Xosé Luís Méndez Ferrín e a reconstrução da literatura galega

Rodrigo Moura

Mestrando em Literatura Comparada na UERJ

 

Xosé Luís Méndez Ferrín, nasceu em Ourense  em 1938. Nesta cidade e em Vilanova dos Infantes passou a sua infância, nos anos da posguerra, num ambiente que influenciou todo o fazer literário do autor.

Aos onze anos mudou-se para Pontevedra e ali cursou Bacharelado e aprendeu com ele todo o ideário galeguista. Nesse mesmo tempo começou a escrever para a revista Litoral. No ano de 1955, já em Santiago de Compostela, assistiu as aulas de Otero Pedrayo na Universidade, fazendo amizade com outros grandes nomes das letras galegas.

Em 1958 mudou-se para Madri para terminar seus estudos de Filosofia e Letras, e nesta cidade, fundou junto com outros estudantes, o Grupo Brais Pinto cuja finalidade era o compromisso com o nacionalismo galego. Nos anos seguintes seguiu um curso de cultura inglesa em Oxford e viajou por vários países da Europa, entre eles França, Alemanha e Itália.

De volta à Galiza, colaborou ativamente na vida sócio-política e cultural da região e em 1964, participou em conjunto com Luís Soto e Celso Emílio Ferreiro, da fundação da Unión do pobo galego (UPG).

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Além do seu importante papel como cronista, crítico e pesquisador, a obra literária de Xosé Luís Méndez Ferrín canaliza-se frente à poesia e à narrativa, fundamentalmente. E justamente nesses dois gêneros, Ferrín projeta toda uma estética inovadora, mantendo-se distante da estética realista que vinha sendo quase a única opção dos escritores de postura marxista.

A sua obra é o resultado de uma espécie de assimilação marcadamente pessoal de influências culturais diversas, proveniente da literatura galega e das letras universais.

O seu primeiro livro de poemas, Voce na néboa (1975), já prefigura, de certa forma, a criação de mundos autônomos, com o decorrer incensante das coisas, a procura da essência do “eu”.

Con pólvoras e magnolias (1976) rompe drasticamente com o realismo cuja obra tem influência de autores mais novos. O conjunto de poemas discorre entre o rigor ideológico e beleza dos elementos pólvora – significando revolução, reveindicação- e magnólias – significando culturalismo, intimismo e formalismo.

Nos diversos poemas, Ferrín declara poeticamente a sua concepção dinâmica e fluente da vida, com uma imagem recorrente do rio, símbolo do futuro e da natureza. O passar do tempo deixa no autor um pouco de tristeza, posto que a fadiga existencial são as bases de sua poesia.

No que tange à obra narrativa de Méndez Ferrín, a intensidade e o elemento insólito (estranho) concedem ao autor um lugar de destaque dentro do cânone das letras galegas, especialmente em se tratando do gênero conto. Aos dezenove anos, Ferrín escreve Percival e outras historias (1958) obra composta por quatorze relatos que caminham em direção ao irreal, com a presença frequente do elemento ilusório e a presença de personagens e espaços com nomes exóticos, além da vivência de situações violentas, típicas da chamada Nova Narrativa Galega.

Em O crepúsculo e as formigas (1961), o autor explora os quadros mais obscuros da existência humana, com personagens movidos por forças estranhas que impõem um destino totalmente trágico.

Retorno a Tagen Ata (1971) trata-se de um relato breve com fundo alegórico, que inaugura a obra de Ferrín num espaço mítico, o país de Tagen Ata, no qual voltará a aparecer em livros posteriores. A narrativa relata o retorno de uma personagem exilada à Galiza, nesse sentido, a mesma vê um ambiente de miséria e tristeza advindas da guerra civil e da ditadura franquista, fazendo-nos repensar o que significa ser galego.
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Parte da narrativa de Méndez Ferrín aparece atravessada pela presença do espaço mítico de Tagen Ata: um mundo imaginário que, às vezes, se identifica com outros espaços e, ao mesmo tempo, se contrapõe à realidade histórica de Galiza e do que, em diferentes livros e relatos, se nos mostram fragmentos e personagens a ele pertencentes, o país de Tagen Ata.

A violência, o cárcere, a liberdade, o compromisso, a traição, o amor e a nostalgia são alguns dos motivos e paixões humanas que a narrativa de Ferrín explora, desde perspectivas inovadoras na sua concepção e tratamento: o aspecto absurdo, indefinido ou singular dos comportamentos e emoções revelam o caráter contraditório e polimórfico do ser humano, dentro de uma visão globalizadora da existência.

Ferrín representa essa vontade de inovação da narrativa galega, através da implementação de novos traços estilísticos na prosa: harmonia e intensidade dos relatos. Desta forma, a obra de Xosé Luís Méndez Ferrín eleva-se como uma obra aberta que precisa do concurso do leitor para se compreender o seu sentido, por mais que este parece escapar sempre de uma significação imediata e firme.

 

Minicurso con Rosario Álvarez na UFF

Do 22 ao 24 de abril en horario de 14,00 a 18,00 h., na Sala 501 do Instituto de Letras da UFF, o Núcleo de Estudos Galegos da Universidade Federal Fluminense -dentro do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem- organiza o minicurso Galego e português, uma origem, duas línguas, que será impartido por Rosario Álvarez, profesora de Filoloxía Galega da Universidade de Santiago de Compostela e investigadora do Instituto da Lingua Galega.

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O cinema como reconstrução da memória: O lapis do carpinteiro

Rodrigo Moura

Mestrando em Literatura Comparada na UERJ

 

A literatura, o cinema e outros tipos de arte tiveram uma importância inimaginável no que tange ao processo de reconstrução da identidade e da memória galega, posto que através desses tipos de manifestações artísticas foi possível manter viva toda a cultura e história galega que durante muito tempo sofreu com a repressão e a censura do governo espanhol.

O filme  “O lápis do carpinteiro” dirigido por Antón Reixa é uma releitura do livro de mesmo nome do autor galego Manuel Rivas. Nesse longa que se passa em Santiago de Compostela e na Corunha, podemos ver a dura realidade galega durante o início da ditadura de Franco em meio a prisões, torturas e mortes.

O lápis do carpinteiro começa numa espécie de cabaré, localizado na fronteira entre Portugal e Galiza, em que um velho conta suas memórias a uma prostituta. Em um certo momento a mulher indaga sobre o lápis que o homem carrega na orelha e ele retruca perguntando se ela gostaria de saber a história daquele lápis e assim com o auxílio do “flashback” inicia o filme.

ImaxeMarisa e Daniel abraçados

Santiago de Compostela – 1936, “Pouco antes do Golpe de Estado”, diz uma legenda logo no início do filme. Logo após uma cena de uma reunião do Estatuto de Galicia, espécie de organização que luta pela Autonomia e pela causa galega, Daniel La Barca, médico e comunista, inicia um discurso sobre a importância do voto feminino e da participação efetiva das mulheres na vida política. Ele é intensamente aplaudido por Marisa que está totalmente apaixonada pelo médico.

Em uma outra cena, vemos a cúpula militar tramando contra os comunistas, anarquistas e socialistas com o auxílio de uma lista, típica de governos ditatoriais, onde o nome de Daniel consta como um dos principais inimigos dos militares. Com a ajuda de fotos, dados e informações, os militares descobrem que Daniel nasceu no México e que exerce a medicina em Santiago de Compostela, além de ter ao seu lado anarquistas e comunistas.

