1916 e 1931 que desenvolveu atividades políticas e culturais na Galícia. Representaram politicamente a superação do regionalismo como ideologia reivindicativa, colocando o nacionalismo como única possibilidade para o desenvolvimento da identidade da Galícia e assumindo, pela primeira vez, o galego como idioma principal, adotando iniciativas para sua expansão em toda comunidade. O Grupo Nós, por sua vez, foi composto por um conjunto de escritores galegos que conferiu à cultura galega um prestígio que até então não havia tido. Buscavam uma originalidade em gêneros além do lírico, como a prosa e o ensaio. O grupo foi assim chamado devido ao título da revista a qual publicaram – “Nós”.

A geração de autores, seguinte à geração das Irmandades e do Grupo Nós, recebe vários nomes. Dentre eles, pode-se dizer “geração de 1925”, “Novencentistas” ou “geração das vanguardas”. Os membros dessa geração possuíam algumas características em comum, como por exemplo, o fato da maioria ter nascido por volta de 1900, de terem promovido a criação do Seminário de Estudos Galegos, além de terem tido um papel decisivo na formação do Partido Galeguista. Sendo assim, é importante ressaltar, também, que esses autores incorporaram à literatura galega as vanguardas literárias europeias, entretanto, nem todos podem ser considerados vanguardistas.

Como dito anteriormente, o vanguardismo galego, assim como era de costume em sua origem europeia, buscou romper com a tradição. Porém, diferentemente das vanguardas europeias, buscou-se, na Galícia, não se desvincular das temáticas que já vinham sido trabalhadas desde o “Resurximento” – renascimento galego – depois dos Séculos escuros – período de decadência literária na Galícia. Desse modo, procurou-se, embora fossem permitidas inovações na estética literária, não romper com o compromisso com a sociedade galega e a situação de sua língua e cultura. Sendo assim, os poetas falavam da realidade do povo, do homem e de seus sentimentos, temas que não eram muito bem vistos no vanguardismo ortodoxo.

Os vanguardistas galegos tinham como característica o fato de terem uma trajetória semelhante à dos vanguardistas espanhóis – empresas editoriais breves, revistas de “combate” etc.-. Além disso, tais autores costumam rebelar-se contra um passado cultural, embora não se libertem dele completamente. Com relação à utilização do idioma, os autores galegos adotam uma postura sincretista. É difícil situar esses escritores em alguma corrente de vanguarda específica. Ainda que haja a tentativa de perceber os traços predominantes em suas obras, a maioria deles poderia ser inscrito em mais de uma corrente.

A primeira tentativa de renovação na literatura galega após o “Rexurdimento” não se vai produzir no âmbito da lírica senão no da narrativa, por meio do Grupo Nós que predomina o período 1920 -1936” (VILAR, 2010). Nesse período, os autores que melhor representaram essas transformações são Vicente Risco, Ramón Otero Predayo, Alfonso Daniel Rodríguez Castelao e Florentino Cuevillas. A tendência desse grupo era escrever uma prosa que assimilasse as tendências europeias, ainda que as obras não perdessem seu caráter didático, com a finalidade de contribuir para uma consciência galega. Entretanto, os poetas da geração de 22 (“novencentistas”, “Xeración do 25 ou das Vanguardas), foram os responsáveis pela renovação literária mais profunda da literatura galega. Eles pretendiam um afastamento do passado literário mais recente para iniciarem uma nova estética. Entretanto, continuavam compartilhando as ideologias nacionalistas e os referentes culturais das gerações anteriores. É por esse motivo que a vanguarda galega pode ser considerada, por muitos, menos inovadora que as demais.

É comum que se considere dentro dessa geração duas correntes. Uma com características mais renovadoras, que pode ser representada pelo criacionismo de Manuel Antonio e o sincretismo de Alvaro Cunqueiro e outra corrente mais vinculada à ideia de tradição, representada pelo neotrovadorismo também escrito por Cunqueiro e Fermín Bouza Breye e o Hilozoísmo ou “imaxinismo” de Amado Carballo. Essa última, sofre uma contradição no que se refere ao seu caráter vanguardista. Essas correntes mais propagadas na Galícia caracterizavam-se da seguinte forma:

Criacionismo

Criacionismo foi o movimento poético fundado pelo Chileno Vicente Huidobro que compara o poeta a um criador (o poeta seria como um deus). Sua doutrina funda-se na defesa da autonomia da arte em relação à realidade exterior, permitindo que a invenção e a imaginação poética prevaleçam sobre a imitação dessa realidade. Um exemplo dessa corrente está na obra de Manuel Antonio – De catro a catro (1928).

