O cinema como reconstrução da memória: O lapis do carpinteiro

Rodrigo Moura

Mestrando em Literatura Comparada na UERJ

 

A literatura, o cinema e outros tipos de arte tiveram uma importância inimaginável no que tange ao processo de reconstrução da identidade e da memória galega, posto que através desses tipos de manifestações artísticas foi possível manter viva toda a cultura e história galega que durante muito tempo sofreu com a repressão e a censura do governo espanhol.

O filme  “O lápis do carpinteiro” dirigido por Antón Reixa é uma releitura do livro de mesmo nome do autor galego Manuel Rivas. Nesse longa que se passa em Santiago de Compostela e na Corunha, podemos ver a dura realidade galega durante o início da ditadura de Franco em meio a prisões, torturas e mortes.

O lápis do carpinteiro começa numa espécie de cabaré, localizado na fronteira entre Portugal e Galiza, em que um velho conta suas memórias a uma prostituta. Em um certo momento a mulher indaga sobre o lápis que o homem carrega na orelha e ele retruca perguntando se ela gostaria de saber a história daquele lápis e assim com o auxílio do “flashback” inicia o filme.

ImaxeMarisa e Daniel abraçados

Santiago de Compostela – 1936, “Pouco antes do Golpe de Estado”, diz uma legenda logo no início do filme. Logo após uma cena de uma reunião do Estatuto de Galicia, espécie de organização que luta pela Autonomia e pela causa galega, Daniel La Barca, médico e comunista, inicia um discurso sobre a importância do voto feminino e da participação efetiva das mulheres na vida política. Ele é intensamente aplaudido por Marisa que está totalmente apaixonada pelo médico.

Em uma outra cena, vemos a cúpula militar tramando contra os comunistas, anarquistas e socialistas com o auxílio de uma lista, típica de governos ditatoriais, onde o nome de Daniel consta como um dos principais inimigos dos militares. Com a ajuda de fotos, dados e informações, os militares descobrem que Daniel nasceu no México e que exerce a medicina em Santiago de Compostela, além de ter ao seu lado anarquistas e comunistas.

Daniel é preso sem motivo aparente pelos militares quando este visitava Marisa em uma loja de vestidos de Santiago de Compostela. Marisa e as outras mulheres gritam e aos berros chamam os militares de “cabróns”, pedindo a liberdade de Daniel.

Pouco a pouco instaura-se o governo militar em Espanha, e Galiza vem sofrendo uma série de imposições culturais, como por exemplo: adotar o castelhano como única língua digna de ser falada. Pelas ruas ouve-se “Arriba España” e prisões sem motivos se espalham pela capital galega.

No Presídio Municipal, médicos, artistas, sindicalistas e professores se questionam sobre o porquê das prisões e sobre os novos rumos da República. Nesse momento um pintor se dá conta de que seu lápis está gasto de todo e um carpinteiro lhe dá um novo para que ele possa continuar suas caricaturas, uma forma de resistir, uma forma de sobreviver ao cárcere – a arte.

Marisa, que é filha de um grande fidalgo aliado aos militares, Don Beito, sofre com a prisão de Daniel e tenta encontrar alguma forma de vê-lo. Entretanto, seu pai deseja que ela case com um soldado.

Na prisão, o pintor começa a contar uma história a fim de manter os ânimos calmos e esquecer do cárcere. A história, na verdade uma lenda, fala sobre duas irmãs: uma chamada morte e outra vida. As duas tinham muitos pretendentes e resolveram fazer uma promessa de fidelidade eterna ao homem que melhor tocasse algum instrumento. Numa certa noite as duas foram a um baile, a irmã morte com seus sapatos brancos e a vida os negros, foram dançar em um lugar onde todos os rapazes da comarca ficavam. Durante a noite houve um naufrágio: “Esse é um país de naufrágios” brinca o pintor. Quando o barco afundou de todo alguns instrumentos chegaram até a costa e um pescador distraído encontrou um acordeon e tocou intensamente. A irmã vida apaixonou-se loucamente pelo pescador e a irmã morte, invejosa, ficou triste e agora vaga pelos caminhos, sobretudo no frio, procurando seu músico. Ela vai até a casa das pessoas e pergunta se alguém ouve o acordeonista e se não há respostas, a morte leva a pessoa consigo.

Após esse episódio, um soldado pede ao pintor que o acompanhe. Numa série de torturas e humilhações, o pintor é morto com um tiro na testa. O soldado antes de matá-lo pede desculpas e pega o lápis de carpinteiro que o pintor levava em sua orelha. No momento da morte, surge algumas cenas por meio de “flashback” em que o soldado vê seu pai matando um lobo e pede desculpas por fazê-lo. Nesse sentido, pode se fazer alusão à máxima de que “o homem é o lobo do homem”.

Daniel é transferido para uma espécie de Campo de Concentração na Corunha e Marisa fica sabendo. Ela vai até à Corunha visitá-lo, porém Daniel pede que a mulher se afaste dele e nunca mais volte a aquele lugar. Enquanto isso, nos campos mais mortes e torturas acontecem.

Imaxe Luís Tosar interpretando um soldado espanhol

O médico Daniel é levado a um campo de extermínio e sobrevive. Nesse momento, a Igreja entra em cena ao lado do governo fascista. Um padre dita as normas dessa nova sociedade espanhola e os presos respondem com uma crise de tosse que conseguem calar o padre. Os militares se espantam com a cena e gritam “Espanha” e os presos retrucam “Livre”.

Mais uma vez Daniel é levado pelos militares e sobrevive, fazendo jus a sua figura de herói romântico. De volta ao cárcere, Daniel encontra seus companheiros. Um deles, o cantor, inicia um belo canto “Foi coma un soño que nunca existiu”. Os militares, com sua intolerância, levam o cantor para a morte, mas ele deixa essa canção como grito de ordem para os que ainda resistem.

Daniel é julgado pelos militares e fica decidido que ele pode voltar ao México, seu país de origem. No trem que vai de Santiago para a Corunha, o médico encontra Marisa. Os dois, sob vigia dos militares, conseguem ter uma noite de amor no hotel onde Daniel se hospedara antes de voltar a seu país.

O filme termina como no início. O cabaré surge de novo em cena e o velho finda a história do casal, dizendo que Daniel e Marisa foram para o México e que só retornaram à Galiza com a morte do General Franco. O velho, debilitado, resolve sair do cabaré e encontra um cachorro raivoso. Ele saca a arma, pede desculpas e inicia os disparos, mas nenhum acerta o animal. O velho cai morto, é amparado pelas prostitutas e o filme termina de forma épica.

Como pudemos observar a partir dessa pequena resenha, o ato de “ser galego” foi quase um crime durante a ditadura franquista. Os galegos foram presos, torturados e mortos. E esse filme de Antón Reixa cujo fundo romanesco traz à tona inúmeras questões sobre a barbárie galega. O cinema, permite, então reavivar a memória galega para que esses capítulos terríveis jamais caiam no esquecimento.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s