Daniel é preso sem motivo aparente pelos militares quando este visitava Marisa em uma loja de vestidos de Santiago de Compostela. Marisa e as outras mulheres gritam e aos berros chamam os militares de “cabróns”, pedindo a liberdade de Daniel.

Pouco a pouco instaura-se o governo militar em Espanha, e Galiza vem sofrendo uma série de imposições culturais, como por exemplo: adotar o castelhano como única língua digna de ser falada. Pelas ruas ouve-se “Arriba España” e prisões sem motivos se espalham pela capital galega.

No Presídio Municipal, médicos, artistas, sindicalistas e professores se questionam sobre o porquê das prisões e sobre os novos rumos da República. Nesse momento um pintor se dá conta de que seu lápis está gasto de todo e um carpinteiro lhe dá um novo para que ele possa continuar suas caricaturas, uma forma de resistir, uma forma de sobreviver ao cárcere – a arte.

Marisa, que é filha de um grande fidalgo aliado aos militares, Don Beito, sofre com a prisão de Daniel e tenta encontrar alguma forma de vê-lo. Entretanto, seu pai deseja que ela case com um soldado.

Na prisão, o pintor começa a contar uma história a fim de manter os ânimos calmos e esquecer do cárcere. A história, na verdade uma lenda, fala sobre duas irmãs: uma chamada morte e outra vida. As duas tinham muitos pretendentes e resolveram fazer uma promessa de fidelidade eterna ao homem que melhor tocasse algum instrumento. Numa certa noite as duas foram a um baile, a irmã morte com seus sapatos brancos e a vida os negros, foram dançar em um lugar onde todos os rapazes da comarca ficavam. Durante a noite houve um naufrágio: “Esse é um país de naufrágios” brinca o pintor. Quando o barco afundou de todo alguns instrumentos chegaram até a costa e um pescador distraído encontrou um acordeon e tocou intensamente. A irmã vida apaixonou-se loucamente pelo pescador e a irmã morte, invejosa, ficou triste e agora vaga pelos caminhos, sobretudo no frio, procurando seu músico. Ela vai até a casa das pessoas e pergunta se alguém ouve o acordeonista e se não há respostas, a morte leva a pessoa consigo.

Após esse episódio, um soldado pede ao pintor que o acompanhe. Numa série de torturas e humilhações, o pintor é morto com um tiro na testa. O soldado antes de matá-lo pede desculpas e pega o lápis de carpinteiro que o pintor levava em sua orelha. No momento da morte, surge algumas cenas por meio de “flashback” em que o soldado vê seu pai matando um lobo e pede desculpas por fazê-lo. Nesse sentido, pode se fazer alusão à máxima de que “o homem é o lobo do homem”.

Daniel é transferido para uma espécie de Campo de Concentração na Corunha e Marisa fica sabendo. Ela vai até à Corunha visitá-lo, porém Daniel pede que a mulher se afaste dele e nunca mais volte a aquele lugar. Enquanto isso, nos campos mais mortes e torturas acontecem.

Imaxe Luís Tosar interpretando um soldado espanhol

O médico Daniel é levado a um campo de extermínio e sobrevive. Nesse momento, a Igreja entra em cena ao lado do governo fascista. Um padre dita as normas dessa nova sociedade espanhola e os presos respondem com uma crise de tosse que conseguem calar o padre. Os militares se espantam com a cena e gritam “Espanha” e os presos retrucam “Livre”.

Mais uma vez Daniel é levado pelos militares e sobrevive, fazendo jus a sua figura de herói romântico. De volta ao cárcere, Daniel encontra seus companheiros. Um deles, o cantor, inicia um belo canto “Foi coma un soño que nunca existiu”. Os militares, com sua intolerância, levam o cantor para a morte, mas ele deixa essa canção como grito de ordem para os que ainda resistem.

Daniel é julgado pelos militares e fica decidido que ele pode voltar ao México, seu país de origem. No trem que vai de Santiago para a Corunha, o médico encontra Marisa. Os dois, sob vigia dos militares, conseguem ter uma noite de amor no hotel onde Daniel se hospedara antes de voltar a seu país.

O filme termina como no início. O cabaré surge de novo em cena e o velho finda a história do casal, dizendo que Daniel e Marisa foram para o México e que só retornaram à Galiza com a morte do General Franco. O velho, debilitado, resolve sair do cabaré e encontra um cachorro raivoso. Ele saca a arma, pede desculpas e inicia os disparos, mas nenhum acerta o animal. O velho cai morto, é amparado pelas prostitutas e o filme termina de forma épica.

Como pudemos observar a partir dessa pequena resenha, o ato de “ser galego” foi quase um crime durante a ditadura franquista. Os galegos foram presos, torturados e mortos. E esse filme de Antón Reixa cujo fundo romanesco traz à tona inúmeras questões sobre a barbárie galega. O cinema, permite, então reavivar a memória galega para que esses capítulos terríveis jamais caiam no esquecimento.

Centro Galego de Buenos Aires: Uma experiência

Centro Galego de Buenos Aires: Uma experiência

Rodrigo Moura (Mestrando – UERJ)

A Literatura e a cultura galega são objetos dos meus estudos há cerca de 3 anos desde quando assisti pela primeira vez a Jornada das Letras Galegas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e me vi encantado e ao mesmo tempo perturbado pela literatura galega.

No Brasil, há alguns centros que investigam a língua e a literatura galega. Poder-se-ia citar o PROEG (Programa de Estudos Galegos) da UERJ, o NUEG (Núcleo de Estudos Galegos) da Universidade Federal Fluminense e o  Celga (Centro de Estudos da Língua e Cultura Galegas) da Universidade Federal da Bahia. Entretanto, no que tange à vida acadêmica, nota-se um certo esquecimento de boa parte do ensino da língua galega e da literatura contemporânea. O que se sabe sobre Galiza nas Universidades diz respeito às cantigas e à lírica medieval.

No início da pesquisa, me encontrei um pouco perdido, posto que as fontes em galego estavam um pouco fragmentadas e confusas. O mundo galego ainda se abria sobre minha mente quando tive contato com A esmorga de Eduardo Blanco-Amor. O amor pela Literatura galega veio após muito trabalho e noites mal dormidas a ler toda a obra de Xosé Luís Méndez Ferrín, meu atual objeto de estudo no Mestrado em Literatura.

Durante a pesquisa, descobri que o centro galego de Bos Aires, ou Buenos Aires, teve um papel fundamental na sobrevivência da literatura galega durante a Guerra Civil Espanhola:

“A cultura galega e, xa que logo, a súa literatura, tivo que refuxiarse no entusiasmo esperanzado dos exilados ultramarinos e tardaría en intentar unha tímida saída á luz no seu propio chan. De feito, foi en America, sobre todo na latina e, dentro dela, en Bos Aires, onde atopamos un certo movemento cultural galeguizante que paliou nalguma medida, o grande trauma que tivo que sufrir a terra nai” (Varela, 1994, p. 300)

O Centro Galego de Buenos Aires foi criado a partir de inúmeras reuniões com representantes de várias associações e membros responsáveis pela cultura galega, mais especificamente no dia 2 de maio de 1907 na rua Alsina 946, casa do presidente do Centro de Vigo, don Antonio Varela Gomes. Em 1917 o Centro mudou-se para a rua Belgrano 2189. O Centro serviu de refúgio para exilados, com auxílio médico e social, além disso serviu como um grande impulsionador da literatura e cultura galega. É importante lembrar que muitas obras clássicas da literatura galega foram produzidas dentro da Galiza americana, poder-se-ia citar a figura de Castelao, um dos maiores nomes das letras galegas de toda a história.