Manuel Antonio foi um poeta que compactuou com a ruptura das vanguardas e buscou romper com a tradição literária galega. Procurou, em suas obras, fazer uma interpretação livre e pessoal da realidade, longe do estilo ruralista e proselitista. Dentro dos movimentos de vanguarda, o autor escolhe o Criacionismo para seguir como representante. Esse movimento, como já foi dito, tinha como proposta a liberdade absoluta do poeta. Rejeitava, portanto a rima, o ritmo e o sentimentalismo e desejava construir um poema sobre a justaposição de imagens e metáforas de múltipla interpretação. Entretanto, como era de costume com muitos autores do vanguardismo galego, Manuel Antonio não seguia à risca os pressupostos estéticos criacionistas. Podemos citar como exemplo os versos a seguir, contidos no seu poema intencións, em sua obra mais conhecida, De Catro a Catro.

ELEXÍA AO CAPITÁN ROALD AMUDSEN 

QUE SE PERDEU NO POLO NORTE

Oh captain! My captain
Walt Whitman

PAISAXE 

Ninguén puido atopar entre a neve

eses beizos xeados

que se lle perderon ao silencio

       E as lonxedades

                             ceibes

      descinguiron a soedade

      No remuíño

da derradeira rafega de vento

         foise toda espranza

e o sol apagado

      Ningunha voz poderá destemerse

sen caer morta aos pés da neve

coma un paxaro novo

         Oh Capitán! Meu capitán!

(ANTONIO, Manuel, 1928)

Seu livro, De catro a catro, –única obra publicada em vida– reflete o processo da viagem marítima, seguindo uma linha temporal. Os versos anteriores são os iniciais, onde o poeta anuncia que vai começar sua jornada e vê-se ansioso e angustiado pela partida. Nesse exemplo, podemos observar que há a construção de versos que seguem o princípio de vanguarda (a ausência do ritmo e métrica variável por exemplo e a incorporação de estrangeirismos (“my capitán”). Entretanto, alguns aspectos o diferem de um vanguardismo ortodoxo e afastam sua obra de uma criação puramente criacionista. Primeiramente, os versos não são totalmente afastados de um humanismo, como defendiam essas correntes vanguardistas. Além disso, pode-se perceber neles uma história e uma cronologia – mais ainda se forem analisados no conjunto da obra – e nota-se que não há, no poema, uma fuga consciente do sentimental.

Sincretismo

Álvaro Cunqueiro (1911 -1981) pode ser considerado um dos maiores representantes dessa corrente. Ele sincretiza, em sua poesia, muitas características das outras correntes europeias com a tradição galega, o que converte suas obras em algo singular. Cunqueiro costumou percorrer diferentes tipos de correntes vanguardistas e suas obras, embora pudessem ser percebidas nelas a predominância de algum dos movimentos, dificilmente era carregada de um purismo. Por esses motivos ele pode ser considerado um dos principais marcos do sincretismo galego.

Como exemplo de tendências as quais o poeta conservou, podemos destacar o cubismo em Mar ao norde (1923), surrealismo em “Poemas do si e non (1933) e o neotrovadorismo em Cantiga nova que se chama ribeira (1933) – nas “Cantigas de amor cortês” – íncluídas no livro Dona de corpo delgado. Para exemplificar este sincretismo, pode-se usar como exemplo o poema abaixo, que apesar de possuir traços surrealistas, apresenta aspectos que não são típicos dessa corrente.

