Centro Galego de Buenos Aires: Uma experiência

Centro Galego de Buenos Aires: Uma experiência

Rodrigo Moura (Mestrando – UERJ)

A Literatura e a cultura galega são objetos dos meus estudos há cerca de 3 anos desde quando assisti pela primeira vez a Jornada das Letras Galegas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e me vi encantado e ao mesmo tempo perturbado pela literatura galega.

No Brasil, há alguns centros que investigam a língua e a literatura galega. Poder-se-ia citar o PROEG (Programa de Estudos Galegos) da UERJ, o NUEG (Núcleo de Estudos Galegos) da Universidade Federal Fluminense e o  Celga (Centro de Estudos da Língua e Cultura Galegas) da Universidade Federal da Bahia. Entretanto, no que tange à vida acadêmica, nota-se um certo esquecimento de boa parte do ensino da língua galega e da literatura contemporânea. O que se sabe sobre Galiza nas Universidades diz respeito às cantigas e à lírica medieval.

No início da pesquisa, me encontrei um pouco perdido, posto que as fontes em galego estavam um pouco fragmentadas e confusas. O mundo galego ainda se abria sobre minha mente quando tive contato com A esmorga de Eduardo Blanco-Amor. O amor pela Literatura galega veio após muito trabalho e noites mal dormidas a ler toda a obra de Xosé Luís Méndez Ferrín, meu atual objeto de estudo no Mestrado em Literatura.

Durante a pesquisa, descobri que o centro galego de Bos Aires, ou Buenos Aires, teve um papel fundamental na sobrevivência da literatura galega durante a Guerra Civil Espanhola:

“A cultura galega e, xa que logo, a súa literatura, tivo que refuxiarse no entusiasmo esperanzado dos exilados ultramarinos e tardaría en intentar unha tímida saída á luz no seu propio chan. De feito, foi en America, sobre todo na latina e, dentro dela, en Bos Aires, onde atopamos un certo movemento cultural galeguizante que paliou nalguma medida, o grande trauma que tivo que sufrir a terra nai” (Varela, 1994, p. 300)

O Centro Galego de Buenos Aires foi criado a partir de inúmeras reuniões com representantes de várias associações e membros responsáveis pela cultura galega, mais especificamente no dia 2 de maio de 1907 na rua Alsina 946, casa do presidente do Centro de Vigo, don Antonio Varela Gomes. Em 1917 o Centro mudou-se para a rua Belgrano 2189. O Centro serviu de refúgio para exilados, com auxílio médico e social, além disso serviu como um grande impulsionador da literatura e cultura galega. É importante lembrar que muitas obras clássicas da literatura galega foram produzidas dentro da Galiza americana, poder-se-ia citar a figura de Castelao, um dos maiores nomes das letras galegas de toda a história.

 

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Entrada do Centro Galego de Buenos Aires

Em outubro de 2013, tive a grande a oportunidade de conhecer o Centro Galego de Buenos Aires, na Argentina. Fui com o sentimento de um pesquisador que necessita ter o contato vivo com o seu objeto de estudo. Caminhei da Avenida Corrientes até a Belgrano com várias dúvidas sobre o que encontraria dentro do Centro Galego. Além disso, me pus a perguntar a algumas pessoas se conheciam o tal centro e as respostas não foram muito entusiasmadas.

Finalmente cheguei ao Centro Galego, quase que não percebi sua faixada simples e singela, nesse instante me vi diante de um filho que volta à pátria. Nesse momento eu me senti um galego, um legítimo galego que volta à sua terrinha. Dentro do Centro fui até a recepção perguntar sobre uma visita guiada pelo Centro, entretanto a senhorita que me atendeu disse que precisava chamar o responsável pelo Departamento de Cultura, mas que eu não devesse ter muitas esperanças, pois o Centro Galego é hoje um hospital e suas obras estavam “escondidas”. Fiquei um tanto decepcionado, mas olhei para a estátua de Rosalía de Castro no hall de entrada do Centro e mantive minhas forças.

 

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Estátua de Rosalía de Castro na entrada do Centro Galego

Em seguida, me veio um senhor chamado Vitor, falou comigo em galego e me apresentou toda estrutura do Centro. Me explicou que o Departamento de Cultura no Centro hoje funciona com muita dificuldade, posto que o Centro Galego tornou-se um hospital de referência e fica um tanto complicado desenvolver qualquer trabalho cultural em meio a doentes e camas de hospital. Mesmo assim, Vitor me disse que havia um grande acervo de obras, livros, pinturas e, além disso, me apresentou ao Teatro Castelao. Lembro “que emoción fonda a miña introducíndome na fraga a procura do meu”. Percebi que o Centro estava repleto de obras espalhadas e, na sua maior parte, escondidas do grande público. Por exemplo, há inúmeros quadros Soto Mayor, cópias de livros de Vicente Risco, Otero Pedrayo e Castelao.Além disso, Centro conserva intacto o quarto onde morreu nosso ilustríssimo Castelao.

 

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                  Quarto onde morreu Castelao no Centro Galego

Minha experiência no Centro Galego de Buenos Aires foi de extrema importância para continuar minha pesquisa e meus estudos em Literatura Galega, posto que compreender o que é ser galego, o que é escrever em galego, o que é viver em galego não uma das tarefas mais fáceis. O Centro Galego representa uma Galiza viva, uma Galiza produtiva, uma Galiza ceibe.

Referências Bibliográficas:
– VARELA, Anxo Tarrío. Literatura Galega: aportacións a unha Historia Crítica. Edicións Xerais de Galicia: Vigo, 1994.
– Revista del Centro Gallego de Buenos Aires, nº 684, Octubre de 2007
 
 
Sobre o autor: 

Rodrigo Barreto da Silva Moura estuda Mestrado (Conceito CAPES 4) em Literatura Portuguesa e Galega Contemporânea pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e  é Bacharel em Letras (Português-Francês) pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2013). Tem experiência na área de Literatura Portuguesa, sobretudo no estudo comparativista entre textos desenvolvidos na Galiza e em Portugal do final do século XX e início do século XIX. Estuda o processo de Identificação dos Sujeitos, ou seja, como a Literatura Contemporânea, sobretudo as obras de Xosé L. M. Ferrín e José Saramago, retrata e representa o indivíduo inserido na chamada Modernidade Tardia, a partir de uma concepção Sociológica, Antropológica e até Psicanalítica, visando compreender o complexo processo de construção e (re)construção da Identidade.

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