 

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Entrada do Centro Galego de Buenos Aires

Em outubro de 2013, tive a grande a oportunidade de conhecer o Centro Galego de Buenos Aires, na Argentina. Fui com o sentimento de um pesquisador que necessita ter o contato vivo com o seu objeto de estudo. Caminhei da Avenida Corrientes até a Belgrano com várias dúvidas sobre o que encontraria dentro do Centro Galego. Além disso, me pus a perguntar a algumas pessoas se conheciam o tal centro e as respostas não foram muito entusiasmadas.

Finalmente cheguei ao Centro Galego, quase que não percebi sua faixada simples e singela, nesse instante me vi diante de um filho que volta à pátria. Nesse momento eu me senti um galego, um legítimo galego que volta à sua terrinha. Dentro do Centro fui até a recepção perguntar sobre uma visita guiada pelo Centro, entretanto a senhorita que me atendeu disse que precisava chamar o responsável pelo Departamento de Cultura, mas que eu não devesse ter muitas esperanças, pois o Centro Galego é hoje um hospital e suas obras estavam “escondidas”. Fiquei um tanto decepcionado, mas olhei para a estátua de Rosalía de Castro no hall de entrada do Centro e mantive minhas forças.

 

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Estátua de Rosalía de Castro na entrada do Centro Galego

Em seguida, me veio um senhor chamado Vitor, falou comigo em galego e me apresentou toda estrutura do Centro. Me explicou que o Departamento de Cultura no Centro hoje funciona com muita dificuldade, posto que o Centro Galego tornou-se um hospital de referência e fica um tanto complicado desenvolver qualquer trabalho cultural em meio a doentes e camas de hospital. Mesmo assim, Vitor me disse que havia um grande acervo de obras, livros, pinturas e, além disso, me apresentou ao Teatro Castelao. Lembro “que emoción fonda a miña introducíndome na fraga a procura do meu”. Percebi que o Centro estava repleto de obras espalhadas e, na sua maior parte, escondidas do grande público. Por exemplo, há inúmeros quadros Soto Mayor, cópias de livros de Vicente Risco, Otero Pedrayo e Castelao.Além disso, Centro conserva intacto o quarto onde morreu nosso ilustríssimo Castelao.

 

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                  Quarto onde morreu Castelao no Centro Galego

Minha experiência no Centro Galego de Buenos Aires foi de extrema importância para continuar minha pesquisa e meus estudos em Literatura Galega, posto que compreender o que é ser galego, o que é escrever em galego, o que é viver em galego não uma das tarefas mais fáceis. O Centro Galego representa uma Galiza viva, uma Galiza produtiva, uma Galiza ceibe.

Referências Bibliográficas:
– VARELA, Anxo Tarrío. Literatura Galega: aportacións a unha Historia Crítica. Edicións Xerais de Galicia: Vigo, 1994.
– Revista del Centro Gallego de Buenos Aires, nº 684, Octubre de 2007
 
 
Sobre o autor: 

Rodrigo Barreto da Silva Moura estuda Mestrado (Conceito CAPES 4) em Literatura Portuguesa e Galega Contemporânea pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e  é Bacharel em Letras (Português-Francês) pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2013). Tem experiência na área de Literatura Portuguesa, sobretudo no estudo comparativista entre textos desenvolvidos na Galiza e em Portugal do final do século XX e início do século XIX. Estuda o processo de Identificação dos Sujeitos, ou seja, como a Literatura Contemporânea, sobretudo as obras de Xosé L. M. Ferrín e José Saramago, retrata e representa o indivíduo inserido na chamada Modernidade Tardia, a partir de uma concepção Sociológica, Antropológica e até Psicanalítica, visando compreender o complexo processo de construção e (re)construção da Identidade.

Segunda intervención de Rosario Álvarez no Rio. Desta volta na UFRJ

Após a profesora Rosario Álvarez encher o salón onde tivo lugar a súa palestra na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, os días 2 e 4 de abril terá lugar unha nova intervención da profesora da Universidade de Santiago. Desta volta na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

02/04/2014
09h20 – 11h00 | Auditório C-3
Da Gallaecia a Galicia. Breve noticia da orixe, historia e presente da lingua galega

04/04/2014
09h20 – 11h00 | Auditório C-3
Galego e portugués: afinidade e diverxencia

Toda a información en: http://www.letras.ufrj.br/images//ciclo_conferencias.pdf

 

Rosario Alvarez no Rio

 

Un intre da intervención de Rosario Álvarez na UERJ 

 

Rosario Álvarez na UERJ nun acto do Programa de Estudos Galegos

A vindeira segunda-feira 31 de marzo ás 10:30 horas terá lugar un acto na UERJ no que contaremos con Rosario Álvarez, profesora da Universidade de Santiago e membro da Real Academia Galega. Realizarase na Sala RAV 114 e a profesora dará unha palestra baixo o título “Unha orixe, dúas linguas: galego e portugués, afinidade e diverxencia”.

Rosario Álvarez

Catedrática da área Filoloxías galega e Portuguesa. Docente na Facultade de Filoloxía e investigadora do ILG. Licenciatura e grao en Filoloxía Románica (1974), doutoramento en 1980, sempre na USC.

Actividade investigadora centrada na variación e cambio lingüístico do galego, sobre todo diatópica, á procura da mellor descrición do galego moderno; pola mesma razón, interésase pola gramática contrastiva portugués-galego (PE e PB). Tamén se ocupa da edición e estudo de textos do “galego medio”, de novo á procura do mellor coñecemento da evolución diacrónica e diatópica camiño do galego contemporáneo.

Membro do equipo do Atlas Lingüístico Galego desde os inicios. Coautora de dúas gramáticas do galego, con Monteagudo/Regueira (1986) e Xove (2002); IP do equipo redactor da gramática da RAG. Directora do Tesouro do léxico patrimonial galego e portugués, no que colaboran equipos de Galicia, Portugal e Brasil. Directora da revista Estudos de Lingüística Galega.

Foi Vicerreitora de Profesorado (1990-94), Directora do Departamento de Filoloxía Galega (1995-99) e do Instituto da Lingua Galega (2005-13). Académica numeraria da Real Academia Galega (2003); dirixe o Seminario de Gramática e forma parte da Executiva, como Tesoureira (2013). Vicepresidenta do Consello da Cultura Galega (2010);  coordinadora da sección de Lingua, Literatura e Comunicación, á que pertence desde a creación.

 

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Elena Gallego no Rio de Janeiro. Entrevista

Nos últimos días a escritora galega Elena Gallego estivo no Rio de Janeiro e en Brasilia, participando do XI Encontro Internacional de Escritoras. Non podiamos deixar pasar esta ocasión para nos entrevistar con ela e lle preguntar pola súa exitosa saga Dragal e pola súa recente achega á novela negra na nosa lingua, Sete caaveiras.

Biografía: http://www.xerais.es/autores.php?tipo=autores&id=100030669

Antes de nada, que tal a túa estadía polo Brasil e no Río de Janeiro?