“ELA E EL”

NOIVADO I

Cegoñas xeográficas no meu noivado noivo.
Un tempo craro como un illó de vidro.
E no medio de litorais e avións platino
cidadán de correntes submariñas color morno.
A miña craraboia en brúxula silvestre:
un arbre polo Norde, Oriente feito
de moluscos, Sur de ribeiras líquidas.
Eu de noivado. Nas mans arcos-de-vella,
vidreiras verde-tenre e colgaduras finas.
Nin unha sombra nin faiados tímidos,
inocentes igoal a negros en domingo
o corazón no peito, risoños como esquíes.
Beilar ágoas lixeiras e sonos desprendidos
das cantigas máis novas. Sumando vals e faros.
Infuxivel noivado estelar de cereixas,
amante de cristais. Eu o teño.

Nesse exemplo, percebemos que apesar do poema ser representativo da corrente surrealista, representado no léxico com palavras como “sono” e uma estrutura não tão consciente, afastando-se um pouco de uma temática concreta com presença de metáforas , como “cegoñas xeográficas” apresenta, também, elementos que fogem a essa temática, como o sentimentalismo que o afasta um pouco do automatismo da escrita surrealista. – “o corazón no peito, risoños como esquíes”.

Neotrovadorismo

Surge por volta de 1930 e tem como característica a preservação da estética medieval e imitação das cantigas galego-portuguesas. Nessa corrente recriam-se temas amorosos similares às cantigas de amigo e de amor, com recursos formais (paralelismo, refrão, leixa-pren…) e ambientes (paisagens de mares, rios, fonte etc). Entre os seus principais representantes estão Johán Vicente Viqueira, Fermín Bouza Brey, Álvaro Cunqueiro e Xosé Maria Álvarez Blázquez.

Como dito anteriormente, embora alguns analistas situem essa corrente entre os movimentos de vanguarda, ela possui um aspecto mais conservador. É possível falar então que o neotrovadorismo agrupa uma série de manifestações textuais que tiveram como modelo a obra dos trovadores galego-portugueses medievais, no que se refere a forma, métrica, rima e ao léxico. Entretanto, muitas vezes combinavam-se esses aspectos tradicionais com elemento próprios da vanguarda. É por esses fatores que existem teorias que não consideram o neotrovadorismo como sendo um movimento vanguardista, mas sim, como um direcionamento – um chamado aos cancioneiros. (http://asvanguardas.blogspot.com.br).

Fermín Bouza Brey (1900, 1973) é um dos representantes mais marcantes da poesia neotrovadoresca. Nem todas as suas composições apresentam esse caráter. Entretanto, a primeira de suas obras, formada por treze composições, inicia-se com uma declaração que diz: “tenho procurado recuperar as tradições dos nossos clássicos: os cancioneiros medievais e o povo” (BREY,1933). Desse modo, apropria-se da literatura popular e de sus estruturas formais para dar voz ao seu objetivo. Cria seus poemas atendendo fundamentalmente ao som e à ordenação dos fonemas, entretanto, também atende ao jogo interno da sintaxe e à efetividade do vocabulário, características vanguardistas. Vejamos abaixo um de seus poemas:

LELÍAS Ó TEU OLVIDO 

O pumariño da noite quer froitificar estrelas
o tanxer desta cantiga é o sinal para acendelas…
-¡ai, meu amor!-
… é o sinal para acendelas.

Agárdanos na ribeira, sob o descordo do mar,
no seo dos cons, o leito de herbiñas de namorar…
-¡ai, meu amor!-
… de herbiñas de namorar.

As nove ondas do ensoño espreitan co seu engado
pra enguedellar a toleira desta noite de noivado.
-¡ai, meu amor!-
… desta noite de noivado.

Así ó fontegal da espranza, antes de que saia o día
iremos enguedellados catar a flor da auga fría…
-¡ai, meu amor!-
… catar a flor da auga fría.

¡Ó alén! que no pumariño madurecen os luceiros,
nosos dous corazóns bailan tolos nos ledos turreiros,
¡Ai, meu amor!

no labradío das ondas albea a flor do luar
lámpada para o teu leito de herbiñas de namorar…
¡Ai, meu amor!

Se algún malfado nos fere, axotaremos o mal
a bicos, ouh caramiña dun virxe caramiñal…
-¡ai, meu amor!- 
dun virxe caramiñal

(Fermín Bouza Brey: Nao senlleira, 1933.)