Foi unha grande experiencia, curta pero moi intensa, cunha axenda ateigada de compromisos. Na miña visita ao Río tiven oportunidade de entrevistarme con editores cariocas cos que xa contactara dende Galicia, e que están interesados na miña obra literaria. Pero o principal obxectivo da viaxe era participar coa miña saga Dragal no XI EIDE, Encontro Internacional de Escritoras promovido pola Academia de Letras e Música do Brasil. Celebrouse do 13 ao 17 de marzo na capital federal, Brasilia, reunindo a escritoras, xornalistas, editores e formadores de opinión de varios países. Este foi un fantástico foro para facer novas amizades e contactos aos que dar a coñecer os meus libros. Agora, coa semente botada, agardo que a maxia do dragón galego non tarde en prender nesa outra beira do Atlántico.

Comezamos con Dragal. Sétima edición en catro anos de A herdanza do dragón; traducións asinadas en catalán, castelán e inglés; videoxogo e serie de televisión de camiño… Sentes vertixe?

Se me deteño a reflexionar, si, e coido que non é para menos. Ademais das traducións xa comprometidas e das que poidan xurdir trala miña visita ao Brasil, Dragal tamén está en mans dunha importante editora francesa, conta con aliados en Italia e Portugal, o proxecto audiovisual será presentado na próxima MICSUR que se celebra na Arxentina… Por sorte, dende os últimos meses estou tan ocupada en acompañar os meus libros polo mundo adiante que non teño tempo de pensar no alcance que pode acadar a saga se continuamos con esta progresión. Ás veces teño a sensación de formar parte dun soño, porque estas cousas non acontecen na “vida real”. Cando escribín a primeira novela, para o meu fillo, nin sequera podía imaxinala publicada. E xa ves…

Nos tempos que corren poucas obras na nosa literatura están conseguindo venderse con tanta facilidade. Por que cres que a xente compra Dragal? Cales son as chaves do éxito?

A maxia das súas páxinas está conseguindo ilusionar a moita xente, lectores de todas as idades e profesionais do mundo editorial e audiovisual. Mais ese éxito é o resultado de moito traballo silencioso. Detrás de cada libro de Dragal está o labor de todas e cada unha das persoas que cren na maxia deste dragón galego: dos editores que decidiron publicalo, comezando por Manolo Bragado e todo o equipo de Xerais; do ilustrador Miguel Abad, que realizou as fantásticas cubertas; dos libreiros que len e recomendan Dragal porque lles gusta; dos profesores dos centros de ensino galegos que elaboran as súas guías didácticas e o levan ás aulas… E, por suposto, os milleiros de lectores que se se están unindo á Fraternidade do dragón galego. Esa maxia é contaxiosa e agora comeza a estenderse polo mundo.

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XI Encontro Internacional de Escritoras celebrado en Brasilia

– Hai quen te chama xa a J.K. Rowling galega, que che parece?

Xa me gustaría que a maxia de Dragal chegase tan lonxe como a do mago Harry Potter! Cantos millóns de libros vendeu xa? (Risas). O certo é que a primeira vez que un xornalista levou esta comparación aos titulares deixoume sen fala. Ser comparada con J.K.Rowling é un reto e unha gran responsabilidade. Dragal e Harry Potter son dúas obras moi diferentes, aínda que comparten un obxectivo: espertar o interese dos rapaces pola lectura. Eu, ademais, pretendo espertar a súa curiosidade polas nosas lendas, cultura e historia.

Dragal e Harry Potter son dúas obras moi diferentes, aínda que comparten un obxectivo: espertar o interese dos rapaces pola lectura. Eu, ademais, pretendo espertar a súa curiosidade polas nosas lendas, cultura e historia.

– Necesitaba a mocidade un Dragal na literatura galega para se prender dela?

Os libros que lemos de cativos e durante a mocidade son os que marcan a nosa vida, os que nos enganchan á lectura ou nos frustran para sempre. Nesa opinión coincido con grandes autores galegos como Fina Casalderrey ou Agustín Fernández Paz. Nese senso, a combinación que Dragal fai de fantasía, historia e realidade conseguiu engaiolar milleiros de rapaces que devecían por unha historia así. Salvando as distancias, un fenómeno semellante ao que xerou J.K.Rowling co seu Harry Potter. Cando xurdiu Dragal, esta obra foi pioneira en Galicia (trátase da primeira triloxía fantástica creada en lingua galega, non o esquezamos). Hoxe xa hai novos escritores e editoras traballando nesta liña de ficción fantástica, con grande acollida por parte da mocidade. Isto é unha boa noticia para a literatura galega, que vive un momento creativo excepcional. E tamén para os novos lectores.

– Literatura infanto-xuvenil ou novela para todos os públicos?

Gustaríame fuxir das etiquetas, porque Dragal é unha saga con seguidores moi diversos. Novela fantástica, novela histórica, novela de aventuras, novela xuvenil… Eu reto os lectores de todas as idades a acompañar os meus personaxes ata que baixan ás catacumbas. E despois, que eles mesmos decidan.

– Neste 2014 atréveste coa novela negra con Sete caveiras. Unha mudanza necesaria?

Despois de catro anos vivindo no universo de Dragal, necesitaba explorar outros territorios aínda salvaxes. Concibín Sete Caveiras coma un xogo. O meu reto era emular e actualizar un clásico de Agatha Christie, Dez Negriños, inseríndolle clicks de Famobil, banda sonora da Movida e paisaxes da ría de Vigo. O resultado é unha novela que, iso din os seus lectores, engancha.

– A crítica literaria Dolores Vilavedra afirmaba hai uns días que “a literatura galega actual quedou sen líderes de referencia”. Como ves o panorama da nosa literatura hoxe?

Complicado. A cuestión non é ter ou non ter escritores “líderes de referencia”, que algún pode haber, senón que as dificultades económicas están afogando un sector editorial que vai camiño da extinción. En Galicia escríbense cada ano ducias, centos de libros que nunca verán a luz. Cada exercicio, o sector publica varios milleiros de libros menos que no anterior. Nestas condicións, máis que líderes precisamos superviventes. Cantos escritores verdadeiramente profesionais temos en Galicia? Mellor non botar contas!

En Galicia escríbense cada ano ducias, centos de libros que nunca verán a luz. Cada exercicio, o sector publica varios milleiros de libros menos que no anterior. Nestas condicións, máis que líderes precisamos superviventes.

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Alter, inseparábel de Elena Gallego, no Rio de Janeiro

– Estes días estiveches no Río de Janeiro e en Brasilia. Hai no Brasil interese pola nosa literatura?

No Brasil atopei unha gran curiosidade por este recunchiño que chamamos Galicia. Sorpréndelles a facilidade coa que entenden a nosa lingua irmá e iso ábrenos as portas para falarlles da nosa literatura. A nivel profesional, como escritora, eu sentinme “na casa”.

– Está en perspectiva a tradución das túas obras ao portugués?

Nesa liña estou traballando, con moi boas perspectivas neste momento. Os editores cos que tiven oportunidade de entrevistarme no Río de Janeiro e Brasilia, cos que xa contactara antes de viaxar ao Brasil, amosaron o seu interese polos meus libros. A miña participación no XI EIDE permitiume presentar o dragón galego en sociedade, cunha excelente acollida. Ao tempo, tamén manteño contactos cunha importante editora en Portugal.

– Que plans de futuro nos podes adiantar? Algunha novidade proximamente?

O meu obxectivo literario prioritario é a cuarta entrega de Dragal, que estou rematando. O meu reto, cando comecei a escribila hai un ano, era construír unha novela que superase as anteriores. Non sei se o conseguirei, mais podo avanzar que será trepidante, con novos personaxes e moitas sorpresas. E despois… Teño outra grande historia no forno, da que aínda non vou falar. Non debo.

No Brasil atopei unha gran curiosidade por este recunchiño que chamamos Galicia. Sorpréndelles a facilidade coa que entenden a nosa lingua irmá e iso ábrenos as portas para falarlles da nosa literatura. A nivel profesional, como escritora, eu sentinme “na casa”.

– Agora brevemente…

 O mellor e o peor do Río e do Brasil

O mellor, a fragrancia das froitas tropicais e as paisaxes. O peor, as desigualdades sociais e certa sensación de inseguridade.

Un lugar no Río de Janeiro

Imprescindible subir ao Pão de Açúcar e ao Corcovado, para gozar dunhas incribles vistas. E pasear as praias de Flamengo, Botafogo, Copacabana, Ipanema, gozando das paisaxes.

Un autor/a galego e unha brasileira/o

Estou lendo a última novela de Pedro Feijoo, A memoria da choiva, e Brasil descubriume a poesía de Cecília Meireles.

Un desexo para o futuro

Volver ao Río de Janeiro para a presentación da edición brasileira de Dragal. Cando sexa, estades todos convidados a acompañarme.

As galegas e galegos no Rio de Janeiro. Un bocadiño de historia

Pouco se ten escrito sobre os galegos e galegas na cidade de Rio de Janeiro. Nos últimos anos estudos interesantes comezan a agromar sobre esta temática, salientando especificamente os traballos de Erica Sarmiento, “O outro Río: A emigración galega a Río de Xaneiro.”, do ano 2006, e a tese de doutoramento do profesor na Universidade Federal de Goiás,  Antom Corbacho, “A Aculturação e os Galegos do Brasil: O Vazio Galeguista” do ano 2009. Como primeiro chanzo no coñecemento da situación das galegas e galegos no Brasil, deixamos hoxe este artigo breve de Mariana González L. Novaes, publicado en maio de 2013 polo Seminário Nacional de Memória Social.

OS “GALEGOS DA GALÍCIA” NO RIO DE JANEIRO
Mariana Gonzalez Leandro Novaes

PARTE I – O CONTEXTO BRASILEIRO
Quando em 1888 é assinada a Lei Áurea renunciando a escravidão, em pouco tempo o Segundo Reinado não se sustenta mais dando início à República Velha. Neste momento o plantio e exportação do café no Oeste Paulista estava em ascensão, enquanto que os produtores do Vale do Paraíba, principalmente após o fim do regime escravista, estava em decadência. Como ainda iniciavam sua produção, os paulistas rapidamente se readaptaram ao novo regime investindo na mão de obra européia imigrante para trabalhar em suas fazendas de café.

Desde esse período a identidade nacional brasileira era discutida. O indivíduo brasileiro era visto como o resultado da fusão das raças branca, negra e indígena. No entanto, tal mistura era vista de maneira negativa pelos pensadores1 do fim do século XIX, sobretudo a mistura com os negros e mestiços, que eram considerados de raça inferior.

Acreditava-se que devido à grande população de híbridos o Brasil não teria lugar entre as “nações civilizadas do mundo”. (OLIVEIRA, 2001, p. 9-10) Para Boris Fausto (2001) esse pensamento justificaria o motivo de os fazendeiros da época não empregarem os negros após a abolição optando por incentivar a mão de obra de imigrantes europeus para trabalhar em suas terras. Boris acredita que o preconceito por parte dos fazendeiros era tamanho ao ponto de impedir que se imaginasse uma mudança do regime de trabalho que aproveitasse a força de trabalho dos negros e, além disso, que seria pouco provável que após tanto tempo de servidão os negros se disponibilizassem a trabalhar para seus antigos senhores em uma situação não muito diferente da que já conheciam. (FAUSTO, 2001)

Seguindo esta linha de pensamento, intelectuais brasileiros do início do século XX criaram a teoria do “branqueamento” a qual norteou a política imigratória brasileira durante décadas. Acreditava-se que com o imigrante europeu o mestiço poderia ser melhorado dentro de três ou quatros gerações com a mestiçagem dando origem a uma população branca. Pensava-se que o imigrante não apenas seria uma força de trabalho, mas também que teriam papel fundamental na contribuição para o branqueamento da população brasileira fazendo submergir a cultura nacional através da assimilação dos imigrantes. (OLIVEIRA, 2001)

Durante a República Velha surgiu o problema dos “quistos sociais”, resultado da antiga política do Império de colonização de terras desocupadas. O enquistamento ocorria devido a difícil assimilação dos europeus chegados ao Brasil e o fato de que haviam sido enviados a regiões de difícil acesso e pouco contato com a sociedade brasileira, sendo o primeiro grupo a se manifestar neste sentido o alemão. Os teuto-brasileiros (tradução de Deutschbrasilianer) mantiveram o uso corrente de sua língua materna e se organizaram socialmente de maneira própria, criando o sentimento de germanidade entre os imigrantes alemães nas colônias do sul do Brasil. No começo do século XX começou-se a discutir o “perigo alemão” temendo a possível cristalização da etnicidade teuto-brasileira no território nacional, o que geraria grupos étnicos antagônicos e possíveis conflitos até mesmo armados entre nortistas e sulistas. (SEYFERTH, 1999).

Carné do Centro Galego de Río de Janeiro. A través de www.santacombanamemoria.es
Carné do Centro Galego de Río de Janeiro. A través de http://www.santacombanamemoria.es

Com isso, durante a República Velha as fazendas de café começaram a receber imigrantes de origem italiana, portuguesa e espanhola, pois eram de culturas próximas e seus idiomas têm a mesma origem do usado no Brasil, o que acreditavam ser um fator facilitador não somente para a comunicação como também para sua integração com os brasileiros, o que evitaria os enquistamentos e os imigrantes poderiam contribuir para o “branqueamento” da população negra e mestiça.

Outro critério de seleção dos imigrantes era sua capacidade de assimilação dentro da sociedade brasileira e, cada vez mais, consideravam o mais importante o seu potencial de reprodução, mesclando-se com os brasileiros, promovendo, assim, o “branqueamento” do povo. Pensavam que desta maneira iriam “melhorar a raça” ou inclusive criar uma “nova raça” no Brasil, uma vez que, para muitos, o povo brasileiro ainda estava em formação.

O que importava, em um primeiro momento, era a sua capacidade em desempenhar funções ou transmitir conhecimentos que atendessem aos interesses do país adotivo. No entanto, aparecia como sendo de extrema importância a questão do potencial reprodutor do imigrante. Falava-se em “braços” para a lavoura e a indústria, mas também em “sangue novo” ou “plasma de reprodução”, acreditando-se que os imigrantes viriam “aduzir sangue novo à nossa etnia” […].