Em “Lelías ó teu olvido, composto em sua obra Nao senlleira, 1933, podemos observar aspectos que remetem às cantigas medievais, mais especificamente as de amigo. Dentre eles pode-se destacar a paisagem, mais especificamente o mar, que é um ambiente comum nas cantigas, assim como o léxico da água, como por exemplo em: – “Agárdanos na ribeira, sob o descordo do mar” (verso 5º); ”As nove ondas do ensoño espreitan co seu engado “ ( verso 9º) e “iremos enguedellados catar a flor da auga fría.” (Verso 14º). Quanto a estrutura, é importante observar a presença de refrão – “¡Ai, meu amor! – rimas e paralelismos, assim como o tinham nas cantigas trovadorescas.

Hilozioismo

O “hilozoísmo” ou “Imaxinismo” foi a tendência vanguardista que teve maior êxito em sua época. Tinha como principal temática a paisagem e a terra – elemento central na procura da identidade galega desde o nacionalismo – e compartilhava elementos da tradição literária paisagística, cultivada por Rosalía de Castro, Noriega, dentre outros. Como principal representante dessa corrente – considerada mais conservadora, assim como o neotrovadorismo, e por isso também não pode ser considerada plenamente vanguardista – está Luís Amado Carballo (1901 -1927). De alguns fatores que a fazem não o ser completamente de vaguarda, pode-se destacar sua ligação com a tradição poética interna, o conservadorismo da rima e o emprego de métricas populares. Vejamos o poema abaixo de Amado Carballo.

Estou a pensar en ti,

e nas miñas mans saudosas

até o mesmo dolor ri.

Baixo a pregaría oxival

do zarco mar dos teus ollos,

afóganse as miñas verbas

que van pousar no teu colo.

Proel (1 927)”

Podemos perceber no poema um conservadorismo com relação a métrica e rimas assonates. É frequente nessa corrente também a expressão de emoções humanas para descrever coisas inanimadas. Pode-se perceber isso em “mans saudosas” (Verso 2). A obra de Carballo foi muito valorizada e serviu de inspiração para muitos poetas como Manuel Luís Acuña, Augusto María Casas e Xulio Sigüenza. Alguns deles refletem ainda a influência de outras correntes vanguardistas.

Conclusão

A partir das análises das correntes mais difundidas na Galícia no século XX, assim como as breves exemplificações de algumas obras e dos autores representativos de tais correntes, é possível observar um conservadorismo existente na literatura galega que faz com que muitos críticos se dividam na admissão da existência de um vanguardismo nesse período. É certo que não há como negar que o nacionalismo que os galegos adquiriram logo após os séculos escuros, numa tentativa de exaltar sua cultura e identidade galega, não se perderam a partir das influências vanguardistas. Tal conservadorismo, que pode ser observado na geração novencentista, faz com que pensemos que nessa época, nem todos os autores eram vanguardistas e nem tudo o que se diz como vanguarda, assumia, de fato, características de tal movimento.

Entretanto, com as grandes transformações que o século passava e com a força que as vanguardas europeias tiveram no mundo inteiro, não é de se estranhar que Galícia também tenha sentido o impacto em sua literatura, arte e cultura.

Sendo assim, é importante perceber que o século XX foi um período de mudanças para literatura galega. Período esse, que incorporou elementos do vanguardismo europeu, mas que não perdeu sua identidade, conservando aquilo que para eles era mais importante (como o nacionalismo galego) e criando, por meio de um sincretismo, suas próprias representações de vanguarda. Assim, é difícil conceber a literatura galega no século XX como sendo uma literatura purista, mas sim, como uma tentativa de incorporar as novidades do século, sem a perda de sua autonomia e identidade.