A metáfora do sangue acompanhou a política nacional brasileira nos anos 30. Era preciso controlar a circulação desse fluxo sangüíneo representado pelo imigrante portador do “sangue-sêmen”, princípio da vida, mas também do “sangue-doença”, princípio da destruição e morte. A continuidade desse pensamento no período pós-guerra deixava clara a importância conferida ao sangue como símbolo formador da nacionalidade. (PERES, 2002, p. 91)

Para evitar os enquistamentos, a solução durante o governo de Vargas em sua campanha de nacionalização foi “o necessário ‘abrasileiramento sociocultu, o ‘caldeamento’” (SEYFERTH, 1999, p. 218). Logo, em 1937, uma das medidas do governo foi realizar uma reforma educacional proibindo o aprendizado em língua estrangeira, exigir que as instituições de ensino tivessem nomes brasileiros e que apenas brasileiros natos poderiam assumir cargos de direção. Em 1939 a campanha nacionalista se radicalizou proibindo o uso de língua estrangeira em ambientes públicos e qualquer atividade que tivesse cunho de exaltação às respectivas culturas nacionais em centros culturais e recreativos estavam proibidas. Além disso, também foi durante o período varguista que muitos estrangeiros foram expulsos do país por envolvimento com o comunismo. Tamanha era a preocupação com a postura dos imigrantes e sua “qualidade” como contribuidores para a formação do indivíduo brasileiro que em 1941 a imigração foi proibida. (PERES, 2002)

Terminada a Segunda Guerra Mundial, o processo migratório europeu voltou a crescer, o que acabou promovendo novas mudanças na política brasileira de imigração. Ainda que o Estado Novo varguista tivesse terminado, as políticas nacionalistas tiveram continuidade. A ideia de caldeamento da população brasileira com os imigrantes europeus seguiu com vigor, sempre unida ao pensamento de que esse era um dos caminhos para o progresso do país.

A imigração para o Brasil neste período foi subvencionada pelo Estado e organizações internacionais, mas também houve uma forte imigração espontânea. De 1945 até aproximadamente o momento do golpe militar, os principais imigrantes que entraram no país continuou sendo os portugueses, italianos e espanhóis, e o tipo ideal seguiu sendo o mesmo dos anos 1930: agricultores, técnicos e operários.
Dentro de todo este contexto de “criação do indivíduo ideal”, não era interessante que o imigrante viesse ao Brasil apenas para enriquecer e logo voltar a sua terra natal.

Havia a preocupação de que criassem raízes nas terras brasileiras pois apenas assim se misturariam com o povo brasileiro. No momento em que os estrangeiros são assimilados os riscos de que fossem criados quistos étnicos, como aconteceu com a colônia alemã do sul do país, diminuíam. A ideia era que se integrassem à sociedade que os acolhia e se esquecessem do que fosse exterior a ela.

PARTE II – O CONTEXTO GALEGO
A região da Galícia fica situada a noroeste da Península Ibérica, fazendo fronteira ao sul com o norte de Portugal e a oeste com o Oceano Atlântico. Além do uso do castelhano é uma região que tem seu próprio idioma, bastante similar ao português: o galego. “Os galegos sempre foram conhecidos por sua disposição de migrar para outras regiões da própria Espanha em busca de melhores oportunidades […], quando essa medida não trazia os beneficios financieiros esperados, migravam para países vizinhos”. (SOUZA, 2006, p. 31)
A presença dos galegos no Brasil pode ser percebida ainda antes da República Velha, mas foi depois da abolição que a entrada de estrangeiros teve um caráter massivo.

“Entre 1890-1929 entran no Brasil tres millóns e medio de emigrantes, dos que máis de medio millón son españois, número que a convertería na terceira colectividad extranxeira máis importante no Brasil, tras a portuguesa e a italiana” (VILLARES, 1996, p. 129).
Segundo os informes consulares, entre 60 e 70% dos espanhóis no Brasil são galegos. Tais índices podem ser explicados pela similaridade linguística do idioma galego com o português, a proximidade aos portos de embarque portugueses e a existência de uma corrente migratória prévia rumo ao Brasil intermediada por Portugal. (VILLARES, 1996)

“Entre 1890-1929 entran no Brasil tres millóns e medio de emigrantes, dos que máis de medio millón son españois (…) Segundo os informes consulares, entre 60 e 70% dos espanhóis no Brasil são galegos. Tais índices podem ser explicados pela similaridade linguística do idioma galego com o português, a proximidade aos portos de embarque portugueses e a existência de uma corrente migratória prévia rumo ao Brasil intermediada por Portugal.

Na República Velha 20% da sociedade carioca era composta por estrangeiros. Segundo o censo de 1906, havia um total de 210.515 de imigrantes no Rio, sendo 133.000 deste total portugueses, 25.557 italianos e pouco mais de 20.000 espanhóis. No censo de 1920 os espanhóis continuaram representando o terceiro grupo mais numeroso de imigrantes nesta cidade. Os imigrantes destes anos foram atraídos para o Brasil devido ao crescimento econômico que o país passava, sendo Rio de Janeiro uma das cidades mais desenvolvidas do sudeste e do sul, regiões que se concentrava 93,4% da população brasileira (SARMIENTO, 2006). Outro dado importante é que, dentro da comunidade espanhola do Rio de Janeiro, os imigrantes de origem galega também são os mais numerosos.

Érica Sarmiento destaca que:[…] antes do inicio da emigración masiva a Brasil (1890), xa había galegos que non só estaban estabelecidos na capital, cos seus negocios, senón que tamén daban traballo aos compatriotas da mesma aldea ou municipio. Podemos dicir que a pesar de non seren maioritarios, foron os pioneros e sentaron as bases do que sería a futura emigración galega a Río: espontánea, baseada en lazos de parentesco e dedicada principalmente ao ramo do comercio y hostelería.  (SARMIENTO, 2006, p. 42)

Os galegos que chegaram ao Rio de Janeiro em sua maioria imigraram de maneira espontânea e se instalaram no meio urbano. Dedicaram-se ao setor terciário, que lhes oferecia mais oportunidades de trabalho e permitia uma ascensão social mais rápida que o meio rural, ainda que a maioria fosse originária do meio agrário na Galícia. Muitas vezes tinham alguma propriedade em seu lugar de origem que poderia ser vendida ou alugada para que ajudasse nos gastos da viagem.

Nos anos 1930, a saída de galegos para a América diminuiu bastante por consequência da crise econômica, havendo inclusive um aumento do número de imigrantes retornando aos seus lugares de origem. Além disso, os países americanos começaram a mudar suas políticas imigratórias criando restrições para controlar melhor a entrada de pessoas em seus territórios. Em meados dos anos 1930, alguns países começam a superar a crise, o que acabou motivando outra vez o movimento migratório rumo à América. No entanto, a Guerra Civil Espanhola seguida da Segunda Guerra Mundial praticamente estancou em definitivo as correntes emigratórias espanholas até 1946. Com a abertura política da Espanha franquista em 1950, o investimento norte-americano e sua entrada nas Nações Unidas o país começou a dar sinais de recuperação. Porém, ainda assim, a vida seguia bastante difícil para muitos espanhóis, dando início a uma nova corrente emigratória que teve reflexos também no Brasil.

Elena Pajaro Peres assinala a peculiaridade da imigração galega para o Brasil “pelo fato de o Brasil ser um dos destinos preferidos nos anos 1950, pelo caráter rural da maioria desses imigrantes e, principalmente, por ser uma imigração não vinculada necessariamente ao antifranquismo.” (PERES, 2002, p. 37) […] a maioria dos espanhóis, nesse período, emigrou para o Brasil por conta própria, sem usufruir de qualquer assistência governamental. Entre esses, um grupo significativo provinha da Galícia […]. A emigração galega representou, em media, 39% de toda a emigração espanhola e, entre 1946 e 1960, 20% dos galegos que deixaram a Espanha vieram para o Brasil, que se tornou o terceiro destino mais procurado pelos galegos nesse momento, só perdendo para a Argentina com 35% e a Venezuela com 30%. (PERES, 2002, p. 35)

A partir da década de 1960, a emigração galega começa a diminuir e novas correntes em direção a outros países europeus são criadas. Além da proximidade geográfica com os demais países da Europa, este acontecimento pode ser explicado pelo fim do boom econômico dos países americanos e seu investimento nas migrações internas de pessoas do meio rural para os núcleos urbanos, e também pelo princípio da retomada da estabilidade econômica da Europa do pós-guerra.

Já antes do período da imigração massiva, os imigrantes que se instalaram não apenas no Rio, mas no Brasil de modo geral, eram majoritariamente homens, jovens e solteiros; tinham como destino a cidade. Sobre o caráter profissional, mais da metade eram agricultores e, ao chegarem ao Rio, se instalaram no ramo que anteriormente era monopólio dos imigrantes portugueses. (SARMIENTO, 2006)

PARTE III – OS GALEGOS NO RIO DE JANEIRO
Os espanhóis, assim como os portugueses e os italianos, eram os imigrantes que mais recebiam incentivo do governo brasileiro devido a sua proximidade cultural e linguística. No entanto, por que a presença dos espanhóis é tão pouco comentada? Este silêncio também se reflete nos estudos acadêmicos, havendo poucos trabalhos dentro desta temática no Brasil. Tal silêncio também é comentado por alguns estudiosos como Lucia Lippi de Oliveira (2006), Érica Sarmiento (2006) e Antón Corbacho Quintela (2009).

Os imigrantes galegos, além de mais numerosos entre os espanhóis, são indivíduos com cultura, língua e história própria. Por que é mais difícil ainda identificar-los? Érica Sarmiento crê que tal questão tem relação com a figura do imigrante português na sociedade carioca: Non só eran chamados galegos os naturais de Galicia, senón tamén os portugueses que estaban en Brasil. A palabra era empregada dunha forma pexoravitiva para aculmar os portugueses cando se quería insultalos. Posteriormente, o termo galego acabou estendéndose a todos os estranxeiros, e nalgunhas rexións brasileiras, a palabra define as persoas de pel moi clara e cabelos louros. Así, os verdadeiros galegos, cando non aparecen ocasionalmente en obras sobre a emigración, española en xeral, preséntanse camuflados baixo a figura dos portugueses, os emigrantes máis antigos e numerosos, debido a que foron os colonizadores até 1822, cando Brasil acadou a independencia.

Non só eran chamados galegos os naturais de Galicia, senón tamén os portugueses que estaban en Brasil. A palabra era empregada dunha forma pexoravitiva para aculmar os portugueses cando se quería insultalos. Posteriormente, o termo galego acabou estendéndose a todos os estranxeiros, e nalgunhas rexións brasileiras, a palabra define as persoas de pel moi clara e cabelos louros.

A presenza dos portugueses pode ter ocultado a comunidade galega impedindo que as miradas académicas identificasen os galegos como un grupo numericamente importante, activo na sociedade carioca e con características propias. […] Portugueses e italianos tiveron importancia na sociedade carioca como os maiores grupos de emigrantes […], pero os portugueses sen dúbida tiveron representación nun sector que traballa directamente coas clases máis populares: o do comercio. Eran maioría como donos de bares, pensións, restaurantes, panaderías e tendas de ultramarinos. Curiosamente os galegos destacáronse no mesmo sector profesional, en bares, hoteis e restaurantes, como se tivesen seguido o exemplo dos portugueses, que dominaban ese ramo antes da chegada dos competidores. […]

Ademais de ocupar a mesma área profesional compartían a proximidade entre os dous idiomas, a afinidade de costumes, a mesma área xeográfica da que procedían – os portugueses que estaban en Río eran maioritariamente do Norte de Portugal – e o feito de que xa existira – previamente á emigración transoceánica – un fluxo migratorio de Galicia para este país. (SARMIENTO, 2006, p. 44-47)
O que Érica comenta sobre os brasileiros fazerem uso termo galego fazendo alusão aos imigrantes portugueses também foi mencionado por José González Márquez em sua entrevista: “Sabes que allá no dicen “galego”, ¿no? Galego llaman a los portugueses. Allá, los gallegos de Galicia son españoles. Allí me llaman de español, así como aquí me llaman brasileiro muchos.”

Antón Corbacho Quintela (2009) comenta também sobre a figura de Víctor M. Balboa, um ativo galeguista no Rio de Janeiro. O jornal argentino A Nosa Terra, entre 1946 e 1956, publicava notícias enviadas por Balboa sobre o movimento galeguista no Rio de Janeiro encabeçado pelo próprio Balboa que criara o grupo Irmandade Galega, porém sem muito sucesso. Segundo Antón, para Balboa os motivos de os galegos não se organizarem em agremiação seriam “a alienação, a não renovação da colônia galega, a circunstância do meio brasileiro e o gosto dos galegos pelas representações do espanholismo” (QUINTELA, 2009, p. 64). A explicação de Balboa com relação à dissolução identitaria dos galegos no Brasil era a seguinte: “Así como nas repúblicas hispano-americanas a voz ‘gallego’ serve para designar a todo español, no Brasil particulariza simplemente ao portugués, perdendo o fillo de Galicia sua denominación xenérica para ser, sinxelamente coñecido como ‘español’, e como tal, ben estimado, tanto pelas súas meritorias condicións de traballador honrado como, ainda, por ser súbdito de España; e para o brasileiro común desa España de pandeireta, que él admira no taboado de cualquer cabaret aplaudindo a cualquer ‘graciosa’ tonadilleira. Pois ben, muitos dos galegos daqui participan, en pouco ou en muito, dese falso conceito e, como os naturais do país, entusiásman-se con a arte flamenca. Xa alguen afirmou que os galegos toleamos polo flamenquismo. Mas, non se pense que eses galegos ‘españoleiros’ non sintan a voz da ‘terra’. Sénten-na a seu modo, pero sénten-na.

A proba é que se emocionan cuando houven soar a gaita galega, e non se pexan de bailar, nas festas a muiñeira, tal como nos seus tempos mozos, alá; cual si a isto fosen impulsados pola voz inmanente da raza. Isto nos diz de modo claro que non falta galeguidade aos paisanos, ainda que de común soterrada nas cinzas da incomprensión. O que lles falta é coraxe para afirmar súas característricasraciais, víctimas que son do complexo de inferioridade.” (QUINTELA, 2009, p.64-65)

Esta interpretação de Balboa transcrita por Antón é um tanto curiosa e vai ao encontro do depoimento de María Teresa Del Río Dominguez, que também comenta algo sobre o sentimento de inferioridade, porém sentido pelos filhos dos galegos imigrantes: […] había muchas fiestas españolas, no decían gallega, decían española. Gallego, no existían gallegos, existían españoles. Entonces había unas fiestas culturales, sobre el descubrimiento de América y estas cosas, donde todo el pueblo de la ciudad iba. Hasta hoy tiene, la Fiesta de la Hispanidad, solo que la hacen en el club, la de calle se acabó. Y quien organizaba estas fiestas, eran los gallegos. Y en el momento en que los mayores se fueron, los hijos ya no siguieron con estos costumbres. La mayoría se avergonzaba de sus padres, porque muchos eran analfabetos, no tenía cultura. Entonces ellos, al tener un diploma, ya tenían vergüenza de sus padres. Y así se iban para otro sitos y los padres venía de vuelta para España.
Tal sentimento, ainda que de maneira inconsciente, pode explicar a dificuldade por parte dos entrevistados em expressar suas opiniões quando lhes foi perguntado o que achavam sobre a memória dos galegos no Rio de Janeiro e a importância de suas contribuições para esta sociedade.