Biliografia:

– VILLAR, Miro. A poesia galega e as vanguardas do século XX, 2010

– VARGAS, Fábio. Poesia galega. Das origens à guerra civil

http://polianne-andrade2.blogspot.com.br/ (acessado em 27 de novembro de 2015)

http://www.infoescola.com/literatura/escritores-do-futurismo/ (acessado em 27 de novembro de 2015)

http://asvangardas.blogspot.com.br/2008/01/actividade-17_29.html (acessado em 27 de novembro de 2015)

http://www.edu.xunta.es/centros/iesbeade/?q=system/files/02%20A%20poes%C3%ADa%20de%20vangarda.%20Caracter%C3%ADsticas%2C%20autores%20e%20obras.pdf (acessado em 27 de novembro de 2015)

A ressonância do mito de Tristão e Isolda no conto “Tristán Garcia”, de Álvaro Cunqueiro

Asafe Lisboa

Aluna de Introdução à Cultura Galega na UERJ

Na literatura, as figuras de Tristão e Isolda aparecem primeiramente nos versos de Béroul e Thomas da Inglaterra, ambos poetas do século XII. No entanto, apesar da contemporaneidade dos autores, a trajetória do casal adquire feições díspares de acordo com a narrativa em questão: a de Béroul é, de certa forma, um pouco mais agressiva, flertando com o épico, ao passo que Thomas da Inglaterra imprime com mais força os traços do amor cortês e da paixão trágica.

Posteriormente, após a difusão dessas duas versões primordiais, entre tantas variações acerca do tema surge “Tristão em prosa”, obra que através do ciclo da Post-Vulgata ligará Tristão ao ciclo arturiano. O ciclo arturiano, também designado Matéria de Bretanha, alcançou enorme popularidade no noroeste da península Ibérica.

Antes de prosseguirmos é preciso responder a duas questões iniciais: por quê incorporar as lendas de Tristão e Isolda no ciclo arturiano e por quê a Matéria de Bretanha foi mais cultivada em Portugal e em Galiza, se foi primeiramente conhecida em Castela?

O ciclo arturiano, bem como o mito de Tristão e Isolda, possui origens bem mais remotas do que as literárias. Ambos têm suas raízes fixas na tradição ancestral do povo celta. Essa tese, sustentada pelo romanista Gastão Paris, “Parte do princípio de que os escritores se limitam a dar corpo e feição artística ao material folclórico pré-existente.” (LAPA, 1981, p.241). Tomando-a por base, torna-se justificável aproximar literariamente Tristão e Arthur, pois poderíamos concluir que essas personagens compartilham o passado mítico e o berço cultural.

"Tristram and Isolde", pintura de John William Waterhouse (1916)
“Tristram and Isolde”, pintura de John William Waterhouse (1916)

O florescer intenso da Matéria de Bretanha e do mito de Tristão e Isolda no ideário galego-português pode ser explicado através da hipótese de que Portugal e Galiza tenham sofrido forte influência dos celtas. Segundo Lapa (1981, p.243)

[…] a arqueologia e a etnografia, activamente cultivadas na Galiza, têm demonstrado que houve comunicação entre o noroeste da Península e os povos bretões. Um fundo comum de remota civilização patenteia-se na flagrante semelhança dos petroglifos, dos castros e seus despojos. Nos próprios produtos de arte cristã, em que se denuncia a sobrevivência de antigos ritos, como nas cruzes de pedra, tão frequentes na Galiza, há uma dedada inconfundível, que os aproxima estranhamente de monumentos congéneres da Bretanha, como ficou provado pelos trabalhos do artista galego Castelao. O substratum céltico parece, pois, um facto cientificamente provado e não apenas, como muitos cuidam, uma fantasia literária.

Os vestígios celtas evidenciam uma ligação antiga que, apesar do aparente desvanecimento, ressurge de tempos em tempos jamais poderá ser ignorada. Tal como os castros e os petroglifos, as (re)criações literárias são como os monumentos do passado e servem de provas cabais do processo de transculturação.

Álvaro Cunqueiro, expoente do neotrovadorismo, no conto “Tristán Garcia” faz uma releitura cômica, mas ao mesmo tempo profunda e singela do mito de Tristão e Isolda. Em Cunqueiro, o protagonista desconhece as origens do próprio nome: “Este Tristán do que conto nunca soubo por que lle puxeran este nome no sacramento do bautismo, nin coñecía ninguén que se chamase como el.”

Por essa razão, Tristán Garcia estava alheio ao destino de seu célebre homônimo e também alheio ao seu próprio. A trama tem a reviravolta decisiva quando Tristán lê em “La verdadera historia de los amantes de Tristán e Isolda” sobre a paixão arrebatadora vivida pelo Tristão da novela e decide partir em busca de sorte semelhante. O que acontece em seguida, deixarei que as palavras de Cervantes em “Dom Quixote” digam com mais clareza: “Em suma, tanto naquelas leituras se enfrascou, que passava as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro, e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro, de maneira que perdeu o juízo.

Álvaro Cunqueiro
Álvaro Cunqueiro

Ao ler as histórias de Tristão e Isolda, Tristán imagina a grandeza que lhe rondava o nome e apropria-se dela, como, se pelo simples fato de se chamar Tristán, fosse seu destino irrevogável reviver os episódios do romance. A homonímia é a razão prima da demanda da personagem e também é objeto de seu desejo; por se chamar Trístán sua paixão só poderia ser satisfeita única e exclusivamente por uma mulher de nome Isolda (VEGAS, 1995, p.300).

A importância do nome é dos aspectos mais notáveis de “Tristán Garcia”. É o nome que lhe sela o destino, funcionando como elemento mágico que lhe arrebata o poder de decisão e o mergulha em uma paixão irresistível. Tristán imagina que, quando a encontrar, Isolda não terá outra escolha a não ser amá-lo, exatamente porque se chama Isolda. Os nomes nos remetem a “le philtre”, a poção bebida pelo casal de “Le verdadera historia de los amantes de Tristán e Isolda” e que os torna tão apaixonados, independentemente de suas ações e das consequências que elas possam vir a ter.

Outro ponto interessante do conto de Cunqueiro é o fato de que Tristán não se apaixona pela mulher Isolda, até porque não conhecia pessoa que assim se chamasse, mas pela Isolda que não existia, a Isolda da novela. Em uma adaptação televisiva de “Tristán Garcia”, exibida na “Televisão de Galicia” em 1989, o protagonista diz “estar apaixonado por uma mulher que não conhece”. Na verdade Tristán não estava enamorado de nenhuma entidade realizada no mundo, mas sim de um sentimento provocado pela leitura que fizera. A paixão pelo sentimento e não pelo indivíduo, o anseio pelo ideal, pelo que é impassível de concretização e uma certa saudade são impressões típicas do substratum céltico:

A expressão mais intensa e elevada da saudade encontra-se no anelo mais característico dos poetas célticos, o anelo do impossível. Esta é a saudade pura, porque não pode ver-se satisfeita, e nela tem relativamente pouca importância o desejado em comparação com o acto de desejar. Esta forma de saudade revela-nos que nela o fundamental é o anelo e não o anelado… (Castro apud LAPA, 1981, p.345)

A paixão que independe de corpo, supera a vontade e subjuga a consciência tem sua razão de ser porque aponta para um fim: o amor eterno. Qualquer paixão que se realize tem um prazo determinado para acabar: o prazo do corpo. O corpo é a condição sine qua nom para existência da vontade e da consciência; com a morte do corpo, qualquer sentimento que se baseie nesses princípios cessa. Porém um sentimento como o de Tristão de “La verdadera historia de los amantes de Tristán e Isolda” ou do Tristán de “Tristán Garcia”, que se nutre de si mesmo, extrapola os limites da vida e morte e do tempo e espaço. O amor que não se realiza parece fugir de um sentimento que o filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche descreveu como “a melancolia da coisa acabada”. Uma vez que se concretiza no corpo e na esfera do real, o amor, agora melancólico, fica restrito a este âmbito. É grande apenas aquilo que é impossível, que não se concretiza e aí novamente vemos ressurgir o anelo saudoso dos celtas.

"Os outros feirantes", novela de Álvaro Cunqueiro na que se acha o relato "Tristán García"
“Os outros feirantes”, novela de Álvaro Cunqueiro na que se acha o relato “Tristán García”

Tristán Garcia ouve falar de uma tal Isolda, viúva e vendedora de churros, que vive em Venta de Baños e quase que imediatamente sai para encontrá-la. A naturalidade com que Cunqueiro vai conduzindo a narrativa para o seu clímax, bem como a ambientação cotidiana e prosaica, não diminuem a ordem de grandeza do desfecho. Pelo contrário, torna-a mais vívida para nós que hoje vivemos em tempos tão diferentes daqueles em que se deu “La verdadera historia de los amantes de Tristán e Isolda”. Ao chegar ao local onde Isolda vende seus churros, Tristán se depara com “unha velliña co cabelo branco, fermosos ollos negros, a pel tersa, as mans moi graciosas…” e é ela a Isolda que tanto procurou. Ao se apresentar como Tristán e dizer que estava ali para conhece-la, escuta de Isolda o seguinte:

– ¡Tristán! ¡Tristán querido!, puido dicir ao fin. ¡Toda a miña mocidade agardando a coñecer un mozo que se chamase Tristán! ¡E como non viña, casei cun tal Ismael, que era de Madrid!

Essa fala concretiza em “Tristán Garcia” a projeção do mito ancestral. As duas personagens reconhecem a ligação que têm, cuja origem única está nos nomes que possuem e na história que seus homônimos viveram. Novamente o amor de Tristán e Isolda se encontra embargado, dessa vez pela diferença de idade. Outro fator que conecta “La verdadera historia de los amantes de Tristán e Isolda” e “Tristán Garcia” é o fato de que há outro homem que se interpõe entre os dois amantes: em uma história é o Rei Marcos da Cornualha e em outra é Ismael de Madrid (VEGAS, 1995, p.301). Se por um acaso do destino Tristán Garcia pudesse ter chegado até sua Isolda quando ela era uma mulher mais jovem, então toparia com seu marido e mais uma vez não poderia satisfazer seus anseios.

A beleza única de “Tristán Garcia” está no fato de Álvaro Cunqueiro ter conseguido, com uma maestria quase inacreditável, captar toda a sensibilidade presente no mito de Tristão e Isolda. É bem verdade que o cenário das narrativas difere muito entre si; o ingênuo Tristão e a velha simpática que é Isolda, fora os nomes, nada têm em comum com as personagens de “La verdadera historia de los amantes de Tristán e Isolda”. Ainda assim a grandeza do amor e o anelo impossível, através imagens tão simples, continuam reverberando em todos que leem “Tristán Garcia”. Álvaro Cunqueiro, longe desfigurar o mito, enriqueceu-o com tão profunda contribuição e fez com que ele chegasse a seus leitores. “Porque esta é a maneira do mito existir: variando.” (Guimarães apud FRANCH.INI & SEGANFREDO, 2013).

Álvaro Cunqueiro, além de eternizar o mito de Tristão e Isolda através de “Tristán Garcia”, engrandeceu singularmente a língua galega com tal narrativa. Por esse motivo ele afetou diretamente o povo galego, pois estava ciente de que “[…] la duración del idioma es la única posibilidad de nosotros duremos como pueblo. Se hoje, mil primaveras depois (quem sabe?) ainda ouvimos falar de Tristão e Isolda, que por Tristán Garcia”, por Álvaro Cunqueiro, por seu povo, cultura e língua, a Galiza dure mil primaveras mais.

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Referências Bibliográficas

FRANCHINI, A.S; SEGANFREDO, Carmen. As 100 melhores histórias da mitologia: deuses, heróis, monstros e guerras da tradição greco-romana. Porto Alegre, L&PM, 2013.

LAPA, Manoel Rodrigues. Lições de literatura portuguesa. Coimbra, Coimbra Editora, 1981.

RITA, Clara Santana. Tristão e Isolda: mito e magia. Universidade Autónoma de Lisboa. 2010. Disponível na internet em:

< http://www.uniabeu.edu.br/publica/index.php/RE/article/viewFile/17/pdf_13> Acesso em 27/12/2014

VEGAS, Alicia Casado. Dos lécturas contemporáneas del mito de Tristán: Antonio Prieto y Álvaro Cunqueiro. Revistas Científicas Complutenses, n°13. Universidade Complutense de Madrid, 1995. Disponível na internet em:

< http://revistas.ucm.es/index.php/DICE/article/viewFile/DICE9595110295A/13098> Acesso em 27/12/2014

SITES

Gallicia Espallada: Unha recolleita da cultura galega.

galicia.swred.com

Link para o vídeo da readaptação de “Tristán Garcia” exibida pela Televisão de Galicia:

https://www.youtube.com/watch?v=Y8xHj6rOXyw