Apesar de tais problemas, existem instituições que buscam preservar e difundir a cultura espanhola e galega no Rio de Janeiro. Entidades como os centros recreativos e associações normalmente têm como finalidade não apenas reunir os imigrantes como também promover atividades de caráter cultural, encontros e festas típicas em memória de suas origens. Um exemplo de associação é a Casa de Espanha do Rio de Janeiro, fundada em 27 de março de 1983 a partir da fusão do Centro Espanhol de Rio de Janeiro com a Casa de Galícia. Dentro de suas atividades culturais a sociedade conta com grupos folclóricos galegos que normalmente realizam apresentações em datas comemorativas,
como o aniversário do clube ou no mês de outubro nas festividades do Dia da Hispanidade.

O Brasil aparentemente caminha com largos passos no campo da preservação de seu patrimônio cultural, seja este de caráter material ou imaterial com os trabalhos desenvolvidos por órgãos governamentais tais como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) ou o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM). No entanto, ao que se refere à preservação da presença espanhola e/ou galega no país ainda muito deve ser pensado. Uma evidência disto pode ser percebida devido ao fato de não haver instituições de memória voltadas para a comunidade em questão.

No portal eletrônico do Sistema Brasileiro de Museus (SBM) é possível ter acesso a informações acerca do Cadastro Nacional de Museus e consultar quais museus brasileiros já estão registrados mediante a utilização de um buscador5 localizado em seu portal.

Utilizando tal ferramenta pode-se encontrar um total de 3.076 instituições cadastradas em todo o Brasil. Ao realizar uma busca mais refinada a fim de saber quais destas instituições são voltadas para o trato do tema da imigração no país, foram assinaladas as opções de busca “Qualquer UF” e “Qualquer das palavras” e utilizadas as seguintes palavras chave: imigrante, imigrantes, imigração, colonizador, colonizadores e colônia. Com isso houve uma incidência de 202 instituições cadastradas.

Em uma terceira busca, assinalando as mesmas opções, foram utilizadas as palavras chave Espanha, espanhol, espanhola, espanhóis, hispanidade, hispânico, hispanista e hispanismo. De todas as palavras chave utilizadas as únicas encontrada foram Espanha (04 vezes), espanhol (02 vezes), espanhola (02 vezes), espanholas (01 vez) e espanhóis (01 vez), apresentando um total de dez instituições cadastradas. Dos resultados obtidos, apenas a Casa do Lembrador relaciona a palavra espanhóis com algum termo que tenha a ver com colonização ou imigração.

Em uma quarta e última consulta, seguindo os mesmo passos anteriores, foram utilizados os termos Galícia, Galiza, galega, galegas, galego e galegos, sem apresentar qualquer resultado.

Das 202 instituições apresentadas na primeira busca refinada, 26 não especificam a nacionalidade dos imigrante que são representados em suas coleções ou que contribuíram para a aquisição de seus objetos. Destes 26 museus, grande parte pertence aos estados da região sul do Brasil, onde a presença dos espanhóis foi mais restrita, o que nos leva a crer que a possibilidade dos imigrantes desta nacionalidade serem mencionados em alguma destas instituições é remota. No entanto, em Caxias do Sul (RS) está localizado o Monumento ao Imigrante, onde talvez algum tipo de abordagem sobre a presença espanhola possa existir, porém não foi possível encontrar nenhuma informação neste sentido. A Casa do Lembrador em Arapoti (PR) menciona algo sobre os imigrantes espanhóis, mas tampouco foi possível obter mais informações. Já nas instituições localizadas no estado de São Paulo as possibilidades parecem maiores pois este foi o estado que recebeu o maior número de imigrantes, além do fato de a maioria dos estudos sobre espanhóis e galegos no Brasil terem sido realizados lá.

Onde hoje está o Memorial do Imigrante originalmente foi a Hospedaria do Imigrante, que recebeu imigrantes entre 1886 e 1974, sendo convertido em centro de memória em 1998. Em 29 de abril de 2010, o presidente do Consello de Cultura Galega, Ramón Villares, firmou convênio com o Memorial do Imigrante a fim de realizar a recuperação de toda a documentação referente aos imigrantes galegos que desembarcaram no Porto de Santos (CULTURAGALEGA.ORG, 2010). No entanto, em dezembro de 2010, houve uma mudança de gestão no Memorial que esteve com suas atividades suspensas devido a obras de restauro do edifício histórico e reformas de âmbito museográfico. A reabertura do Novo Memorial do Imigrante estava prevista para o segundo semestre de 2011, porém as obras de reforma continuam até o presente momento. Quanto ao convênio com o Consello de Cultura Galega, não foi possível saber se o mesmo continuará em vigor durante a nova gestão. (RODRIGUES, 2011)

No estado do Rio de Janeiro, a nível museológico sobre o tema das imigrações, existe o projeto de musealização da antiga Hospedaria deImigrantes da Ilha das Flores, em São Gonçalo, não havendo registro de mais instituições voltadas aos imigrantes neste e tampouco sabe-se que grupos de imigrantes são contemplados no projeto.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ainda que tenha existido um possível problema de negação das próprias raízes e muitas vezes tenham sido confundidos com os portugueses, é inegável que a presença galega foi consideravelmente forte na cidade do Rio de Janeiro. Alguns exemplos são que tiveram forte participação no setor comercial da cidade pelo menos desde as últimas décadas do século XIX e existe uma grande proximidade linguística entre a cultura carioca e a galega. Causa estranhamento o número de instituições de memória voltadas para a preservação dos mais distintos grupos étnicos que se dirigiram ao Brasil enquanto que inexiste qualquer instituição desta categoria que trate do grupo espanhol ou galego, seja de maneira exclusiva dentro de uma localidade específica ou dentro de um contexto geral sobre a imigração no Brasil, quiçá salvo algumas poucas exceções.

Pouco a pouco as evidências da presença galega no Rio de Janeiro são apagadas da memória coletiva do povo carioca e inclusive entre seus próprios descendentes. Se somado a isso o fato de já não existir mais o mesmo movimento migratório do século XX, a tendência é que tal memória se apague por completo. Logo, medidas para a identificação, difusão e preservação da presença destes imigrantes são de caráter de extrema importância e urgência. Prova disto é a perda de algumas evidências básicas como o caso do “abrasileiramento” de nomes e sobrenomes espanhóis e a não preservação do idioma galego ou castelhano entre seus descendentes.

Pouco a pouco as evidências da presença galega no Rio de Janeiro são apagadas da memória coletiva do povo carioca e inclusive entre seus próprios descendentes. Se somado a isso o fato de já não existir mais o mesmo movimento migratório do século XX, a tendência é que tal memória se apague por completo. Logo, medidas para a identificação, difusão e preservação da presença destes imigrantes são de caráter de extrema importância e urgência

Deve-se buscar as marcas culturais deixadas por estes imigrantes na sociedade local como na linguagem, na literatura, na culinária e nos demais âmbitos possíveis que possam haver, além da contribuição econômica comentada pelos entrevistados. A partir desta identificação um trabalho de difusão de tais evidências entre os demais cidadãos deve ser realizado, de maneira que se faça de conhecimento geral a presença de tal comunidade entre os cariocas, mostrando seu valor e importância para a formação desta.